Terça-feira, 26 de Abril de 2011

eneida de virgílio:obra completa(11)

 

LIVRO XI

 

Já do oceano a aurora despontava.
Bem que urja o tempo de inumar seus mortos
E o turbe o funeral, no primo eôo
Piedoso o vencedor cumpria os votos.
5 Num combro tancha desramada enzinha,
Veste-lhe de Mezêncio o arnês lustroso,
Troféu que a ti, Belipotente, sagra:
Os dardos rotos, as sanguentas crinas
Lhe ata; à esquerda o pavês e a(72) tiracolo
10 Suspende a ebúrnea espada. E assim de ovantes
Capitães escoltado, exorta os sócios:
“Fora o temor, varões, que pouco resta
Por fazer; eis o espólio, eis as primícias
De um rei soberbo, que estas mãos puniram.
15 Eia, a Laurento agora: arma, arma, alerta;
Ânimo e fé! dos numes quando o aceno
Mova o campo, as bandeiras arrancadas,
Nem outro acordo vos detenha incautos,
Nem retarde os mancebos frouxo medo.
20 Entretanto os finados sepultemos,
Conta exigida no ínfimo Aqueronte.
De ferais dons ornai-me os que esta pátria,
Comprada com seu sangue, nos legaram;
Vá primeiro de Evandro aos tristes muros
25 Palante, a quem não pobre de virtude
Mergulhou trago acerbo em noite escura.”

Disse e à tenda chorando se retira,
Onde o aluno defunto Acetes guarda,
Velho escudeiro do Parrásio Evandro,
30 Zeloso aio do filho, mas não dado
Com tão feliz auspício. A turba em cerco
E os fâmulos em dó, conforme o estilo
Desgrenhadas o seguem frígias donas.
Pelos altos portões mal entra Enéias,
35 Levantam crebros ais, nos peitos ferem,
E remuge o real do luto e pranto.
Como ele o níveo corpo, a face e a testa
Sustida olhou, da ausônia choupa o rombo
No seio liso, em lágrimas rebenta:
40 “Pois sorriu-me a fortuna, e a mim te inveja,
Moço infeliz, que o reino meu não visses,
Nem tornasses em pompa ao lar paterno?
Não foi esta a promessa a Evandro feita;
Que abraçado, à partida, ao grande império
45 Me propunha, e entre sustos me advertia
De que era áspera a guerra e forte a gente.
E ora talvez, debalde esperançoso,
N’ara devoto of’rendas(73) acumula,
Quando ao jovem, já quite dos Supremos,
50 Exéquias vãs prestamos. Desgraçado!
O funeral cruel verás do filho!
Que triste volta! ó sonho de triunfos!
Eis a fé minha! Mas com vis feridas
Não te envergonhará, nem, salva a prole,
55 Tu pai desejarás o eterno sono.
Ai! quanto, Ausônia, quanto, Iulo, perdes!”

Neste lamento, escolhe mil guerreiros,
Que o mísero cadáver acompanhem,
Obséquio extremo, e às lágrimas assistam
60 Do aflito pai; devida, mas pequena
Consolação do nojo e trago ingente.
Brando esquife engradado alguns de vergas
De medronho e carvalho não remissos
Tecem, de folha o estructo(74) leito ensombram.
65 Fica na agreste cama o excelso moço,
Qual por virgíneo pólice apanhada

Mole violeta, ou lânguido jacinto;
A quem brilho nem cheiro inda falece,
Mas não vigora e nutre a mãe terrena.
70 Duas purpúreas opas recamadas
Enéias tira, em que a Sidônia Dido
Com doce esmero trabalhara mesma,
As telas de ouro fino entretecendo:
Mesto, em honra final, veste uma ao jovem,
75 Com outra a coma para as chamas vela.
Manda lanças, frisões e tanto espólio
Da laurentina pugna, em longa série
Dispor; e atrás das costas maniatados
Os que às sombras destina e regar devem
80 A pira com seu sangue; e os chefes tragam
De hostis arneses troncos revestidos,
Onde inimigos nomes se insculpiram.
Conduzem de anos gasto o pobre Acetes,
Que a punhadas o peito, o rosto a unhas
85 Desfigurando, pelo pó se estira.
Vem do rútulo sangue o tinto coche;
E atrás, posto o jaez, úmidas gotas
Eton, fero corcel, dos olhos verte.
Vem o elmo e a lança; o mais roubou-lhe Turno.
90 Lento a falange marcha etrusca e teucra,
De armas em funeral o arcádio bando.
Dês que em ordem se alonga o saimento,
Retém-se Enéias, e suspira e geme:
“A outros prantos nos chama a fatal morte.
95 Salve, exímio Palante, e para sempre,
Adeus, amigo, adeus!” Nem mais profere,
E aos arraiais tornando o passo alarga.

Já de oliva enramados oradores
Latinos pedem vênia, a fim que esparsos
100 Corpos sepultem, vítimas da guerra;
Que a não tenha com mortos e vencidos;
Poupe os hóspedes seus, outrora sogros.
Bom Enéias atende às justas preces:
“Que ruim fado, acrescenta, nesta lide
105 Vos implicou, Latinos, que de amigos
Nos renegais? E a paz quereis somente
Para os da luz privados nas batalhas?
Eu quereria concedê-la aos vivos.
A não ser o destino, eu cá não vinha;
110 Nem a gente combato. Ao jus de hospício
Preferiu vosso rei de Turno as armas.
Turno é melhor que à morte se expusera:
Se expulsar-nos pretende, o pleito acabe
Num duelo comigo; e um de nós reste
115 A quem seu nume ajude ou seu denodo.
Sus, à fogueira os cidadãos mesquinhos.”
Disse: absortos se olhando mudos ficam;
E o velho Drances, que odiento e infesto
Sempre a Turno crimina: “Ó tu, responde,
120 Varão maior que a fama, como te alças?
Não sei que mais te louve ou mais admire,
Se o valor, se a justiça? Iremos gratos
Na pátria o publicar, e, dado o ensejo,
Ao rei te unir: alianças busque-as Turno.
125 Altear apraz-nos a fatal cidade,
Troianas pedras carregar aos ombros.”
Finda, e um consenso unânime sussurra.
Doze dias, em tréguas, juntos vagam
Por monte e selva os Teucros e os Latinos:
130 Da bipene o alto freixo ao corte soa;
Tomba o aéreo pinheiro; as cunhas racham
De contino orno, roble, odoro cedro;
Ao carrear chiando as rodas andam.

E a Fama já, que apregoava há pouco
135 De Palante as ações, do imenso luto
Enche Evandro e de Evandro a casa e os muros.
O Arcádio às portas rui, e ao modo avito
Pega brandões, que ao longo a via aclaram;
A procissão funérea os agros fende,
140 Co’a(75) turba frígia encontra-se em lamentos.
As mães, vendo-os entrar, com pranto lúgubre
Toda a cidade acendem. Nada a Evandro
Pôde conter; atira-se no meio;
Sobre o deposto féretro curvado,
145 Se abraça com Palante, e geme e chora,
Até que a dor à fala abriu caminho:
“Filho, a palavra assim me desempenhas
De entregares-te cauto ao cru Mavorte!
No primeiro certame eu bem sabia
150 Quanto o louvor é doce e a nova glória.
Tristes primícias, rudimentos duros
Da finítima guerra! ai! preces minhas,
Votos por nenhum deus jamais ouvidos!
Oh! no morrer feliz, mui casta esposa,
155 Não provas este mal! Sobrei-te em anos
Para carpir extinto o nosso filho!
De hostis lanças coberto, eu dera est’alma
Sob os sócios pendões! Fosse esta pompa
Só para mim, não para ti, Palante!
160 Vossa aliança e hospício eu não arguo;
Sorte era, ó Teucros, da velhice minha:
Mas, se imaturo cai, mil Volscos mata,
Ao Lácio vos guiando, honrado acaba.
Mais digno enterro não terás, meu filho,
165 Do que Enéias celebra, e seus magnatas,
E etruscos chefes, e esquadrões etruscos:
Dos que enviaste ao Orco os troféus trazem.
Também grã tronco em armas cá serias,
Se idade igual à tua o roborasse,
170 Turno. Mas que! pranteio e a pugna tardo?
Frígios, o que lhe digo ao rei contai-o:
Se a luz nesta orfandade eu sofro, Enéias,
A tua destra é causa, ao filho e ao padre
Olha que deves Turno: este o serviço
175 Que do teu brio espero e da fortuna.
Gostos na vida enjeito, nem me assentam;
Sim, no inferno os receba o meu Palante.”

Almo lume a verter, o albor canseiras
Renovava aos mortais. Na curva praia
180 Em piras cada qual, Enéias, Tárchon,
Dos seus, usança velha, os corpos queima;
Na caligem dos fogos sotopostos
Se enoita o céu. Três vezes decorrendo
A infantaria, em fulgurantes armas,
185 A rogal chama fúnebre circula;
Três a cavalaria; e ululam todos:
O choro arneses banha, a terra ensopa;
Grita, clangor, mugindo os ares fere.
Uns lançam na fogueira o ganho espólio,
190 Guarnecidas espadas, elmos, freios,
Rodas ferventes; uns, de oferta aos donos,
Os broquéis notos e infelizes dardos.
Hecatombes à morte, para a queima
Cerdos e nos contornos apanhada
195 Imolam grei: na praia arder observam,
Em suas piras semi-ardidas velam
Sem despegar-se, até que úmida a noite
Inverte o céu de estrelas marchetado.

Nem menos tristes os Latinos erguem
200 Fogueiras mil; dos seus enterram parte,
Levam parte à cidade e às vizinhanças:
Em confuso montão, sem conto e nome,
É consumido o vulgo. Ao longe e ao largo
À competência os fogos alumiam.
205 Manhã terceira assoma; e, de altas cinzas
Doídos removendo os mistos ossos,
Terra sobre eles tépida amontoam.

Mas na opulenta laurentina corte
O alarido é maior, mais geme o luto.
210 Mães, irmãs, noras, órfãos miseráveis,
Ferrenha guerra aflitos execrando
E os himeneus de Turno, exigem que ele
No Lácio a primazia à espada obtenha.
Drances agrava o caso, e atesta e jura
215 Que Turno a desafio é só chamado.
Muito a favor de Turno opinam vários:
Da rainha o respeito e a sombra o amparam;
Seu renome e troféus o herói sustentam.

Neste flagrante, em meio do alvoroto,
220 Do grã Diomedes pesarosos voltam
Com respostas os legados: nada as preces,
Nada os custos valeram da embaixada,
Nem dons nem ouro; ou busque outra aliança,
Ou paz rogue Latino ao rei troiano.
225 Esmorece o bom velho em tanta angústia:
Que o céu protege a Enéias lhe confirmam
Irados numes, frescos os sepulcros.
Chama a conselho os principais senhores,
Que logo, ao seu mandado, enchendo as ruas
230 Ao paço afluem. Do seu trono o digno
Ancião monarca, não com leda fronte,
Aos legados acena, e inquire e indaga
Com toda a pausa a etólica resposta.
Reina o silêncio, e Vênulo obedece:
235 “Nós vimos, cidadãos, o argivo assento,
E, da jornada os riscos superando,
A mão tocámos que assolou Dardânia.
Ele no apúlio Gárgano Argiripa,
Cognome pátrio, vencedor fundava.
240 Quando a vez tive, os dons lhe oferecendo,
Quem éramos declaro, e a guerra e causa
De em Arpo nos acharmos. Com sossego
Nos torna o Grego: — “Ó reinos de Saturno,
Priscos Ausônios, venturosos povos!
245 Que fado a concitar vos solicita
Ignotas guerras? Quantos profanámos
Com ferro Tróia (os transes nela exaustos
Omito, e os que em si volve aquele Simois)
Pelo orbe temos pago infandas penas,
250 Tais que Príamo próprio as lastimara:
Minerva o testemunhe, o Arcturo infausto,
O ultrice Cafareu, de Eubéia as penhas.
Dali, de praia em praia desterrados,
Menelau de Proteu foi ter às metas,
255 Aos Ciclopes trinácrios o Laércio.
De Pirro e Idomeneu subversos lares,
Ou lembrarei na Líbia assentes Locros?
De vingar n’Ásia um rapto ufano o Atrida
Rei dos reis, por traição da atroz consorte,
260 Cai do adúltero ao ferro em seu palácio.
E o céu não me invejou rever a pátria
E a bela Calidona e a cara esposa?
Hoje inda monstros hórridos me assombram:
Perdidos sócios (ai cruéis suplícios!)
265 Nos ares voam-me, aves da ribeira,
Com flébeis guinchos nos cachopos vagam.
Isto eu prever devia, mal que insano
Corpos violei divinos, golpeando
A destra a Vênus mesma. A tais pelejas
270 Não me instigueis(76), oh! não. Dês que assolada
Pérgamo foi, com Teucros nem combato,
Nem me recordo ou folgo desses males.
Os dons que me ofertais rendam-se a Enéias.
Com ele dardo a dardo e braço a braço,
275 Provei, crede, quão lesto o escudo move,
Com que vórtice esgrime ou gládio ou lança.
No Ida se dois varões como ele houvesse,
Dardânia acometera ináquias plagas,
Trocara a Grécia os louros em ciprestes.
280 Em Tróia pertinaz susteve os Graios,
Durante o assédio, a mão de Heitor e Enéias,
Que a vitória dez anos retardaram:
Ambos no ânimo iguais, iguais no esforço,
Mais pio esse é. Tratai de congraçá-lo,
285 E fugi de travar armas com armas.” —
Eis a real sentença, ó rei sublime,
Sobre tamanha guerra.” Disse; e corre
No conselho um murmúrio, como quando,
Seixos detendo o arrebatado rio,
290 No álveo ronca impedido, e em torno fremem
Da ribanceira as crepitantes ondas.

Quedo o alvoroço e plácido o sussurro,
Ora aos deuses o rei, do trono fala:
“Eu, cidadãos, queria, e melhor fora
295 Antes deliberar; não quando os muros;
Preme o inimigo. Inoportuna guerra
Temos com tais varões, com diva estirpe,
A quem prélios nem cansam, nem vencidos
Sabem depor o ferro. Se estribáveis
300 No étolo(77) auxílio, o desengano chega;
Fie em si cada qual: fraca esperança!
Como em ruína as coisas nos declinam,
Vossos olhos o vêem, as mãos o apalpam.
Ninguém acuso: obrou-se o mais possível;
305 Em peso o reino se bateu brioso.
O que hei na dúbia mente, agora em pouco
Vo-lo explano; atenção. Próximo ao Tibre,
Sobre as sicanas raias, para o ocaso,
Agro antigo possuo; o qual semeiam
310 Os Rútulos e Auruncos, e as colinas
Arando, em pasto o mais estéril deixam.
Esta região e o celso píneo monte
Ceda-se ao Teucro; e, justas leis ditadas,
Em amizade e em paz nos federemos.
315 Se o quer, fique e entre nós se estabeleça;
Mas, se outra gente, outro país prefere,
E ir-se daqui, naus vinte ou mais teçamos
De ítalo sobro, as que precisas forem:
Madeira jaz à borda; eles prescrevam
320 Pontal, número, forma; nós prestemos
Dinheiro, arsenais, braços. E oradores
Cem dentre os nobres deputar me agrada;
Que, nas mãos a oliveira, em brinde ofertem
Marfim, talentos de ouro, e a trábea e a sela
325 Curul, do reino insígnias. Em consulta,
Provede ao bem do combalido estado.”

Drances, a quem de Turno a glória punge
De vesga e amara inveja, em bens profuso,
Mais largo em língua, timorato e imbele,
330 Não mau no alvitre, em sedições potente,
De incerto pai, da ilustre mãe soberbo;
Se ergue, e em Turno carrega e incita as iras:
“Coisa, ó bom rei, suades nada obscura,
E escusas consultar. O que insta e cumpre
335 Cada um murmura, e expô-lo não se atreve.
Falar conceda, e a tumidez remita
Quem, por funesto auspício, ambicioso
(Digo, e armado ele a morte me comine)
Extinguiu tantos cabos, e a cidade
340 E o povo enluta; enquanto, em pés fiado,
Tenta o frígio arraial e aterra o mundo.
Aos dons que ao Teucro, ótimo rei, prodigas,
Um acrescentes, um; ninguém violento
Vede ao pai dar a filha a genro egrégio,
345 Em laço eterno e honroso a paz segures.
Se é tanto o susto, humildes o obtestemos,
Peçamos vênia; à pátria e ao rei se digne
O jus nosso outorgar. Autor de angústias,
Por que impeles o Lácio a tais perigos?
350 Infausta guerra! a paz queremos, Turno;
O inviolável penhor a paz confirme.
E eu, que a ti crês infenso (o que ora passo),
Eu te suplico para os teus piedade;
Cessa, e repulso vai-te. Assaz matanças,
355 Vimos assaz os campos desolados.
Ou, se a fama te pica e ínsito esforço,
Em dote se esta régia obter anseias,
Ousa, ao rival te afoites peito a peito;
Nem, para que a princesa espose Turno,
360 Nós, vil turba insepulta e ilagrimada,
O agro junquemos! Tu, se o pátrio brio
Te anima e alenta, provocado arrosta-o.”

De Turno arde a violência a tais dictérios;
Do imo suspira, em cólera trasborda:
365 “Sempre em frases abundas, quando a guerra
Pede obras, Drances; nos debates primas.
Conter mal pode a cúria essas bravatas,
Que, entrincheirado a salvo, te borbolham,
Enquanto em sangue os fossos não se inundam.
370 Toa a usual facúndia: eu sou cobarde,
Sim; tu Frígios em pilha amontoaste,
Mil troféus as façanhas te assinalam.
Teu vivido(78) valor provar te cumpre:
É não longe o inimigo, os nossos muros
375 Em roda assalta; vamos encontrá-lo.
Como! tardas? ou sempre tens Mavorte
Nessa balofa língua e fugaz planta?
Eu repulso! há, vilão, quem tal me assaque?
Será quem viu de sangue o Tibre inchar-se,
380 Quem de Evandro abatida a estirpe e casa,
O Árcade profligado? Certo Bícias
Não me argüirá, nem Pândaro e milhares
Que, na trincheira hostil encurralado,
Mandei num dia à Estige vitorioso.
385 Infausta a guerra? ao capitão dardânio
E a ti, louco, esse agouro. Embrulha, espanta,
Nem cesses de exaltar os bi-cativos
E deprimir as armas de Latino.
Do Frígio ora estremecem Mirmidones,
390 Tidides ora e o Larisseu Aquiles;
O Aufido o curso adríaco desanda!
Finge o manhoso que de mim se teme,
Com seu medo falaz me azeda o crime.
Nunca, descansa, mancharei meu braço;
395 Num peito more torpe essa alma indigna.
Volto-me, ó padre, agora aos teus projetos.
Se não tens confiança em nossas armas,
Se não muda a fortuna, e uma derrota
Nos destrói e nos perde sem regresso,
400 Paz roguemos, tendendo inermes destras:
Bem que oh! se nos restasse o brio antigo,
Feliz na morte fora e o mais egrégio
Quem, por não vê-lo, o pó mordeu caindo.
Mas, por nós frescas tropas se inda temos,
405 Florentes povos de ítalas cidades;
Se com tormenta igual de sangue e estragos
Também veio aos Troianos a vitória,
Por que à primeira ignavos desmaiamos?
Trememos antes que a trombeta soe!
410 Do tempo o vário andar melhora as coisas:
A muitos, que iludiu, fortuna instável
Repôs em firme estado. Se Arpo etólia
O nega, auxílio nos darão Messapo
E o próspero Tolúmnio, e os tantos cabos
415 De possantes nações; nem glória escassa
Aguarda a flor do Lácio e de Laurento;
E Camila pugnaz, de ilustres Volscos,
Turmas luzidas move e eqüestres forças.
Desafiado, apraz que eu só combata
420 Em proveito comum? não se me esquiva
Tanto a vitória, que intentada enjeite
Essa esperança. Um próprio Aquiles seja,
Vista e maneje o herói vulcânias armas,
Contra animoso irei. Somenos Turno
425 A nenhum dos avós, te voto, ó pátria,
E sagro esta alma. Enéias só me chama?
Chame, eu peço. Nem antes pague-o Drances,
Caso que o céu funesto se nos torne;
Nem sua intrepidez nos tire a palma.”

430 Entre a dúbia contenda, o campo Enéias
Levanta e marcha. Um núncio alvoroçado
Corre ao paço, e a Laurento enche de susto:
Que o teucro e tusco exército em batalha
Desce do Tibre, invade-se a campanha.
435 Turba-se o vulgo, os peitos se conturbam,
Não leve estímulo os furores cresce:
Armam-se à pressa, o moço armado freme,
Lamenta e rosna o velho; os ares fere
O discorde multíplice alarido:
440 Al não sucede, se voláteis bandos
Pousam no bosque, ou soam do piscoso
Pado em loquazes tanques roucos cisnes.
Turno o instante aproveita: “É bem, consócios,
Reuni conselho, a paz louvai sentados;
445 Eles de assalto ruam.” Nem mais disse;
Larga impetuoso a régia: “Tu, Voluso,
Volscas esquadras prestes, guia os Rútulos;
Messapo, e vós irmãos Catilo e Coras,
Derramai na planície os cavaleiros;
450 Parte as entradas guarde e ocupe as torres;
A mais hoste me siga.” Eis da cidade
Corre-se aos muros. O conselho o mesmo
Latino pai suspende, e seus projetos
Nesta consternação tristonho adia:
455 Muito se acusa de não ter a Enéias
Por genro aceito e associado ao reino.
Pedras(79) e estrepes carretam, fossos cavam:
Roncam buzinas o cruento a l’arma.
O muro, em vários grupos, lance extremo!
460 Coroaram matronas e meninos.
Dádivas, de Minerva ao celso alcáçar,
Com suas damas a rainha leva;
E ao pé, submissos os decoros olhos,
Vai, do mal causa insonte, a virgem filha.
465 As mães da comitiva o templo incensam,
Espargem do limiar carpidas vozes:
“Deusa da guerra, armipotente Palas,
Quebra ao frígio ladrão tu mesma a lança,
Prostrado o abate, às portas o destroça.”

470 Turno fogoso aos prélios se aparelha:
Já rútula coiraça eri-escamosa
Veste horrente, e nas pernas grevas de ouro,
Inda nu da cabeça, a espada à cinta,
Do castelo, fulgindo, alegre pula,
475 E na idéia o triunfo se afigura:
Como, o cabresto quando enfim rebenta,
Livre o cavalo o aberto campo goza;
Ou vai-se ao pasto e às éguas; ou, do rio
Noto o banho, se deita à funda veia,
480 A cerviz a entonar, viçoso rincha,
Brincam-lhe as crinas pelo colo e espáduas.

Vem Camila encontrá-lo, e descavalga
Às portas a rainha, antes que o façam
As volscas turmas, que depois a imitam.
485 “Turno, diz, se tem jus uma alma nobre
De em si crer, de arrostar eu só te fico
Ílias coortes, cavaleiros tuscos.
Estrear me permite a guerra e os transes;
Tu defende as muralhas a pé firme.”
490 Turno olhos fixa na tremenda virgem:
“Que assaz graças te posso, honra de Itália,
Aqui render? mas, que já que a tua audácia
Tudo excede, comigo os riscos parte.
Enéias, como espias mo confirmam,
495 Cavalaria avança que ligeira
Bata a campanha, e de ermos e árduos montes
Contra a cidade se despenha astuto:
Traço estar de emboscada em curvo atalho,
Soldadesca cercando as fauces bívias.
500 Tu, juntos os pendões, cai nos Tirrenos;
O acre Messapo e as tiburtinas hostes
E as do Lácio terás: comanda em chefe.”
Volto a Messapo, o exorta e os cabos todos,
E em busca do conflito o passo aperta.

505 Apto ao bélico dolo, um vale inflexo,
Negra espessura o encerra; onde uma trilha
Por estreita garganta a custo guia.
Jaz de cima num cume, a cavaleiro,
Planura ignota, abrigo retirado,
510 Quer tentes atacar à destra e à sestra,
Quer volver do cabeço enormes galgas.
Lá chega o jovem por sabidas sendas,
E de atalaia está na iníqua selva.

Entretanto Latônia à veloz Opis,
515 Do seu virgíneo coro uma das ninfas,
Lá no Olimpo sentida assim falava:
“Camila, a quem mais prezo(80), à cruel guerra
Parte, cingida em vão das armas nossas;
Nem, Opis, este amor veio improviso
520 Obrar com doce estímulo em Diana.
Metabo, de Priverno antiga expulso
Por ódio e prepotência, entre os conflitos
Salva a trouxe do exílio companheira,
Tenra menina; com mudança pouca,
525 Da mãe Casmila a nomeou Camila.
Com ela ao colo por desertos soutos,
Longínquos serros, circunfusos Volscos
A persegui-lo a dardos o oprimiam.
Da fuga em meio, as nuvens desabando,
530 Eis o Amaseno aluvioso espuma:
Quis nadar, mas temendo se reteve
Pela querida carga. Em si revolve,
E decide-se enfim: na mão robusta
Guerreiro tinha, de tostado sobro,
535 Rija e nodosa lança; embrulha a filha
Num cortiço, acomoda e a liga n’hástia;
E, com força a librá-la, assim depreca:
“Alma virgem Latônia, a ti, cultora
Dos bosques, eu seu pai t’a voto serva;
540 Súplice na tua arma ei-la que foge
Do inimigo; recebe-a, deusa, é tua,
Eu t’a encomendo pelas dúbias auras.”
Disse, e o bucho contrai, o hastil contorce:
Brame o rio; a infeliz por cima voa
545 No estridente arremesso. Então Metabo,
Urgido mais e mais, se entrega às águas;
Da relva, em que a depôs, na lança a virgem
Arranca vencedor. Nem teto ou muro
O acolheu, nem as mãos altivo dera:
550 Solitário pastor vivia em brenhas;
E ali, criando a filha em gruta brava,
De égua armental às tetas, lhe mungia
Ferino leite nos mimosos lábios.
Mal que a pino a menina as plantas firma,
555 Dardo agudo pejando-lhe as mãozinhas,
Pendura-se-lhe ao ombro aljava e arco;
Por áurea coifa, por comprido manto,
Às(81) costas lhe descai tigrina pele:
Já frechas pueris brincando joga,
560 Da cabeça em redor volteia a funda,
Grou derriba estrimônio ou branco cisne.
Nora a desejam muitas mães tirrenas;
Mas, dedicada a Febe, amor eterno
Rende às setas pudica e à virgindade.
565 Oh! se belaz não provocasse os Teucros,
E ora me fosse companheira cara!
Sus, ninfa, já que a preme atroz destino,
Do pólo baixa manso onde os Latinos
Pugnam com sestro agouro. Ouve, e do coldre
570 Ultriz frecha prepara: Ítalo ou Frígio,
Quem quer que a vulnerar sagrada e bela,
Com seu sangue mo pague. Em nuvem cava
Trarei não desarmada a miseranda,
Por que em pátrio jazigo a deposite.“
575 Não mais; e ela, em nublado escuro envolta,
Pelas auras sonoras se desliza.

Mas já Teucros e Etruscos se apropínquam,
Toda a cavalaria em turmas certas:
Freme o sonípede, a pular garboso,
580 E aqui virado e ali, reluta ao freio;
Hórrida em férrea messe, arde a campina.
Com os latinos céleres Messapo,
E Coras com o irmão, Camila e os Volscos,
Aparecendo opostos, longe vibram
585 Zargunchos e hastas, retraindo os braços:
De homens ferve o tropel, relinchos fervem.
A tiro, as hostes ambas fazem alto:
Rompe a cuquiada, incitam-se os cavalos;
Granizam como neve espessos dardos,
590 Que o céu tornam sombrio. Em riste as lanças.
Tirreno e Acônteo acérrimo ruidosos
Se investem logo, e os brutos se abalroam
Peito com peito: sacudido Acônteo,
Qual por trabuco o peso, ou como raio,
595 Se precipita, e no ar a vida esparge.
Turbam-se; e, adargas para trás virando,
Os Latinos de trote aos muros voltam.
No alcance, o bravo Asilas quase às portas
Leva os Troas; e, em grita os colos dóceis.
600 Revirando o inimigo, à rédea solta
Por turno retrocedem: não diverso
Da maré que, alternada, ou rola às terras,
E os cachopos orvalha, espuma e ronca,
Té lavar sinuosa a extrema areia;
605 Ou, ressorvidos os revoltos seixos,
Na ressaca lambendo às praias foge,
Ora, o Toscano ao Rútulo rechaça,
Ora o broquel também lhe ampara as costas;
Mas, no terceiro choque, barba a barba
610 Travam geral batalha: em ais e em gritos
Varões, corcéis morrendo, e corpos e armas
Em sangue rodam, n’áspera carnagem.

A hasta ao frisão (que a Rêmulo tem medo)
Brande Orsíloco, espeta-o sob a orelha:
615 Da ferida o quadrúpede impaciente,
Empinado, aos corcovos, escoiceia;
Vasa em terra o senhor, Catilo a Iolas
Derriba, e ao forte e corpulento Hermínio,
Que nu de ombros, sem elmo a flava coma,
620 Rojões despreza, aberto afronta os golpes.
Fixo na larga espádua o dardo treme;
O varão se contorce e à dor se encurva.
O cruor mana, estragos multiplicam;
Mata-se, ou busca-se acabar com honra.

625 De aljava, cérceo um peito, em ar Camila
De Amazona, entre a clade ufana e salta;
Já com pulso indefesso amiúda setas,
Já pronta esgrime a válida bipene;
Soa o áureo carcás, da Trívia as armas,
630 Se o dorso alquando vira, em retirada
O arco frechas alígeras despede.
Tula a escolta e Larina, e érea secure
A manejar Tarpéia; ítalas virgens
Que, à divina senhora a corte ornando,
635 São ministras na guerra e paz ditosa:
Quais, de pintado arnês guerreiras trácias,
O Termodonte as Amazonas pulsam;
Ou de Hipólite em cerco, ou da mavórcia
Rainha após o coche, uivando exulta
640 Com lunados broquéis femínea turba.
Quem primeiro, quem último, acre virgem,
Provou teu braço irado? a quantos prostras?
De Clício o filho Euneu, com longo abeto
O oposto seio traspassado, arroios
645 Vomita rubros, traga o chão cruento,
Na chaga moribundo a convulsar-se.
Págaso e Liris cai, um que ao varado
Bruto a cambalear sustinha as rédeas,
O outro ao sócio tendendo a inerme destra;
650 A par os precipita. Ajunta o Hipótio
Amastro; enrista a lança, e a Demofoonte,
Cromis, Tereu e Harpálico, persegue:
A moça a cada bote um varão mata.
Caçador, mas bisonho, Omito assoma
655 Em ginete iapígio; os ombros largos
Lhe arreia o espólio de brigão novilho;
Tem por elmo lupina ampla goela
E a queixada em que alveja a dentadura;
Empunha agreste chuça, e bizarreia
660 E sobrepuja a todos. Ela o aterra
Sem trabalho, as catervas derrotadas;
Sobre o corpo chasqueia: “Que! Tirreno,
Creste que monteavas? chega o dia
Em que hasta mulheril te abata as roncas;
665 Porém, não leve glória, aos pátrios manes
Conta que a Camila às mãos sucumbes.”
Rompe a Arsíloco e Butes, dois gigantes:
Entre o casco e a loriga a ponta em Butes
Crava, onde ao cavaleiro brilha o colo
670 E à sestra o escudo pende; em grande giro
Do outro fugir simula, e mais por dentro
Corta as voltas, seguindo o que a seguia:
Ei-la, alçada, a secure em armas e ossos
Mete ao varão que implora, os golpes dobra;
675 Quente no rosto o cérebro se esparge.

Com ela topa, estupefato embaça
Do apeninículo Auno o pugnaz filho,
Lígure em tretas guapo, enquando pôde.
Vendo que sem remédio era o combate,
680 Pois que instava a rainha; ardis e astúcias
Consigo meditando, assim começa:
“Em ligeiro frisão, mulher, te fias?
Não fujas, de mais perto em livre campo
A pé vem pelejar: saberás presto
685 A quem seja danosa a fofa glória.”
Disse: ela em fúria, acesa em dor austera,
Dando o ginete à sócia, a pé galharda,
Ferro nu, puro o escudo, igual o espera.
Ele, o dolo eficaz julgando, abala,
690 Torce a brida na pressa, e com ferrado
Calcanhar o quadrúpede esporeia.
“Lígure fanfarrão, debalde ufano,
As pátrias artes lúbrico tentaste;
Salvo a teu pai a fraude não te renda.”
695 Nisto, ígnea a virgem com velozes plantas
Passa o cavalo, adversa o freio prende,
E se despica no inimigo sangue:
O sacro açor tão fácil de alta penha
Adeja, empolga a remontada pomba,
700 De unhas aduncas no ar a desentranha;
Chove o cruor de cima e avulsas penas.

Não descuidado olhando, o pai supremo
Do Olimpo isto contempla; e, ao sevo marte
O etrusco Tárchon suscitando, o irrita
705 E estimula e exaspera. Entre a matança
E as frouxas alas ei-lo a trote corre,
Grita aos seus, um por um nomeia e instiga,
Alenta e o prélio instaura: “Ó vis Tirrenos,
Fracos sempre e insensíveis, tanta ignávia,
710 Tal medo vos quebranta? as vossas turmas
Uma mulher derrota e as afugenta.
Por que o ferro cingis e empunhais lanças?
Lerdos não sois de noite em cíprias lides,
Ou, se aos coros vos soa a curva tíbia,
715 Para o banquete lauto e lieus copos;
Vosso amor, vosso estudo: aos bosques santos
Ide, hóstia gorda e o áugur vos convida.”

Então, perecedouro, o bruto pica,
Túrbido aferra a Vênulo e o desmonta,
720 Abraçado com ímpeto o arrebata.
Clamor se ergue; ante os olhos dos Latinos,
Tárchon fulgúreo voa, e pelo campo
Leva o armado varão: quebra-lhe a choupa
Da haste, e a parte esquadrinha onde lha enterre.
725 Força ele opondo à força, renitente
Sustém, repele do pescoço a destra.
Quando águia fulva a surto preia a serpe,
Pés nela e a garra implica, vulnerado
O dragão volve as sinuosas roscas,
730 Hirta a escama, se enrija e silva e empina-se;
A águia de bico adunco urge-o lutante
Mais e mais, e aleando açoita os ares:
Tárchon não menos da tibúrcia presa
Folga; os Meônios com o exemplo investem.
735 Aqui, fadado à morte, o dardo em punho.
À pista Arunte da veloz Camila,
Catando a ocasião, por onde as turbas
Furente ela penetra, cauteloso
A rodeia, e por onde vencedora
740 Do inimigo reverte, a furto o jovem
Retorce tácito a ligeira brida;
Esta aberta em circuito e aquela tenta,
Improbo o dardo a menear certeiro.

Cloreu sacro a Cibele, outrora antiste,
745 Brilhando em frígio arnês, metia o espúmeo
Ginete em obra, com xairel de pele
De énea malha e áureas plumas recamado:
Luz em ferrenha púrpura estrangeira,
Lício o corno a vibrar cortínias frechas;
750 Dourados arco e morrião lhe tinem;
Crócea a roupa, do linho os rugidores
Seios colhe em nó fulvo, e tem bordadas
A túnica e as barbáricas polainas.
A virgem, por que em templo insígnias tróicas
755 Fixe, ou caçando fulja em áureo espólio,
Cega após ele, sem que os mais lhe importem,
Incauta se abrasava, entre as fileiras,
No amor femíneo da vistosa presa.
Eis que a tempo à traição dardeja Arunte,
760 Depois que assim depreca: “Sumo Apolo,
Do Soracte custódio venerado,
Em cujo culto píneo ardor cevamos,
E afoitos na piedade, em vivas brasas
Entre a fogueira os passos imprimimos,
765 Dá-me apagar, ó padre, a nossa injúria.
Troféu não peço da prostrada virgem,
Nem seus despojos, honrem-me outros feitos:
Como ao golpe desta arma a dira peste
Derribe, à pátria me retiro inglório.”
770 Parte lhe ouviu do rogo o deus benigno,
Parte em auras dissipa: à morte anui
Da surpresa(82) Camila, mas lhe nega
Rever a excelsa pátria; e pelos notos
As procelas a voz lhe dispersaram.

775 Ao despregar da rechinante vira,
Convergem todos à rainha os Volscos
Túrbidos olhos. Ela não pressente
O ar, o estridor, a farpa, até que à cércea
Mama ferra-se a ponta e funda o sangue
780 Virgíneo bebe. Açodem logo as sócias,
Trépidas a senhora sustentando.
Entre alegria e susto Arunte escapa-se;
Nem mais confia em dardo, nem da virgem
Arrostar ousa as lanças. Quando o lobo,
785 Antes que os tiros chovam, por desvios
Vai-se, morto o pastor ou nédio almalho,
Na montanha esconder; cônscio da audácia,
Pávido o rabo encolhe e as selvas busca:
De evadir-se contente, assim medroso,
790 Arunte no tropel desaparece.
A haste ela a morrer saca; mas o ferro
Pregado às costas fica-lhe entre os ossos.
Desmaia, baça a vista, exangue e fria;
Desbotam-lhe no rosto as frescas rosas.
795 A donzela, a expirar, dos seus cuidados
À confidente e mui querida fala:
“Mais, Aca irmã, não posso; ao golpe acerbo
Faleço, e tudo se me enoita em roda.
Já, leva de Camila o final termo:
800 Turno suceda-me, e repila os Teucros.
Adeus, adeus.” E então largando as rédeas,
Da sela cai; gelada a morte aos poucos
Solve-lhe o corpo, lânguida a cabeça
E o colo pousa, demitindo as armas;
805 Geme e agastada a vida aos manes baixa;
Súbito grita imensa atroa os astros,
Mais se encruece a pugna; em mó concorrem
Teucros, Tirrenos e de Evandro as alas.

Mas, por Diana, há muito em celso monte
810 Espreita Opis impávida as pelejas;
E, avistando entre os jovens clamorosos
Ao passamento a vítima rendida,
Exclamou suspirosa: “Ai! triste virgem!
De encarares o Frígio atroz castigo!
815 Honrar a Trívia por desertos matos,
Nem ombrear valeu-te aljavas nossas.
Porém tua rainha em tal afronta
Não sem lustre ou renome te abandona,
Nem morrerás inulta. As justas penas,
820 Quem quer que seja o temerário, pague-as.”
De um teso às faldas, sob azinha opaca,
Do lácio rei Derceno havia antigo
De térreo acervo o mausoléu: parando
O ímpeto ali, do combro a ninfa bela
825 Pesquisa Arunte; a relumbrar tumente
Como o avistou: “Vem cá; por que te afastas?
Recebe de Camila os dignos prêmios.
Que! vão manchar-se em ti de Febe as armas?”
Disse, e do áureo carcás ligeira seta
830 Qual Trácia tira, e infensa o corno atesa,
Encurva e puxa, até que ajunta as pontas,
E toca a sestra mão no ferro agudo,
Na teta o nervo e a destra: simultâneo
Ouve Arunte o zunido e o ar sonoro,
835 Sente o farpão no corpo. Em mortais vascas
No ignito pó gemendo, os seus o esquecem;
E Opis libra-se, adeja à casa etérea.

Morta a rainha, a leve turma foge;
Fogem Rútulos, foge o mesmo Atinas;
840 Chefes e esquadras, por salvar-se, ao muro
Em confusão galopam destroçados.
Ninguém resiste aos sitibundos Frígios
E aos letíferos dardos: mal sustentam
Os bambos arcos nos languentes ombros;
845 No trote o chão pulvéreo as patas batem.
Volve às muralhas túrbida caligem;
E dos balcões, os peitos lacerando,
Aos céus clamor femíneo as mães levantam.
Os que atingem primeiro as francas portas,
850 Baralhado o inimigo os acabrunha:
Ao pátrio umbral, da morte não se evadem;
Em seus lares expiram traspassados.
Parte, os portões cerrando, abrir não ousa,
Nem recolher os sócios que o suplicam:
855 Dos que proíbem, dos que entrar forcejam,
Nasce triste matança; atroz conflito!
Os de fora, ante os pais e as mães chorosas,
Uns, na ânsia, aos fossos em despenho rolam,
Uns, solta a brida, no alvoroto cegos,
860 De encontro a ombreiras e batentes marram.
Camila ao verem (santo amor da pátria!),
No último transe intrépidas matronas
Das ameias por ferro precipitam
Pértigas, fustes, achas; e as primeiras
865 Por morrer na defensa ali se inflamam.

Na emboscada porém, cruel notícia!
Aca enche a Turno do tumulto ingente:
Que, perdida Camila e os Volscos rotos,
O hostil próspero marte arrasa tudo;
870 Que avança o Frígio, e o medo ganha os muros.
Furente (assim o quer severo Jove)
O áspero cole e fauces desocupa.
Extra-alcance, mal que ele os campos toca,
Entra a livre espessura o padre Enéias,
875 Supera o cume, sai da escura selva.
E entre si longos passos não distando,
Ambos em veloz marcha aos muros correm.
Tanto que a fumear enxerga Enéias
Poento o plaino e os batalhões laurentes;
880 Turno as armas conhece e o bravo chefe,
E o nitrido e o tropel dos brutos ouve.
Logo a batalha e as brigas travar-se-iam,
Se já no ibero ponto o róseo Febo
Os cavalos cansados não tingira,
885 Cedendo à noite o dia. Ante a cidade
Assentam-se arraiais e se entrincheiram.

publicado por centrallgames às 00:54
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