Terça-feira, 26 de Abril de 2011

eneida de virgílio:obra completa(12)


 

LIVRO XII

 

Turno, lendo nos olhos dos Latinos,
Lassos do adverso marte e esmorecidos,
Que exigem-lhe a promessa, ignito e fero,
Mais se exaspera e mais. Qual, de afras brenhas
5 Ferido o leão no peito, encrespa as garras,
Do colo folga a sacudir a juba,
Do caçador estala o fixo dardo,
Ruge-lhe impávido a cruenta boca;
Tal cresce a fúria do abrasado moço,
10 Que embravecido ao rei dest’arte fala:
“Turno é prestes; não há por que o recuse,
Nem retrate a palavra o Troa ignavo.
Já marcho: imola, ó padre, o ajuste assela.
Ou d’Ásia o desertor eu só na Estige
15 Despenho (assista o exército em repouso)
E a querela comum vinga este braço;
Ou vencido me entrego, e mais Lavínia.”

Tranqüilo então Latino: “Ó bravo jovem,
Quanto em brio te excelsas, mais me cumpre
20 Temer por ti, pesar-te os casos todos.
Muito hás valente a herança acrescentado;
Nem ouro falta e ânimo a Latino:
Possui Laurento e o Lácio outras donzelas
Não somenos. Verdades sem rebuço
25 Desabridas me escuta, e não te enojes.
A filha (homens e deuses mo cantavam)
A nenhum proco antigo unir cabia:
Mas por nossa amizade e parentesco,
Pelo choro da esposa o nó desfeito,
30 Ao genro a fé quebrei com ímpias armas.
D’então vês quantos males hei sofrido;
Que transes tu mormente. Já perdidas
Ações duas, de Itália nestes muros
Jaz a esperança; o campo alveja de ossos,
35 Mana do sangue nosso o Tibre quente.
Que indecisão! que insânia me transtorna!
Se, Turno extinto, associá-los devo,
Por que, ele salvo, a guerra não termino?
Os consangüíneos Rútulos, a Itália
40 Que não dirá, se à morte (longe o agouro!),
Quando a filha me pedes, eu te exponho?
O lance é dúbio; o velho pai condoas,
Que em Ardea lá te aguarda e lá te chora.”
Turno impaciente não se dobra: o achaque
45 Mais se agrava ao remédio. Apenas pôde:
“Por quem és, brada, ó pai, de mim não cures;
Deixa-me a escolha de acabar com honra.
Eu também sei jogar a espada e a lança,
E aos golpes deste pulso escorre o sangue.
50 Não tem cá deusa mãe que em névoa o encubra
Femínea, ou sombras vãs em que se esconda.”

Treme a rainha à condição da justa,
Retém desfalecida o ardente genro:
“Turno, por este pranto, se hás de Amata
55 O pundonor a peito (pois coluna
Me és na velhice, e de Latino o império
E inclinada esta casa em ti se esteia),
Desse duelo desiste: eis quanto peço.
Dele, Turno, o teu fado e o meu depende;
60 A luz odiosa deporei contigo,
Nem genro o salteador verei cativa.”
À voz materna, em lágrimas Lavínia
Incende as faces, de rubor corando;
Fogo instantâneo o vulto lhe escandece:
65 Tal fica o índio marfim na grã sangüínea,
Ou purpureia a rosa entre alvos lírios.
Pregando olhos de amor na casta virgem,
Turno em marte flameja: “Ó mãe, em suma,
Com tal choro e presságio não me aflijas,
70 Quando ao cru prélio desço: Turno alçada
Não tem na morte. Núncio, Idmon, não grato
Leva ao tirano frígio esta messagem:
Da Aurora crástina em puníceo coche
Ao roxear, os batalhões não mova;
75 Armas descanse o Rútulo e o Troiano;
Decida o sangue nosso; em liça aberta
Disputemos Lavínia; e cesse a guerra.”

Disse, e parte; os frisões demanda, e os mira
Dos relinchos alegre: de Orítia
80 Prenda honrosa a Pilumno, sobrepujam
No curso os ventos, no candor a neve;
De aurigas a mão cova os peitos logo
Fagueira trata, as crinas lhes penteiam.
De alvo oricalco e ouro a crespa cota
85 Ele aos ombros circunda, a espada ajeita,
O elmo rubri-cornuto, a enorme adarga:
Fez-lhe a espada ao pai Dauno o rei do fogo,
E a temperou candente n’água estígia.
Do Aurunco Actor espólio, hasta robusta
90 Pega, ao maior pilar do meio fixa.
E a brande a blasonar: “Ó tu, que nunca
Falhaste, lança, é tempo: Actor pojante
Manejou-te, ora Turno; dá que eu prostre
Válido, e arranque ao semiviro Frígio
95 E lhe espedace a malha, em pó lhe suje
O frisado cabelo ungido em mirra.”
Furente e em sanha, o vulto lhe cintila,
Em brasa ardem-lhe os olhos: como o touro,
Que a luta ensaia horrífico mugindo,
100 Tentando irar-se, aos troncos remetendo,
A cornadas os ventos desafia,
A areia escarva, e à briga se aparelha.

Não menos fero nas maternas armas,
Enéias embravece e o marte afila,
105 Folga do ajuste que dirime a guerra.
Lembrando o fado, Iulo e os seus consola
Do susto; ao rei deputa, e lhe assegura
Que aceita a paz e as condições confirma.

Assim que doura o Sol os altos cumes,
110 Quando, ao surgir do pélago, os Etontes
Luz de amplas ventas sopram; campo à justa
Medindo aprestam Rútulos e Teucros
Sob a grande muralha, e em meios focos
E aras gramíneas às comuns deidades;
115 Parte, água e lume trazem, de verbena
E véus de linho as fontes coroando.
Pilos na destra, a legião d’Ausônia
Rui de atulhadas portas; frígia e tusca
D’além instrutas variamente as hostes:
120 Como se Marte os chame a duro prélio.
Mnesteu ramo de Assáraco, fulgindo
Em ostro e ouro, entre milhares corre,
E o Neptúnio Messapo e o forte Asilas.
Ao sinal, tomam posto, as hastas plantam,
125 Encostam seus broquéis. O inerme vulgo,
Ávidas mães, enfraquecidos velhos,
Por cumieiras derramam-se e por torres,
De janelas e eirados se debruçam.

Do monte, agora Albano, já sem nome,
130 Lustre nem glória, atenta Juno a liça
E os exércitos ambos e Laurento.
Eis fala a deusa à diva irmã de Turno,
A qual, em paga do pudor virgíneo
Que o pai sumo roubou-lhe, os ressonantes
135 Rios preside e lagos: “Sabes, ninfa,
Das ribeiras adorno, entre as Latinas
Que entraram do meu Jove o leito ingrato,
Só me és cara, e no Olimpo coloquei-te.
Teu mal, Juturna, aprende, e não mo imputes:
140 O Lácio, enquanto aprouve à sorte e às Parcas,
Hei protegido e a Turno; mas conheço
Que o moço lida com funesto auspício,
E que o termo fatal se lhe aproxima.
A briga, o ajuste os olhos meus não sofrem.
145 Se algo ousas pelo irmão, convém que o faças:
Talvez melhore o fado.” Aqui Juturna
Se lava em pranto, e vezes três e quatro
A punhadas maltrata o seio lindo.
“Não é tempo de lágrimas, diz Juno;
150 Eia, o irmão de algum modo esquiva à morte,
Ou desmancha tal pacto e a guerra incita:
Esta empresa, eu t’a ordeno.” E a ninfa deixa,
A quem tituba o coração dorido.

Com toda a pompa entanto os reis saíram:
155 Em quadriga Latino, em cuja fronte
Brilha em dourado sol de raios doze,
Do avô debuxo; em alva biga Turno,
Que dois hastis sopesa de ancho ferro.
Dos Romúleos o pai do arraial marcha,
160 Fulgurando no escudo e arnês sidéreo,
E Ascânio ao pé, de Roma outra esperança;
Em veste pura, de uma cerda o feto
E intonsa o fecial aduz cordeira
Para as flagrantes aras. Ao nascente
165 Eles virados, salso farro espargem,
Com faca marcam na moleira as hóstias,
Libam taças no altar. O pio Enéias
Despindo o alfanje, orou: “Testemunhai-me,
Sol, terra por quem tanto hei padecido,
170 Onipotente soberano padre,
E tu Satúrnea déia, já mais branda;
Eu vos depreco; invoco a ti, Mavorte,
Árbitro das batalhas; fontes, rios;
E a vós do mar cerúleo e etéreos numes.
175 Se acaso triunfar o ausônio Turno,
Os vencidos, convenho, a Evandro passem,
Daqui se aparte Iulo; nem com armas
Contra este reino os meus, revéis conspirem:
Se a vitória coroa o marte nosso
180 (Como antes cuido, e os deuses mo concedam),
Eu não pretendo o império, e ao Teucro menos
O ítalo sujeitar: em laço eterno
Lei justa invictos una os povos ambos.
No culto intervirei; na guerra o sogro:
185 Tenha o solene mando. A nova Tróia
Funde-se, e o nome seu lhe dê Lavínia.”

Enéias finda; e começou Latino,
Seu olhar para cima e a destra alçando:
“À terra, Enéias, juro, ao pego, aos astros,
190 E aos gêmeos de Latona e ao deus bifronte,
E às potências do abismo e a Dite sevo;
Juro ao pai que a troar sanciona os pactos,
D’ara às chamas que toco, aos numes todos,
Que, suceda o que for, jamais a Itália
195 A paz há de romper, nem força alguma
Dela me desligar; bem que um dilúvio
Nas ondas solva o mundo, o céu no inferno:
Como este cetro (e o cetro aqui sacode)
Nunca enverdecerá com sombra e folhas,
200 Pois extirpado, sem ter mãe que o nutra,
Depôs no bosque a ferro a coma e os galhos;
Árvore já, que industre mão de engastes
Éreos ornara aos régios pais latinos.”
Dest’arte as alianças confirmavam,
205 Em presença dos próceres; e as reses
Degolam para o fogo, e sobre altares
As entranhas em pratos lhes palpitam.

Muito há que o duelo desigual parece;
E de mais perto os Rútulos em susto
210 Observam como Turno a passo lento,
Lívido e mudo o juvenil semblante,
Submissa a vista, as aras acatava.
Ao ver a irmã Juturna que o murmúrio
Cresce, e desvaira o vacilante vulgo;
215 Fingindo-se Camerte (por avoengos
E paterno valor, por si preclaro),
Semeando rumores corre as filas.
Destra aos Rútulos clama: “Não vos peja
Que por tantos se arrisque uma só vida?
220 Em número e denodo iguais não somos?
Ei-los presentes Árcades e Troas,
Da Etrúria a fatal hoste infensa a Turno:
Cada qual seu contrário apenas temos.
Ele que aos divos se ale, aos quais se imole,
225 Vivo na voz da fama; e em ócio quedos,
Nós cá, perdida a pátria, ao jugo estranho
De soberbos senhores nos rendamos!”

Isto afogueia os moços; e um sussurro
Pelas turmas serpeia. Já mudados
230 Laurentes e Latinos, que esperavam
Em seguro, a paz rota e pugnar querem;
Do infortúnio de Turno se amiseram.
Mais Juturna os instiga, e um sinal mostra
Que a propósito os ânimos conturba,
235 Do prodígio embaídos: águia fulva
No rubro éter caçava um sonoroso
Leve marinho bando; e a vôo às águas
Presto resvala, e empolga um cisne belo
Na ávida garra. Os Ítalos se alentam;
240 E as aves todas, ó portento! a fuga
Ruidosas convertendo, em nuvem densa
Tapando os ares, o inimigo atacam;
Té que, cedendo à força e à mesma carga,
Esmorece, e no rio a grave presa
245 Das unhas larga, e some-se nas auras.
Todos, prestes à lide, o auspício aclamam;
E brada o áugur Tolúmnio: “Isto, isto, ó numes,
Tanto roguei-vos; o favor aceito.
Comigo, arma, arma, ó gente amedrontada,
250 Quais fracas aves, pelo atroz vindiço
Que estas praias devasta: ele não tarda
Velas a dar corrido ao ponto fundo:
Cerrando as filas, defendei comigo
O rei vosso e da justa arrebatai-o.”

255 Disse, e logo um zarguncho infesto arroja;
Os ares frecha o estrídulo corniso:
Soa o alarido; horrífico tumulto
Os cúneos turba, os corações escalda.
A hasta, a voar por entre nove esbeltos
260 Irmãos, que de fiel tirrena esposa
Houve o Arcádio Gilipo, alcança um deles,
De relumbrante arnês gentil mancebo,
Onde o cosido bálteo o ventre pisa,
E a mordente fivela une as charneiras;
265 Traspassa as costas e na arena o estira.
Acres, cegos do nojo, os irmãos rompem,
Remesso ou gládio em punho; os de Laurento
Contra avançam: de novo inundam Frígios,
E arreados Arcádios e Agilinos.
270 Um só do ferro o amor domina em todos.
Saqueiam-se(83) aras; tolda os pólos torva
De rojões tempestade e chuva de aço;
Copas tiram, tições: Latino foge,
Da injúria aos deuses, da traição queixoso.
275 Qual emparelha o coche, qual de um salto
Cavalga lesto, qual desnuda a espada.

Messapo, que anular deseja as pazes,
Ao Tusco Auletes em reais insígnias
Remete o bruto: a recuar de espanto,
280 Atrás o triste rei de encontro às aras,
Cai de ombros e cabeça. Eis que Messapo
Do alto corcel malfere ao suplicante
Com trabal chuça, e férvido vozeia:
“Morre, esta é melhor vítima aos supremos.”
285 Acode a chusma, e os quentes membros despe.

Corineu, de um tição do altar pegando,
A Ebuso, que despede e um golpe acena,
Chameia o rosto: luz comprida a barba,
O chamusco a cheirar. De chofre às grenhas
290 Deita-lhe a esquerda, mete-lhe o joelho,
Prostra-o sem tino, corre-lhe a estocada.
A Also pastor, que em frente arrosta e campa,
De alfanje nu seguindo Poladírio,
O assoberba; Also, erguendo a machadinha,
295 Lhe escacha a testa e o queixo, as armas rega
Dos esparsos miolos; férreo sono
O urge, e os lumes em noite fecha eterna.

Mas, patente a cabeça, a destra inerme
Leva, e aos seus brada Enéias: “Suspendei-vos:
300 Que furor, que discórdia vos despenha?
Ferido o ajuste, as condições compostas,
Devo eu só pelejar, deixai-me; os pactos,
Não receeis, confirmará meu braço:
Já destinam-me Turno os sacrifícios.”
305 Nisto, seta a zunir no herói se encrava:
Que mão, que impulso a disparou, se ignora;
Se aos Rútulos um deus, se o mero acaso
Tal glória permitiu: supressa a fama,
Do golpe e arrojo tal ninguém jactou-se.

310 Turno, ao partir Enéias, vendo os chefes
Consternados, fervente e esperançoso
Pede armas e corcéis, no carro salta,
Meneia altivo as rédeas. Voa, imola
Muitos varões de prol, ou semimortos
315 Os roda, ou sob o coche esmaga imensos,
De hastas se apossa que aos fugidos vibra.
Se o truculento Marte no Ebro frio
Pulsa o broquel e incita os corredores,
Eles, bufando pelo plaino livre,
320 Zéfiro e Noto excedem; geme inteira
Ao seu tropel a Trácia; ao nume escoltam
A Ira, a Traição, do Susto o aspecto baço:
Tal em suor fumantes os cavalos
Braceja alegre Turno, e insulta os mortos;
325 Sangüíneo orvalho esparge e verte a roda,
Na lenta areia a unha o cruor calca.
Mata a Folo e Tamíris à mão tente;
A Sténelo de longe, e a Glauco e Lades
Irmãos, que em Lícia Imbraso pai criara,
330 E igualmente os armou, que a pé combatam,
Ou na eqüestre corrida as auras vençam.
Lá, do antigo Dolon guerreira prole,
Pompeia Eumedes, imitando em nome
O avô, no esforço o pai; que ousara, em paga
335 De ir espiar o acampamento graio,
De Aquiles para si pedir o coche:
Mas de outro modo lho pagou Tidides;
Ele aos frisões do herói nem mais aspira.
Turno, avistando na planície o filho,
340 Joga-lhe um dardo pelos vácuos ares,
Pára, da biga pula, e ao semivivo
Que descai sobrevém, no colo a planta
Lhe imprime, esbulha-o do punhal fulgente,
Na garganta lho tinge, e assim blasona:
345 “Mede jazendo, ó Teucro, o solo hespério
Que vinhas conquistar: dos que me afrontam
Eis o prêmio; dest’arte os muros fundem.”

A botes lhe ajuntou Síbaris, Bustes,
Cloreu, Dares, Tersíloco, e Timetes
350 Que aos trancos o animal da cerviz lança.
Qual, se do Egeu no pego o Edônio Bóreas
Sopra sonoro e as ondas rola às praias,
Do céu, por onde vara, espanca as nuvens;
Tal ao fogoso Turno as alas cedem,
355 E fogem batalhões: o ímpeto o leva,
Batem-lhe o carro as flutuantes plumas.
Fegeu não lhe suporta o orgulho e sanha;
Ao coche avança, aos rápidos ginetes
Retorce os freios e espumantes queixos.
360 De rojo e às bridas preso, em descoberto
O apanha larga chuça, e a coira dobre
Rota, a cútis lhe prova o golpe leve.
Ele se adarga, e já de estoque em riste,
Volto para o inimigo, auxílio pede:
365 Mas o eixo despedido e a roda o impele,
Cai por terra; e entre a cota e o casco Turno
Decepa-lhe a cabeça, e troncho o prostra.

Enquanto ufano tudo arrasa e estraga,
Mnesteu e Acates fido e Iulo às tendas
370 A Enéias acompanham, que sangüento
No conto abordoava os tardos passos.
Raiva a lutar, e o meio quer mais pronto
Com que da haste quebrada a farpa arranque:
Abram de espada, e o golpe dilatando
375 Catem-lhe o ferro, por que à pugna torne.
Era presente o Iasidis Iapis,
Dileto amigo do extremoso Apolo;
Que ledo as artes suas lhe doara,
O augúrio, a música, as ligeiras setas.
380 Ele, a fim que a seu pai retarde os fados,
Antes inglório conhecer as ervas
E exercer quis a muda medicina.
N’hasta a bramir Enéias se estribava,
Cercado imóvel de tristonhos jovens
385 E de Ascânio a chorar. Peônia a loba
O hábil velho traçando, em vão tenteia
E usa as de Febo virtuosas plantas,
Em vão sonda com jeito e prende o ferro
Com tenaz pinça: nem fortuna o serve,
390 Nem seu mestre o socorre; e mais no campo
Mais cruel medra o horror, mais perto avulta.
Já se enovela o pó, já se ouvem rinchos,
No arraial chovem dardos; grita imensa
Dos combatentes soa e dos que morrem.
395 Vênus, a quem do filho as dores pungem,
No créssio Ida colheu de flor purpúrea
Dictamo(84), caule de pubentes folhas;
Não da corça ignorado, se expedita
Frecha ao dorso lhe adere. Em névoa escura
400 Vênus o traz envolta: em vaso terso
De água turva o infundindo, oculta o misto
Ela tempera, e esparge-lhe os salubres
Sucos de ambrosia(85) e odora panacéia.
Ínscio o longevo Iapis à ferida
405 O banho aplica: logo a dor se extingue,
O sangue estanca; a seta por si mesma
Já segue a mão; restauram-se-lhe as forças.
“Presto, armas ao varão; tardais? primeiro
Grita Iapis e os ânimos inflama:
410 Não foi perícia minha ou arte humana
Que, Enéias, te curou; foi celso nume,
Que a façanhas grandiosas te reserva.”

Ávido o Frígio as caneleiras calça,
E as demoras detesta e brande a lança.
415 Depois que enfia o escudo e a cota enverga,
De ponto em branco armado abraça o filho,
Ergue a viseira e o beija: “O vero esforço
De mim, Ascânio, aprende e o sofrimento;
De outros, a dita. Agora a destra minha
420 Vai segurar-te, o que reputo um prêmio:
Lá na idade madura não te esqueças
Do exemplo dos avós, nem de que houveste
Enéias por teu pai e Heitor por tio.”

Disse, e hasta ingente balançando parte;
425 Das portas após ele turba infinda,
Anteu sai e Mnesteu; largando os valos
Flui toda a gente: cego pó se enrola,
E ao pulsar do tropel treme a campanha.
De adverso marachão distingue-os Turno:
430 Gelo aos d’Ausônia pelos ossos côa.
Primeira entre eles percebeu Juturna
O ruído, e vai-se trépida. Ele a vôo
Traz a atra nuvem pelo aberto plaino.
Quando, em sidérea conjunção, borrasca
435 Do mar ronca, os agrícolas pressagos
Ai! se arrepiam, que ela estrago e dano
Aos pomares prepara e às sementeiras;
Sopra o vento, e um sonido às praias chega:
Tal o chefe reteu move as esquadras,
440 E em cúneo as cerra e densa. Ao grave Osiris
Fere e trunca Timbreu, Mnesteu a Arquécio,
Acates a Epulon, a Ufente Gias;
Tomba o áugur Tolúmnio, o que o primeiro
Vibrou dardo infrator. Os céus atroa
445 Amplo alarido, e aos Rútulos agora
Fuga pulverulenta as costas volta.
A nenhum dos que fogem, dos que atiram
Distante, ou perto o investem, não se digna
De derribar o herói: só busca a Turno,
450 Por Turno clama, entre a caligem basta.

A virago Juturna, apavorada,
Por entre os loros a Metisco, auriga
De Turno, ao longe do timão sacode:
Monta, e maneja e dobra undantes bridas;
455 Finge a voz de Metisco e a forma e as armas.
Qual de rico senhor por tetos e átrios
Fusca andorinha adeja, cata e indaga
Para os gárrulos ninhos o cibato,
E ora por vácuos pórticos, chilreira,
460 Ora por tanques úmidos revoa;
Tal a trote Juturna, entre inimigos
Percorre tudo no ligeiro carro,
Do irmão fazendo alardo: à luta o esquiva,
Por desvios o aparta. Enéias óbvio
465 Lesto os rodeios corta, e à pista a vozes
De hostes esparsas pelo meio o chama:
Sempre que a Turno olhos desfere e emula
O curso dos alípedes cavalos,
Juturna o evade retorcendo o coche.
470 Ah! que obrará? flutua em vários estos,
E diferentes cuidos o arrebatam.
Leve armado, Messapo dois virotes
Na sestra acaso tinha; um vibra e acerta:
Pára, escuda-se o Teucro, e a perna encurva;
475 Mas levou-lhe o farpão cimeira e plumas.
Surgem-lhe as iras; da traição coacto,
Mal sentiu que os frisões e o coche o evitam,
A Jove atesta e as aras violentadas,
Acerbo invade com propício marte,
480 E, sem descrime na fatal matança,
As rédeas solta à cólera terrível.

Qual deus, quem há, que em verso me declare
Que estragos na campina e mortos cabos
Derramou Turno agora, agora Enéias?
485 E permitis, ó céus, que entre si lutem
Povos que têm de unir-se em laço eterno?

Ao Rútulo Sacron não tardo o Anquíseo
(Pugna que em seu furor deteve os Teucros)
De lado, onde é mais pronta a morte, o ferro
490 Mete, e a caixa do peito e as costas vara.
A Diores e Amico irmãos desmonta
A pé Turno, um de espada aguda vindo,
Um de hasta longa; e de ambos as cabeças
Talha, e sangue estilando ao coche as prende.
495 O Dardânio a Talon, Cetego, Tánais,
Que investem juntos, mata, e o pobre Onites,
Nome equiônio, de Perídia nado:
Turno, uns irmãos da Lícia, a Febo cara,
E a Menetes Arcádio, à guerra avesso;
500 Moço em Lerna piscosa afeito(86) às redes,
Sem dos grandes saber do pai na choça,
Que de renda um campinho semeava.
Como dá solto o incêndio em seca mata
E crepitantes louros; como espúmeos
505 Estrepitosos rios despenhados
Com vastadora queda ao mar caminham:
Tais os dois campeões rútulo e teucro
Se precipitam; já flutua interna
Raiva; já corações que o não cuidavam
510 Rasgam-se; os golpes desmedidos fervem.
Enéias a Murrano, que arrotava
Lácios avoengos de real prosápia,
Com seixo enorme em turbilhão derriba:
As rodas volvem-no entre o jugo e os loros,
515 E ingratos brutos com patada crebra
Conculcam seu senhor. De Hilo, que imano
Fremente ameaça, às têmporas douradas
Contorce Turno um dardo, que pelo elmo
No cérebro se encaixa. Não o evitas,
520 Creteu, valente Graio. Nem de Enéias
A Cupenco seus deuses resguardaram:
De encontro o peito ao ferro, ah! nada embarga
O éreo broquel. Também laurentes agros
Viram-te, Eolo, vasto chão cobrindo:
525 Morres tu, que as falanges não puderam
Grajugenas prostrar, nem do priâmeo
Reino o eversor Aquiles: no Ida excelsas,
Excelsas casas em Lirnesso tinhas;
Tens a meta em Laurento e a sepultura.
530 Tudo é baralha, os Teucros, os Latinos,
Briga tudo; Mnesteu, Seresto bravo,
E o picador Messapo e o duro Asilas,
Alas de Evandro e batalhões toscanos:
Com sumo esforço cada qual porfia;
535 Larga, incessante, encrua-se a batalha.

Aqui Vênus formosa inspira ao filho
Que assalte os muros, e a Laurento opressa
Com mortandade súbita consterne.
Ele, que, a Turno investigando, os lumes
540 Deita em redor, quieta e impune avista
A pérfida muralha; e em marte aceso
Traça plano maior. Mnesteu, Sergesto,
Seresto forte chama; e num outeiro,
Onde reúne os seus de escudo e lança,
545 Do alto brada: “Obedeçam-me de pronto;
Júpiter é por nós, executai-me
Não frouxos o repente. Hoje a cidade,
Causa do mal, e de Latino os reinos,
Se o freio me refusam não submissos,
550 Destruo, assolo os tetos fumegantes.
Esperarei que a Turno já vencido
A justa apraza? Da nefanda guerra
Eis, cidadãos, a suma, eis o remate:
Sus, reclame-se o pacto a ferro e fogo.”

555 Disse; e, formando em cúneo a densa mole,
Ataca os muros. A escalada, o incêndio
Cresce: uns às portas, retalhando os guardas,
A discorrer; o alfanje a esgrimir outros;
O ar de tiros se obumbra. Entre os primeiros
560 No muro Enéias mesmo a destra ferra;
Grita e acusa a Latino; os céus atesta
Que à batalha é forçado, que hostilmente
Os de Itália o agrediram duas vezes,
Duas também às convenções faltaram.
565 Dentro lavra a discórdia: esparvoridos
Uns abrir ao Troiano as portas querem,
E ao muro o mesmo rei consigo arrastam;
Armam-se outros e insistem na defensa.
Tal, se na cresta o latebroso pomes
570 O rústico enche de vapor amargo,
Trépido errando o enxame em céreos valos
Zumbe, a cólera aguça: olor nos tetos
Forte rescende, um murmurinho cego
No ouco soa, e no ar se engloba o fumo.

575 Mais quebranta os Latinos um desastre,
Que a cidade revolve e um luto abala:
Vendo a rainha do inimigo a entrada,
Pelas casas o incêndio, e que nem Turno
Comparece nem rútula falange,
580 Morto o mancebo no conflito julga,
E em túrbida agonia a triste clama
Que de mal tanto e crime é fonte e causa;
Vocifera sem tento, e furibunda
Rasga o manto purpúreo, e atando um laço,
585 De alta viga pendeu com morte informe.
Corre a fatal notícia; as róseas faces
A filha dilacera e as flavas tranças;
Mestas em torno as damas esbravejam;
O pranto a régia estruge. Divulgada
590 A cruel fama, os corações prosterna:
A cidade em ruína, a esposa extinta,
Latino atônito espedaça as vestes,
E as cãs em pó denigre enxovalhadas;
Muito se acusa de não ter a Enéias
595 De grado recebido e aceito genro.

Remoto o belaz Turno, menos lesto,
Já dos frouxos cavalos descontente,
Persegue uns trasmalhados: eis que as auras
Trazem-lhe terror cego e vozeria
600 E os ouvidos atentos lá percebem
Murmuro desalegre e som confuso:
“Ai! que rumor tamanho, luto quanto
Rui dos opostos perturbados muros?”
Disse, e as bridas retém, sem tino estaca.
605 Mas a irmã, que em Metisco disfarçada
Regia o coche, lhe tornou: “Sigamos
A via, Turno, que a vitória indica;
Braços há na cidade que a defendam.
Se ataca Enéias e atropela os nossos,
610 Com fero estrago os seus também rendamos:
Não te irás inferior na glória e feitos.”
Turno: “Irmã, respondeu, muito há conheço;
És tu que arteira, desmanchando o ajuste,
Na ação te ingeres: não me enganas, deusa.
615 Quem te enviou do Olimpo a tantas lidas?
Vens do irmão assistir ao cru trespasso?
Que resta? que inda espero da fortuna?
Ante os meus olhos, só por mim chamando,
Murrano acaba, o meu melhor amigo,
620 De atroz ferida; o caro Ufente expira,
Por não testemunhar a afronta nossa:
Possui-lhe o corpo e as armas o inimigo.
Sofrerei, duro transe! os tetos rasos,
Sem que a Drances refute a destra minha?
625 Ver-me o Lácio dar costas! fugir Turno!
Pois morrer tanto custa? Vós, ó manes,
Já que os céus me aborrecem, protegei-me:
Alma insonte e sem mancha, à Estige baixo,
Dos meus grandes avós não terei pejo.”
630 Nisto, Saces no espúmeo alado bruto
Entre as filas hostis, frechada a cara
Mostrando, implora a Turno: “És nosso amparo,
Turno; dos teus há dó. Fulgúreo Enéias
De exício ameaça as fortalezas nossas;
635 Já voam fachos. Em ti só fitamos
Os olhos, Turno, em ti: na escolha mesmo
De genro ou de aliança el-rei tituba;
E a rainha fiel, desesperada,
Suicidou-se a final(87). Messapo e Atinas
640 Sustentam sós às portas o conflito;
Férrea hirta messe, densa turba os cerca:
Tu no deserto prado o coche rodas!”

Turno, ao se afigurar tão vários casos,
Tácito e quedo embaça; luto, insânia,
645 Vergonha, amor, estuam-lhe no peito,
Fúrias e o cônscio brio. Assim que as trevas
Dissipa e a mente acalma, conturbado
A vista em brasa revirando aos muros,
Do seu carro contempla a grã cidade.
650 Eis que um vórtice flâmeo, ao céu montando,
Ondeia entre os soalhos de uma torre,
Que ele erguera de traves bem compactas
Com rodas e altas pontes. “Não me estorves;
O fado vence, irmã: já já corramos
655 Onde ele e um deus nos chama. Com Enéias
Braço a braço, a tragar a morte acerba
Disposto, irmã, não me verás sem honra:
Ah! deixa-me antes em furor cevar-me.”
Disse, e do carro apeia: entre armas e hostes,
660 Largando a irmã chorosa, pelo meio
Dos Teucros rompe com veloz carreira.
Qual, se por furacão do monte a penha
Rola avulsa, ou das chuvas aluída,
Ou por vetustos anos solapada,
665 De princípio em princípio aos tombos,
Selvas no ímpeto arrasta, armentos, homens;
Tal, com vasta ruína, aos muros Turno
Se despenha, onde o sangue alaga a terra
E de espessos farpões os ares zunem.
670 Acena e grita: “Ao ferro dai, Latinos,
Tréguas, e ao dardo ó Rútulos: a sorte
Qualquer que for, é justo que o tratado
Eu por vós desempenhe e só peleje.”
Todos se arredam, largo espaço abrindo.
675 Seu nome ouvido, acelerado Enéias
As fortalezas desampara; as obras
Interrompe de chofre, alegre exulta,
E horrendo em armas toa: o Atos, o Erix,
Mesmo o Apenino padre, assim bramindo
680 Folga, e azinhos balança coruscantes,
E alteia às auras o nivoso cume.
Frígios, Latinos, quantos as muralhas
Frangiam com vaivéns ou propugnavam,
Os olhos convergindo, o arnês dos ombros
685 Lassos depõem. Do encontro o rei pasmava
De heróis que, nados em distantes plagas,
Entre si valorosos combatiam.

Vazio o campo, à desfilada, lanças
De longe eles vibrando, o marte encetam,
690 E éreos broquéis ressoam, geme a terra:
Crebros talhos de espadas já redobram;
Ardil, valor, fortuna, se confundem.
Se no celso Taburno ou Cila imensa
Dois touros fronte a fronte hostis concorrem,
695 Os maiorais se assustam; mudo o gado,
Surdo as novilhas tugem, sem que atinem
Qual, dono da manada, ao bosque sigam;
Lutam renhidos enganchando os cornos,
Mesclam-se os golpes; muito sangue inunda
700 Colos e espáduas; brama a selva e muge:
Dos heróis Teucro e Dáunio assim retinem
Broquéis e cotas, e o fragor ribomba.

Ouro e fio a balança, os fados de ambos
Jove nas conchas libra, examinando
705 Quem na lide sucumba e vergue ao peso.
Turno então, ferir crendo impune, esgrime,
Com todo o corpo sobre o gládio cresce;
De susto um e outro campo exclama atento:
Mas a pérfida folha estala e falha;
710 E ao ver, sem mais recurso o moço ardente,
Ignota empunhadura e a destra inerme,
Como Euro foge. É voz que, ao primo assalto
Montando o coche, em vez do pátrio ferro,
Do auriga arrebatou sem tino a espada:
715 Ela bastara a dispersar os Teucros;
Mas, à prova das armas de Vulcano,
Se desfez como gelo o mortal gume,
E em pedaços brilhou na fulva areia.
Turno deita veloz pela campina,
720 E mentecapto aqui e ali volteia:
Lá fecham-no em coroa os Frígios densos,
Árduos muros além, cá vasto lago.
Acre Enéias o acossa, e bem que às vezes
Lhe impeça e agrave os joelhos a frechada,
725 Urge ao medroso o pé com pé fervente:
Qual, se em rio o sabujo encontra o cervo
Incluso, ou do espantalho de punícea
Pena acuado, late e o corre e caça;
Da ribanceira e insídia espavorido,
730 Safa-se ele, anda e vira; o vívido umbro
Hiante o alcança, quase quase o aferra,
E, como se o pegara, os queixos range,
E a vã dentada o ilude; a grita e os ladros
Retumbam na lagoa e em torno às ribas,
735 Toa ao tumulto o céu. Na fuga Turno
Exprobra e os seus nomeia, exige e pede
A nota lâmina. O rival comina
Morte, se alguém lhe acode, o estrago e exício
Da cidade, e ferido insta, amedronta.
740 Cinco vezes girando e regirando,
Leves prêmios de jogos não pleiteiam;
Da vida e sangue trata-se de Turno.

Sacro a Fauno, um zambujo havia acaso
De amara folha, aos nautas venerável;
745 Onde o náufrago os dons pregar soía
Ao deus, e as vestes suspender votivas:
Por que em plano combatam, sem descrime
A árvore santa os Frígios extirparam.
A hasta Enéias impele, que às raízes
750 Se lhe apega tenaz: quis arrancá-la,
Com sumo afinco e despedi-la a Turno,
A quem chegar a curso não podia.
Este louco de medo: “Há mágoa, ó Fauno;
Retém a lança, eu te oro, amiga Telus:
755 Sempre honrei vosso culto, e a guerra enéia
Profanado vos tem.” Não foi baldia
Sua oração; que sobre o tronco o Frígio
Curvo labuta, e não lhe vale o esforço
Do lenho a desfechar o morso rijo.
760 Enquanto mais se estriba e insiste, a diva
Dáunia, em forma do auriga, o irmão socorre,
Dá-lhe a espada. A ousadia irrita a Vênus,
Que baixa e da raiz despega a lança.
Refeitos de armas, de ânimo sublimes,
765 Este afoito no gládio, aquele n’hasta,
Do anelo Marte no lidar prosseguem.

Entanto o rei supremo a Juno fala,
Que de uma nuvem roxa observa a pugna:
“Que resta, esposa, e traças? Tu confessas,
770 Deve indígite Enéias, manda o fado,
Sede no Olimpo ter, subir aos astros.
Que urdes? que esperas em geladas nuvens?
A um deus violar convém com mortal golpe?
Render a Turno a espada (o que ousaria
775 Sem ti Juturna?) e acorçoar vencidos!
Basta, cede ao meu rogo: não te roa
Tácito enfado; a revelar-me o peito
A tua doce boca se acostume.
Veio o termo: agitaste o mar e a terra,
780 A discórdia incendeste, em luto infando
Envolta a régia, as núpcias perturbaste:
Não mais, agora o vedo.” Cessa o padre;
E submissa contesta a irmã Satúrnia:
“Teu querer conhecendo, eu constrangida
785 Abandonei, senhor, a Turno e o mundo;
Senão, curtindo ultrajes, não me viras
Neste ar sozinha, mas na ação, de flamas
Cingida, em prélios consumindo os Frígios.
Sim, a ajudar o irmão suadi Juturna;
790 Louvei que por salvá-lo ousasse tudo,
Mas não que de arco e setas contendesse:
Da implacável Estige à fonte apelo,
Jura tremenda aos superiores numes.
Desisto alfim; batalhas já me enojam.
795 Favor obsecro não sujeito aos fados,
Pede-o Itália e dos teus a majestade:
Casamentos embora a paz componham,
E leis o pacto asselem; não permitas
Que os Latinos indígenas, perdido
800 O antigo nome, Teucros se apelidem,
Nem mudem língua e trajo. Eterno viva
O Lácio, os reis Albanos; herde Roma
O itálico valor, propague e brilhe:
Tróia acabou, também seu nome acabe.”

805 Sorrindo o árbitro sumo: “Irmã, lhe torna,
Segunda prole de Saturno, de iras
Estos volves no peito? O rancor cego,
Eia, amaina: de grado e às preces tuas
Tudo concedo. Fala e usanças pátrias
810 A Ausônia guarde, o nome seu conserve:
Consorciados fiquem-se os Troianos;
Farei que, em rito iguais e em sacrifícios,
Formando um povo, a mesma língua tenham.
Virão do misto sangue ausônio e teucro
815 Homens pios que aos deuses se avantagem;
Nem haverá nação que te honre tanto.”
Juno eis anui alegre, a mente aplaca;
Do éter já se retira e a nuvem deixa.

Outra coisa então Jove em si versando,
820 Resolve separar do irmão Juturna.
Há duas pestes, por cognome Diras,
De um parto vindas com Megera estígia
Da escura Noite, que as liou de serpes
E asas lhes deu ventosas. Ante o sólio
825 De Jove sevo e ao limiar assistem,
E o medo afilam dos mortais, se alquando
Morbos ele prepara e o trago horrendo,
Ou pune as gentes com terrível guerra.
Júpiter uma lá de cima expede,
830 Que ominosa a Juturna se ofereça.
Ela, num turbilhão, qual frecha voa,
Que dispara o cidônio ou parto nervo;
Arma incurável que no fel untada
E cru veneno, alígera estrugindo,
835 Impróvisa(88) atravessa as leves sombras.
Desce a filha da Noite; e, mal que enxerga
Os exércitos ambos, no pequeno
Pássaro contraiu-se que a desoras,
Pousando em cemitérios e ermas grimpas,
840 Cruja importuno e lúgubre nas trevas:
De Turno em cerco a peste assim revoa,
Guincha aleando, e lhe verbera o escudo.
Torpor novo o arrepia, hirto o cabelo,
Tronca a voz na garganta. A irmã, que ao longe
845 Distingue a Dira e as estridentes penas,
As madeixas lacera, de unhas rasga
E afeia o rosto, e o seio com punhadas:
“Como há de agora, Turno, a irmã valer-te?
Ai! que me resta que te alongue a vida?
850 Posso a tal monstro opor-me? Eu deixo o campo
Já já. Não me aterreis, obscenas aves;
O som letal e esse adejar conheço;
Não me enganam de Jove as duras ordens.
Paga-me generoso a virgindade!
855 Fez-me eterna? ó pesar! se eu mortal fosse,
Os desgostos findava, e aos tristes manes
Iria acompanhar o irmão querido.
Nada jamais sem ti me será doce,
Nada, meu Turno. Um boqueirão me engula,
860 E em seu profundo centro abisme a deusa.”
Cobre a cabeça então com verde manto,
E gemebunda se sumiu no pego.

O troço arbóreo coruscando Enéias,
Insta com feroz peito: “Que demoras,
865 Turno? arrependes? não correr, mas cumpre
Lutar com sevas armas. Várias formas
Toma, usa embora todo o esforço e manha;
Sobe de surto aos astros, ou te ocultes
Nas terreais entranhas.” Abanando
870 Ele a fronte: “Esses feros não me assustam;
Júpiter sim e os inimigos deuses.”
Nem mais, e encara antiga pedra enorme,
Agrário marco, estorvo de litígios;
Pedra, carga bastante aos mais robustos
875 Doze homens dos que a nossa idade cria:
Com tremor agarrando-a, herói se empina
E na corrida a impele; mas ignora
Se anda ou corre, se pega o ingente marco,
Se o move e arroja: faltam-lhe os joelhos,
880 Coalha o sangue. No vácuo roda a pedra,
E, sem que o termo alcance, o impulso esfria.
Como em sonhos, se lânguida modorra
Nos preme os olhos, ávida carreira
Tentando em vão, no meio esmorecidos
885 Sucumbimos; a língua e a voz nos falha,
Falham no corpo as forças: tal, por onde
Seu valor Turno ensaia, o impede a Fúria.
Cem cuidos versa: os Rútulos contempla,
Olha a cidade; enfia, e da iminente
890 Lança estremece, de evadir-se o meio
Nem contra o seu rival já vê recurso,
Nem mais a auriga irmã, nem mais seu carro.
Enquanto hesita, o lanço Enéias mede,
A hasta vibra fatal, forceja e solta:
895 Nunca assim fremem do mural trabuco
Jogadas rochas, nem. trovão rebrama:
Qual furacão letífera voando,
Da cota as orlas e os extremos orbes
Do septêmplice escudo a estrugir fura,
900 E a coxa lhe traspassa. Ao bote o moço,
Inflexa a curva, tomba; os seus alteiam
Mesto clamor; remuge inteiro o monte,
E na selva o lamento amplo reboa.
Turno olha humilde, súplice ergue a destra:
905 “Bem mereço, é teu jus, perdão não peço;
Mas, se de um pai (de Anquises te relembres)
Comove-te a velhice, a Dauno eu rogo
Me entregues, se não vivo, ao menos morto.
Venceste, e viu-me enfim a Itália toda
910 As palmas levantar: Lavínia é tua;
Os ódios não requintes.” O acre Enéias
Pára, os olhos volteia, a mão reprime:
Iam-no as preces quase enternecendo,
Quando o infeliz talim se mostra ao ombro
915 E a cravação do cingidouro fulge,
Despojos de Palante, a quem menino
Prostrara Turno com letal fereza,
E essa divisa infesta em si trazia.
Da cruel dor no monumento os olhos
920 Mal embebe, enfuriado o herói vozeia:
“Que! tu me escaparás dos meus com presa!...
Nesta ferida imola-te Palante,
Palante vinga-se em teu ímpio sangue.”
No peito aqui lhe esconde o iroso ferro:
925 Gelo os órgãos lhe solve, e num gemido
A alma indignada se afundou nas sombras.

publicado por centrallgames às 00:56
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