Terça-feira, 26 de Abril de 2011

eneida de virgílio:obra completa(10)

LIVRO X

 

De par em par o onipotente Olimpo,
Concílio o pai divino e rei dos homens
Chama à sidérea corte; excelso as terras
Fita e o campo troiano e os lácios povos.
5 Sentam-se; ele nas salas bipatentes
A mão tomou: “Celícolas egrégios,
Por que, mudados, contendeis iníquos?
Vedei guerra entre os Ítalos e os Frígios,
E revéis a soprais? Que medo uns e outros
10 Compele às armas e provoca o ferro?
Não vos antecipeis, que em Roma altiva
Um dia soltará Cartago fera
Exício grande e os devassados Alpes:
Ódios então permito e o saque e os prélios;
15 Quero hoje paz, condescendei comigo.”

Breve Júpiter foi; mas Vênus linda
Não breve o contestou: “Poder eterno
De humanos e imortais (pois que outro apoio
Implorar devo?), a rútula insolência
20 Notas, padre, e o ruído com que Turno
Campeia túmido em propício marte:
Valo ou muralha os Frígios não resguarda;
Dentro e nos bastiões pelejas travam;
Sangue os fossos inunda. Ausente Enéias
25 O ignora. O sítio nunca mais levantas?
Ílio nascente os inimigos forçam;
Outro exército avança, e de Arpo etólia
Ameaça os Teucros outra vez Tidides.
Certo me aguardam, penso, outras feridas;
30 Mortais armas receio, eu prole tua.
Se a teu pesar estão na Hespéria os Troas,
Não mos ajudes, seu delito expurguem;
Se lei cumprem superna e a voz dos manes,
Como inda há quem transverta as ordens tuas
35 E reforme o destino? As naus combustas
De Erix na praia, o rei das tempestades
Cabe alegar na Eólia concitado,
E Íris do céu baixando? Ora até move
(Restava este recurso) o mesmo inferno,
40 De chofre acima remetendo Alecto,
Que a debacar a Itália contamina.
Já de impérios prescindo: isso esperámos
Em melhor quadra; vença quem te agrade.
Se, dura aos nossos, tua esposa nega
45 Na terra um canto, pelo exício de Ílio
Fumante obsecro, do conflito o neto
Incólume apartar me outorga, ó padre.
Bote-se Enéias por ignotos mares
À mercê da fortuna: eu valha ao menos
50 De ímpio combate a subtrair Ascânio.
Tenho Idálio, Amatunta e a celsa Pafos,
Mais Citera, onde obscuro imbele viva:
Deixa que Tiro atroz a Ausônia oprima;
Ele nada obsta ao púnico domínio.
55 Que monta que, evadido à peste argiva,
Das chamas se livrasse? que, em demanda
Da recidiva Pérgamo, os perigos
De imenso mundo e pélago exaurisse?
Por que sob pátrias cinzas não ficaram?
60 Míseros, peço, os rende ao Xanto e Símois:
Tornem, padre, a versar de Tróia os casos.”

Juno régia, o rancor não mais contendo:
“Pois a romper e a divulgar me obrigas
A silente ima dor? Que deus ou que homem
65 Fez que a Latino o sorrateiro Enéias
Hostilizasse? À Itália, fado seja,
Foi-se a impulsos das fúrias de Cassandra:
Nós o forçamos a largar a praça,
A vida entregue aos ventos? a um menino
70 Confiar o comando? a fé tirrena
E a paz turbar dos povos? A tais faltas
Qual nume o arrasta, qual dureza nossa?
Íris baixou do céu, entra aqui Juno?
É mau que Ílio nascente as flamas cinjam,
75 E ao país ame Turno, o de Venília
Deusa nado o tresneto de Pilumno:
Que importa que atro facho Ílio sacuda,
Subjugue o Lácio, alheios(58) campos tale?
Que sogros fraude, a noivos tire noivas?
80 Que armas nas popas fixe e o ramo arvore?
Roubar da aquiva garra o filho podes,
Por vã névoa trocá-lo; a frota em ninfas
Tu podes converter: um pouco a Turno
Socorrermos é crime. Enéias tudo
85 Ausente ignora: pois ignore ausente.
Que! tens Pafos, Citera, Idálio; e tentas
Um chão de guerras prenhe e a peitos feros?
Nós de Ílio os débeis restos subvertemos,
Ou quem míseros Troas contra os Gregos
90 Açulou? Foi por nós que o rapto armado
Solvera de Ásia e Europa as alianças?
Que o Frígio adúltero expugnara Esparta?
Eu lides fomentei com paixões torpes?
Teu medo então convinha: tarde surges
95 Com injusto queixume e fútil bulha.”

Juno orava; os celícolas sussurram
Com vário assenso, qual primeiro os sopros
Na mata a murmurar volteiam cegos,
Anúncio da procela ao marinheiro.

100 Do árbitro poderoso ao grave acento,
Cala a diva morada, o ar sumo cala,
Nos eixos treme a terra, amaina o pego,
Zéfiros sossegando: “Ouvi-me, e n’alma
A sentença imprimi. Já que é defeso
105 Teucros e Ausônios congraçar, nem finda
Vossa discórdia, esperançoso corra
Seus fados cada qual, desde hoje trato
Sem diferença a Rútulo ou Dardânio;
Quer à Hespéria nocivo ature o assédio,
110 Quer por erro de agouro em mal de Tróia,
Jogado o lanço foi: rei justo às partes,
Júpiter os destinos não desliga;
Estes rumo acharão.” Pela do estígio
Irmão pícea torrente e negro abismo
115 Jura, e ao nuto estremece o Olimpo todo.
Fecha o concílio: ergueu-se do áureo trono;
E ao limiar os deuses o acompanham.

Insta o Rútulo entanto à roda e às portas,
Mata, incendeia, estraga. Atém-se aos valos
120 A encerrada legião, sem mais refúgio:
Rara os muros coroa, e as torres altas
Ah! mal guarnece. À testa Ásio Imbracides,
Os Assáracos dois, o Hicetaônio
Timetes, e Castor e o velho Timbris
125 Estão; mais Claro e Hemom da nobre Lícia,
De Sarpédon germanos. Grã penedo,
Viva lasca do monte, Acmom Lirnéssio
Deita às costas, e iguala a seu pai Clício
E a Mnesteu seu irmão no esforço e arrojo.
130 Com zagaias, com pedras se defendem;
Remessam fogo, ao nervo adaptam setas.
Da Cípria ânsia e cuidado, ali no meio
Brilha sem casco o belo adolescente;
Na cerviz láctea o crino desparzido,
135 Mole círculo de ouro o ata e apanha:
Dest’arte, em fulvo engaste a gema adorna
Fronte ou colo, e embutida ebúrnea peça
No orício terebinto ou buxo esplende.
Viram-te, Ismaro, as gentes valorosas
140 Despedir frechas de veneno armadas,
Garfo brioso da Meônia fértil,
Onde agros o Páctolo irriga de ouro.
Mnesteu não falha, a quem sublima a glória
De haver a Turno da bastida expulso;
145 E Cápis, de quem teve o nome Cápua.

Da guerra o cargo repartiu-se entre eles;
De volta, rasga o herói noturnas vagas.
De Evandro assim que passa ao rei da Etrúria,
Quem era expôs, a que ia, em que é prestante;
150 Quanto auxílio granjeia o cru Mezêncio,
Quão violento o rei Turno, quão falível
A sorte humana; e preces intermeia:
Tárchon alia sem demora as forças,
E os pactos fere. Solto o fado, os Lídios
155 Com chefe externo, por querer divino,
Se embarcam. Vai diante a popa enéia,
Frígios leões ao beque, e na bandeira
O Ida, enlevos dos prófugos Troianos.
Sentado Enéias, volve em si tão vários
160 Eventos; e Palante, à sestra, inquire
Já do sidéreo curso e opaca noite,
Já dos trabalhos dele em mar e em terra.

Abri-me o Helicon, Musas; descantai-me
Que tusca multidão, munindo os lenhos,
165 Vogue na azul campina. Após Enéias,
Mássico bem na Tigre eri-chapeada,
Com bravos moços mil de Clúsio e Cosas,
De arco letal ao ombro e de polido
Sagitífero coldre. O brusco Abante
170 A par, a gente relumbrava(59), e à popa
Dourado Apolo: Populônia madre
Mancebos destros lhe fiou seiscentos;
Trezentos Ilva, de metal calíbio
Fecunda ilha inexausta. O mago Asilas,
175 A quem o humano e o divinal descobrem
Astros, fibras de reses, línguas de aves
E o pressago fulgor, conduz terceiro
De hastatos mil espesso horrendo bando;
Que lhos subordinou, de alféia origem,
180 Pisa etrusca. Pulquérrimo, em cambiante
Arnês afoito e em seu corcel, trezentos
Astur ajunta (um mesmo ardor em todos)
Na pátria Cérete, em miniônias margens,
Pestífera Gravisca e Pirgo-Vedra.
185 Não te omito, ó Ciniras, belacíssimo
Rei da Ligúria; e a ti, que poucos mandas
E hás no tope, Cupavo, císneas penas:
Foi culpa aos vossos a amizade, a insígnia
É da paterna forma. Cicno, contam,
190 Saudoso de Faeton, quando entre choupos,
Das irmãs deste à sombra, o amor em nênias
E o luto consolava, em brandas plumas,
Qual velho encanecendo, ao céu cantando
Se elevou. Na companha iguais penachos,
195 Rema o filho alta nau, donde um centauro
Árduo com pedra enorme acena às águas,
Arando o buco longo o plaino equóreo.
Também da pátria move as turmas Ocno.
Prole da vate Manto e um tusco rio,
200 Que o nome da mãe deu-te e muros, Mântua;
Mântua, rica de avós, não de uma estirpe,
De tribos três, por tribo quatro cúrias,
És cabeça, e te alenta o sangue etrusco.
Dali contra Mezêncio, em pinho infesto,
205 Do pai Benaco o Míncio, de arundíneo
Verdoengo véu, despeja mais quinhentos;
Auletes sério os guia, e vira e açoita
De árvores cento o mármore espumoso:
Trá-lo imano tritão, que os vaus cerúleos
210 A búzio aterra, humano híspido o rosto,
De ceto o imerso ventre, ao semifero
A vaga sob o peito alveja e estoura.

O tétio sal com bronze, em baixéis trinta,
A pró de Tróia cabos tais retalham:
215 A alma Febe, o Sol posto, meio Olimpo
Já no carro noctívago atingia.
O cauto Enéias, sem dormir cuidoso,
Prossegue dirigindo o leme e as velas:
Eis um coro de ninfas lhe aparece,
220 Naus suas que a benéfica Cibele
Deusas do ponto fez; a nado o sulcam
Tantas emparelhadas, quantas éreas
Proas retinha a praia, e apercebendo
A seu senhor, com danças o circundam.
225 Atrás Cimódoce, a melhor falante,
Na destra a popa tendo, alteia a espádua,
Sorrema com a esquerda as ondas mudas;
Ignaro o adverte: “Enéias, tu vigias?
Vigia, ó divo, ao pano escotas larga.
230 Do cume sacro ideu somos teus pinhos:
Do Rútulo a perfídia a ferro e fogo
Nos apertava, e amarras nós invitas
Quebrando à pressa, em tua busca andamos;
Que em fluctícolas deusas compassiva
235 Aviventou-nos Réia. Ascânio, saibas,
Dos rojões do latino feio marte
A custo se defende; já da Arcádia
Junta a cavalaria ao Tusco estrênuo(60)
Postou-se onde marcaste, e firme a que eles
240 Se aproximem da praça opõe-se Turno:
Sus, na alvorada a l’arma soar manda;
O invicto escudo embraça de orlas de ouro,
Primor do Ignipotente. Em mim se creres,
Será crástina a luz espectadora
245 De rútula estupenda mortualha.”
Então, não peca no mister, a popa
Celsa empurrando, pelas ondas foge,
Ligeira como a frecha ou leve xara:
As mais também. Estupefato o Anquíseo,
250 Contudo anima os seus com tal presságio,
E ora curto, encarando o azul convexo:
“Divina genitriz, que as torres presas,
Leões cangas e enfreias; pois me induzes
À guerra, ó Dindimene, o agouro aspira,
255 Com pé vem protetor, assiste aos Frígios”.
Al não disse; e, à carreira o Sol tornando,
Com lume já maduro espanca a treva.
Logo Enéias, bandeiras despregadas,
Arma, apresta, acorçoa. D’alta popa
260 Seus arraiais contempla, e ao braço esquerdo
Exalça o ígneo broquel. Do muro os Teucros,
Voz em grita (a esperança esperta as iras)
Jaculam tiros: quais sob um nublado
Grasnam estrimónios(61) grous, que a Noto esquivos,
265 Dando ledos a senha, os ares tranam.

Turno e os seus o estranhavam, té que enxergam,
Popas voltas à praia, o mar coalhando,
A frota prolongar-se. Arde a celada,
Lampeja a Enéias o cocar, do escudo
270 O diamante flamívomo centelha:
Lúgubre assim rubeja em lenta noite
O sangüíneo cometa; ou, sede e morbos
Dardejando aos mortais, fervente Sírio
Com funesto luzir contrista o pólo.
275 Nada esmorece a Turno; apoderar-se
Da praia intenta e obstar ao desembarque.
Incita, exorta: “O ensejo desejado
Ei-lo, varões; obrai, que o marte mesmo
Se vos entrega: esposa e lar vos lembrem,
280 Lembrem-vos pátrios feitos gloriosos;
Acorramos à borda e os encontremos,
Trépido o passo enquanto lhes vacila:
Audazes a fortuna favorece.”
Nisto, elege os que o sigam nesta empresa,
285 Outros incumbe de manter o assédio.

Já lá das popas lança o Teucro pranchas.
Tais à espera do lânguido refluxo,
Tais os remos fincando, aos baixos pulam.
Onde nem brotam vaus, nem rechaçada
290 Remuge a onda, mas se alisa mansa
Do fluxo no montar, observa Tárchon;
Rápido as proas vira, e aos nautas insta:
“Picai voga, eia, alçai-vos, gente forte,
Impeli-me os baixéis; que os rostros fendam
295 O solo hostil, e sulco se abra a quilha.
É nada o naufragar, se pojo em terra.”
Ele ordena, e estribando ao remo investem;
Os barcos a espumar direito abicam,
Até que, os esporões em seco varam,
300 E ilesos cascos assentaram, menos
A tua popa, Tárchon; pois de iníquo
Dorso encalhada pende, um tempo nuta,
Maretas cansam-na, e desfeita vasa
N’água a turba varonil(62), que fraturados
305 Bancos e remos à matroca impedem,
E a ressaca a repulsa e os pés lhe embarga.
Nada ignavo, o acre Turno contra os Frígios
A hoste arremessa toda, e a praia ocupa.

Toca à degola. Enéias fausto a enceta
310 Sobre o agreste esquadrão; rompe os Latinos,
Morto o maior. Teron, que ousa arrostá-lo:
Penetrando o éneo escudo e auri-escamosa
Túnica, a espada lhe embebeu na ilharga.
Seu ferro a Lichas prostra, que a ti sacro,
315 Febo, da extinta mãe sacado infante,
Pôde no ferro escapar. Não longe o duro
Cisseu derriba e o corpulento Gias,
Que a turmas esmagavam: não lhes presta
Clava, nem pulso hercúleo, e o pai Melampo,
320 Sócio nos transes do lidado Alcides.
A Faron, que jactâncias vocifera,
Na boca um dardo retorcendo enfia.
E tu, pobre Cidon, que ias trás Clício,
Teu novo gosto, em cujas faces punge
325 Lanugem loura, à tróica mão caíras,
Quite do insano amor que aos jovens tinhas;
Se em mó, de Forco nados, não saíssem
Irmãos sete que arrojam sete lanças:
Parte, as rebate o escudo e o capacete;
330 Parte a soslaio o alcança, e as torce Vênus.
“Hastas, Enéias brada, hastas, amigo,
Das que em Tróia preguei no corpo aos Gregos;
Aos Rútulos nenhuma irá frustrânea.”
Pega uma ingente, que a voar a adarga
335 Brônzea a Meon traspassa e a malha e os peitos.
Corre Alcanor, sustenta o irmão que tomba:
O lagarto lhe encrava outro arremesso,
Que progride(63) cruento; e pelos nervos
Da espádua o braço moribundo pende.
340 Eis do irmão Numitor a farpa arranca,
E a revira ao herói; mas não lhe coube
Tocá-lo, e a coxa ao grande Acates roça.

Clauso de Cures, no verdor fiado,
Lá vibra a Dríope um zarguncho rijo
345 Sob o queixo, e lhe tronca a fala e a vida,
Rota a goela; em terra a testa bate,
E a boca lhe vomita em grumos sangue.
Destroça vário a Traces três, prosápia
De Bóreas digna, e a três de ismara pátria,
350 Que Idas padre enviou. Com seus Auruncos
Acode Haleso; acode o éqüite insigne
Messapo de Netuno: ora uns, ora outros,
No umbral da Ausônia a combater, se expelem.
No espaço a pleitear discordes ventos,
355 Em força e ânimo iguais, entre si lutam,
Nuvem nem mar cedendo; e renitentes,
Dúbio a durar o prélio, a tudo afrontam:
Dest’arte os Frígios travam-se e os Latinos,
Pé com pé, rosto a rosto, arca por arca.

360 Palante alhures, onde ampla torrente
Seixos rola e arvoredos extirpados,
Vendo os Árcades seus, que, se apeando
Pelo áspero terreno, desafeitos
À pedestre contenda, ao sequaz Lácio
365 Voltam costas; segundo as ocorrências,
Roga, invectiva, os brios reacende:
“Fugis, irmãos? por vós, por vossos feitos,
Pela do caro Evandro invicta glória
E a que nutro esperança de emulá-lo,
370 Não confieis nos pés: que a ferro entremos
Por onde espesso engloba-se o inimigo,
Alto a Palante e a vós prescreve a pátria.
Não divos, são mortais que a mortais urgem;
Mãos também e almas temos. Golfo imenso
375 Nos obsta; à fuga terra já nos falta:
Buscaremos o pego ou teucros muros?”
Cessa, e por densos batalhões prorrompe.
Lago, ó desgraça! o topa; e, enquanto lasca
Pesada rocha, de través Palante
380 Finca-lhe, onde o espinhaço as costas parte,
E extrai a choupa aos ossos aderente.
Cuida Hisbon surpreendê-lo; e quando, cego
Do cruel fim do amigo, em fúria salta,
No inchado bofe o herói some-lhe o estoque.
385 Vai-se depois a Sténelo, e à de Reto
Vetusta raça, Anquémolo, que o toro
Da madrasta incestou desaforado.
Timbro e Larida, o pó mordestes gêmeos,
Dáucia prole simílima e indistinta,
390 Aos pais erro suave: o gume arcádio
Vos pôs duro descrime; a ti cerceia,
Timbro, a cabeça; e a destra mutilada,
Larida, a procurar-te, o ferro aperta
Nos semiânimes(64) dedos palpitantes.

395 A voz do chefe, o exemplo, dor, vergonha
Os Árcades inflama, que arremetem.
Mata o moço a Reteu, que em biga, ó nobres
Irmãos Tires e Teutras, vos fugia:
A Ilo, a quem salva o espaço, longe atira
400 Válida hasta, que em meio a Reteu colhe;
Do carro ao chão resvala, e semivivo
Calca e percute a rútula campanha.
No estio, ao sopro de anelantes ventos,
Quando em selva o pastor semeia incêndios,
405 No âmago lavram e hórridos propagam
Em largo plaino exércitos vulcânios;
Ele altivo contempla ovantes chamas:
Os teus para ajudar-te assim, Palante,
Unem-se em feixe. O ardido Haleso contra
410 Rui, na armadura envolto: imola a Feres,
Demódoco e Ladon; seu talho a destra
A Estrimônio decepa, que ao pescoço
Leva-lhe a adaga; a seixo o crânio a Toas
Racha e esmigalha o cérebro sangüento.
415 Pressago o pai de Haleso o teve em brenhas:
A Parca o preia e sagra à lança evândria,
Solvendo ao velho os desmaiados lumes;
Palante o agride(65), orando: “Ó Tiberino,
O remessão que libro, alado o emprega
420 Do atroz varão no seio: um teu carvalho
Terá dele os despojos e estas armas.”
O deus o ouviu; que Haleso ao bote certo,
No cobrir a Imaon, descobre o lado.

Lauso, um pilar da guerra, os seus não deixa
425 De um tal golpe assustar-se: a Abante oposto,
Do combate eixo e nó, destrói; prosterna
Tuscos, Arcádios; nem vos poupa, ó Troas,
Poupados por Argeus. Travam-se, em cabos
E em força iguais; baralham-se as fileiras;
430 Os tiros e o manejo o aperto empacha.
Cá Lauso se afervora, além Palante,
Ambos eqüevos quase, ambos formosos;
Mas a pátria rever lhes nega o fado:
Não quis do Olimpo o rei que às mãos viessem;
435 Mor inimigo talhará seus dias.

Eis, da irmã por conselho, em veloz coche
Turno, a Lauso acudindo, as filas corta:
“Parai, sócios; recebo eu só Palante,
Palante a mim se deve: oh! se aqui fora
440 Testemunha seu pai!” Cedem-lhe o passo:
Admira o moço a obediência pronta,
Mede ao soberbo o talhe formidável,
Rodeia ao longe a furibunda vista,
E ao tirano responde: “Ou morte nobre,
445 Ou vai despojo opimo honrar meu nome;
Sorte igual a meu pai: não feros, obras!”
Falando ao plaino marcha: coalha o sangue
Nos corações arcádios. Pula Turno
Da biga, a pé remete; imagem própria
450 Do rompente leão que ao touro voa,
A quem de alto covil descobre em lutas
No prado a meditar. Ao crê-lo a tiro
De hasta, avança Palante; a audácia invoca
No desigual partido, e ao céu recorre:
455 “Se hóspede, Hércules, foste à pátria mesa,
Na ação me assiste; eu rubras tire as armas
A Turno semimorto; olhe penando
Seu vencedor no bocejar supremo.”
Alcides o escutou; fundo ai comprime,
460 Vãs lágrimas vertendo. Ao filho Jove:
“Cada qual, diz benigno, tem seu dia;
A vida é breve e irreparável tempo;
Mas rasgos de virtude a fama exalçam.
Quanta em Ílio caiu divina prole!
465 Té Sarpédon meu sangue! À meta chega
Turno também, e o chamam já seus fados.”
E foi do Lácio desviando os olhos.

Já teso a lança vibra, e da bainha
Palante puxa a lâmina fulgente:
470 De vôo a ponta encaixa onde a espaldeira
Pega o braçal; do escudo as orlas passa,
Do ombro ao Rútulo ingente a cútis fere.
Turno pujante aqui de choupa aguda
Sopesa um roble, e grita: “Vê se o nosso
475 Rojão melhor penetra.” E a coruscante
Farpa o broquel de férreas e êneas pranchas,
De couro táureo em dobras reforçado,
Rasga, os empeços da loriga fura
E o peito heróico. Embalde a quente choupa
480 Do rombo extrai: em sangue a alma esvaindo,
Por cima ao revoltar-se da ferida,
Sobressoam-lhe as armas, e expirando
A boca o solo hostil beija cruenta.
Salta-lhe ao corpo Turno: “Árcades, grita,
485 Não vos esqueça a Evandro o referi-lo:
Qual mereceu, remeto-lhe Palante:
De o tumular com pompa o alívio outorgo:
Caro a hospedagem pagará de Enéias.”
Então senta no morto a planta esquerda:
490 Rouba o talim de peso, e nele impressos
Do morticínio os tálamos sangrentos
Em jugal noite; culpa atroz, gravada
Pelo Eurítides Clono em chapas de ouro.
Turno com isto exulta: ó mente humana,
495 Fera e descomedida na bonança,
Do porvir néscia! intacto inda a Palante
Vir-lhe-á tempo que almeje a todo o preço,
E este espólio e façanha ele abomine.
Gemebundos e em pranto, os companheiros
500 O cadáver carregam sobre o escudo.
Oh! voltas a teu pai, dor grande e glória!
Deu-te um só dia à guerra e ao passamento;
Mas que montões de Rútulos deixaste!

A Enéias, não a fama, um messageiro(66)
505 De mal tamanho informa; e trasmalhados
Socorra os seus, que estavam por um fio.
Quanto encontra, arrombada a larga turba,
A gládio ceifa ardendo; achar-te anseia.
Turno ufanoso da recente morte.
510 Ante si tudo tem, Palante, Evandro,
A hospitaleira mesa, a destra amiga.
Vivos quatro a Sulmon, a Ufente agarra
Quatro alunos que imole à sombra, e reguem
Do seu cativo sangue a rogal chama.
515 Sobrevoa esgrimida a tremente hasta
A Mago astuto, que se agacha ao bote,
E suplicante abraça-lhe os joelhos:
“Pelo medrado Iulo e anquíseos manes,
A meu pai me conserves e a meu filho.
520 Muita prata em moeda, bruto e em obra
Soterrei cópia de ouro, em meu palácio:
Não libra em mim dos Teucros a vitória;
Nada empece uma vida.” Enéias presto:
“Guarda essa prata, esse ouro bruto e em obra
525 Para teus filhos: com matar Palante
Aboliu Turno as transações da guerra.
Isto, Anquises o aprova, Ascânio o sente.”
E a sestra no elmo, atrás lhe dobra o colo,
Onde a espada lhe enterra até aos punhos.

530 Perto o Hemônio, de Febe e Apolo antiste,
Com sacra fita às fontes presa a faixa,
Luzia na armadura e insignes vestes:
O herói o acossa, abate, o imola, o cobre
Da ampla sombra; Seresto apanha as armas,
535 E em troféu tas carrega, ó rei Gradivo.
A pugna instauram, de vulcânia estirpe
Céculo, e Umbro das mársicas montanhas.
Enfurece o Dardânio; à esquerda logo
A Anxur talha e desfaz rodela férrea:
540 Sonhava ele proezas, e esforçar-se
Com vozes crendo, e ao céu talvez se alando,
Brancas se prometia e logos anos.
De agreste fauno e dríope gerado,
Tarquito refulgindo enrista a lança:
545 O herói torcendo-a empece-lhe a coiraça
E o pesado pavês; descabeçando-o,
Lhe frustra a prece e o que dizer queria;
Revolve o tronco tépido por terra,
Com ânimo inimigo assim prorrompe:
550 “Jaze aí, valentão; nem madre ninfa
No pátrio solo inumará teus membros:
Serás de abutres pasto; ou, submergido,
Te hão de a chaga lamber famintos peixes.”
Persegue, na vanguarda, ao forte Numa,
555 Licas e Anteu, Camertes, louro filho
Do riquíssimo em lavras nobre Ausônio,
Volscente, o rei de Amiclas taciturna.
De cem braços e mãos Egeon, narram,
Fogo expirava de cinqüenta fauces,
560 Com cinqüenta broquéis tinindo, espadas
Cinqüenta a menear contra o Tonante:
Não menos, dês que o Frígio aquece o gume,
Bravo campeia. De Nifeu remete,
Peito a peito, à quadriga; e, assim que os brutos
565 Bramindo o avistam fero, amedrontados,
Retrocedendo rápidos, às praias
O coche rojam, seu senhor despejam.

Eis Lugo se apresenta em alva biga,
Mais o irmão Liger, que os frisões governa;
570 Lugo acérrimo esgrime o iroso ferro.
Tal fúria ao Teucro azeda; rui terrível
De hasta apontada. E Liger: “Não diomédios
Corcéis, carros aquíleos, frígios campos,
Tens aqui, vês a morte e o fim da guerra.”
575 Das fanfúrrias, que em ar se desvanecem,
Em troco Enéias lhes revira um dardo.
Prono Lugo, a pender nos loros, pica
Da arma os cavalos; por bater-se, adianta
O sestro pé: do aêneo escudo as orlas
580 Entra a ponta e a virilha esquerda fura:
Do carro a baixo moribundo rola.
E amaro o pio herói: “Nem tarda a biga
Falsou-te, ou sombras vãs a afugentaram;
Tu sim, Lugo, de um salto a abandonaste.”
585 Nisto, a parelha empolga. O irmão, coitado!
Desmontando estendia inermes palmas:
“Por ti, varão por teus progenitores,
Deixa-me a vida, abrandem-te meus rogos.”
“Diverso, o atalha Enéias, blasonavas;
590 Morre; irmão não é bem que o desampares.”
E estoqueia-lhe o peito, encerro da alma.
Qual tufão grosso ou túrbida torrente,
Ferais danos o Dárdano espalhava.
Rompe enfim da muralha o moço Ascânio,
595 Com seus guerreiros por demais cercados.

A Juno entanto Júpiter: “É Vênus,
Nem te enganas, consorte e irmã querida,
Que os troianos sustenta: ei-los cobardes,
Sem denodo ou constância nos perigos.”
600 Aqui Juno submissa: “Ó doce esposo,
Temo os remoques teus, por que me apuras?
Se inda, como convinha, o amor d’outrora
Eu te inspirasse, um dom não me negaras,
Onipotente: incólume ao pai Dauno
605 Guarde eu Turno da ação... Mas que! pereça,
Devoto sangue aos Troas laste as penas.
Deduz contudo o nome e origem nossa
Do tresavô Pilumno, e com freqüência
A plenas mãos cumula-te os altares.”

610 Breve replica o rei do Olimpo etéreo:
“Se a Turno queres que eu prolongue os dias
E achas que o posso; pela fuga o salves
De instantes fados: até aqui(67) me cabe
Condescender. Se encobres nessas preces
615 Mor graça, e a guerra transtornar concebes;
Apascentas baldias esperanças.”
E ela em choro: “O que a voz me cede a custo,
Se d’alma o desses, vida cheia a Turno!...
Mas transe o espera indigno, ou eu me iludo:
620 Oxalá sejam falsos meus temores,
E tu, que o podes, a melhor te inclines.”

Disse, e de lá dispara; de nevoeiros
Cingida, numa borrasca a precedê-la,
Baixa entre o campo ilíaco e Laurento.
625 Logo em feição de Enéias, ó prodígio!
Fraca de vácua nuvem sombra tênue
Arma à troiana; o escudo, as cristas finge
Da cabeça divina; ocas palavras(68),
Som lhe empresta sem mente, o andar e o gesto:
630 Como, é voz, do finado erra a figura;
Ou qual sonham sopitos os sentidos.
Ante as fileiras jubilando a imagem,
Dardos em punho, desafia a Turno.
Este, irritando-se, a estridente lança
635 Arremessa: o fantasma as costas volta.
Creu Turno em fuga a Enéias, e se rega
Alvoroçado em frívola esperança:
“Onde vais, Teucro? os tálamos desprezas?
Toma a terra, eu t’a dou, por mar buscada.”
640 E, após clamando, o gládio nu brandia,
Sem ver que é seu prazer seguir o vento.

À sáxea ribanceira, expostas inda
Pranchas e escadas, o navio estava
Que a Osínio rei de Clúsio transportara.
645 Ali pávido o esquivo simulacro
Deita a esconder-se; vence estorvos Turno,
Salta as pontes. A proa mal que atinge,
Rebenta os cabos Juno, arranca o lenho,
Pelas vagas revoltas o arrebata.
650 Por seu rival bramando o vero Enéias
Na homicida carreira prosseguia;
Já não se oculta, voa o aéreo vulto,
E em negrume cerrado se confunde;
Pelas ondas a Turno um tufão leva.
655 Ínscio, ingrato à mercê, contempla em roda,
Ao céu levanta as mãos: “Júpiter sumo,
Digno me julgas de desar tamanho?
Que punição? Para onde me conduzem?
Donde vim? Quem sou eu com tal fugida?
660 Como a Laurento e aos muros tornar posso?
Que dirão meus soldados? Ó vergonha!
Deixá-los eu na luta agonizantes!
Vejo-os daqui vagar, seus ais escuto.
Que farei? não me engole e some a terra?
665 Ventos, piedade! recebei meu culto
Voluntário: o baixel a vaus e escolhos,
A sirtes arrojai-me, onde nem saibam
Os Rútulos de mim, nem reste a fama.”

Tal discursava, e aqui e ali flutua;
670 Nem atina se enterre a crua espada
E em tanta afronta as costas se atravesse,
Ou se, entre os escarcéus, à curva praia
Nade e se restitua às teucras armas.
Três vezes foi tentá-lo, três conteve-o
675 A soberana Juno condoída.
O alto sulcando com maré propícia,
Na corte do pai Dauno antiga aporta.

Já Mezêncio cruel, de Jove a impulsos,
Lhe sucede, e acomete ovantes hostes.
680 Encontram-no agravados os Tirrenos;
Alvo é dos golpes todos. Como rocha
Está, que, protendida ao mar e aos sopros,
Os embates resiste e os ameaços
Do céu violento e furibundo pego.
685 A Hebro Dolicaônio o varão prostra,
Mais a Látago e Palmo fugitivo:
A Látago um fragmento da montanha
Esmecha e esmaga o rosto: a rojo Palmo
Rola dejarretado: a Lauso doa
690 O arnês que ombreie(69), as plumas com que se orne.
Escala o Frígio Evante e o caro a Páris
Mimas, filho de Amico, por Teano
Parido à noite que abortou Cisseide,
Prenhe de um facho: Páris jaz na pátria;
695 Mimas, que o não cuidava, em lácia borda.
Como o javardo, em canavial nutrido,
Que a dente correm cães, sobejo espaço
No pinífero Vésulo acoitado
E em laurência lagoa, ao dar nas redes
700 Pára, em roncos escuma, ouriça as cerdas;
Ninguém lhe ousa achegar, distantes raivam,
Em seguro gritando e a garrochá-lo;
Ele, impávido e atento, os queixos range,
Cospe do lombo a chuva de arremessos:
705 Tais, não com ferro em punho, mas de longe,
Desse odioso Mezêncio os inimigos
Com rojões e alarida o desafiam.

Prófugo, a velha Córito e imperfeitas
Núpcias largando o Graio Acron, purpúreo
710 Nas galas e cocar, da noiva mimos,
Descose as turmas: o tirano o enxerga.
Se o leão, que em jejum com fome ronda
Alto curral, fugaz a corça avista
Ou cervo de árduos cornos; sevo e hiante
715 Folga, hirta a juba, às vísceras deitado
Ferra-se, e em negro sangue as fauces lava:
Dest’arte vem Mezêncio e a chusma ataca.
Tomba expirando Acron, e ao debater-se
Calca o atro chão, cruenta as rotas armas.

720 Ferir desdenha a Orodes que se evade,
Remeter-lhe desdenha um bote cego;
Não destro nos ardis quanto era forte,
Adverso o alcança, mão por mão o aterra;
N’hasta apoiado, o pé lhe imprime sobre:
725 “Ei-lo, varões, o herói da guerra esteio.”
E os seus com ele entoam ledo peã.
Orodes a arquejar: “Serei vingado,
Nem longo exultarás; meu fim te espera,
Este pó vais morder.” Com riso amargo
730 O ímpio então: “Morre já; de mim disponha
Esse teu pai divino e rei dos homens.”
Disse, e lhe extrai do corpo o tenaz pique:
Urge-o repouso duro e férreo sono,
E em noite fecha eterna os baços lumes.

735 A Hidaspes Sacrator, a Alcato Cédico,
Rapon tronca a Partênio e o válido Orses;
Messapo a Clônio e o Árcade Ericetes:
Um de infrene corcel, derriba o outro
Pedestre a pé. Socorre-os Agis Lício,
740 Talha-o Valero com denodo avito;
A Trônio Sálio; a Sálio o bom Nealces,
Em dardo ou seta ao longe traiçoeira.

O luto e os funerais Marte equilibra:
Morrem, matam, vencidos, vencedores;
745 Não se rendem, não cedem, não fraqueiam.
Tanta ânsia nos mortais, e de uns e de outros
O vão furor a Jove e ao céu compunge:
Aqui Vênus atenta, ali Satúrnia.
Pálida a Erínis urra e assanha as turbas.
750 Torvo, a librar Mezêncio enorme lança,
Entra em campo, e se mostra em vastas armas:
Como Orion, de espáduas fora d’água,
Rasga a pés de Nereu o imenso lago;
Ou, dos serros trazendo o anoso freixo,
755 Anda em terra, e nublada a fronte esconde.
Enéias, que o lobriga, avança prestes.
Firme em seu peso, intrépido ele aguarda
O brioso adversário; de olhos mede
Assaz distância ao tiro: “Agora, exclama,
760 Deus é meu braço e o remessão que vibro.
Do salteador Enéias eu te voto,
Lauso, em troféu, do espólio seu vestido.”
Hasta eis voa estridente; que, do escudo
Repulsa, aos hipocôndrios vai pregar-se
765 Do egrégio Antor, de Alcides companheiro;
Antor Argivo, que aderindo a Evandro,
Na Itália se ficou. Precipitado
É de alheia ferida; e, o céu fitando,
Ah! lembra-lhe ao morrer sua doce Argos.
770 Joga Enéias um dardo, que a rodela
Triple érea penetrou, por líneas fraldas,
Por táureos forros três; e amortecido
À virilha se apega. Ao ver-lhe o sangue,
Puxa o ferro da cinta alegre o Teucro,
775 Férvido ao Tusco titubante corre.
Nisto, em lágrimas Lauso debulhado,
Por amor de seu pai geme profundo.
Teu mesto fim, teu brio e feito heróico,
Se o futuro crer pode empresa tanta,
780 Celebrarei, mancebo memorando.

Fraco e impedido, a se arredar Mezêncio,
Preso arrasta no escudo o hastil infesto.
De chofre o jovem, interposto às armas,
A mão de Enéias, que desfecha o talho,
785 Susta e o reteve: em grita os seus o aclamam,
E entanto o genitor se evade à sombra
Da rodela do filho; empacha a Enéias
Bateria de frechas e arremessos:
Cobre-se ele a bramir. Quando em saraiva
790 Desata a chuva, o lavrador se esgarra,
Em guarida se alberga o viandante,
Em lapa de ribeira ou cava penha,
Até que, abrindo o Sol, o dia exerçam;
Opresso o Teucro assim da márcia nuvem,
795 À espera está que a trovoada amaine;
Comina e avisa a Lauso, a Lauso increpa:
“Temerário, onde vens? mediste as forças?(70)
Engana-te a piedade.” Ele não menos
Demente assalta: o estame curto as Parcas
800 A Lauso colhem: do dardânio chefe
Se irrita a cólera, a possante espada
No moço enterra; a ponta a leve adarga
E a túnica passou, que a mãe fiara
De ouro sutil; em borbotões o sangue
805 Alaga o seio; e a vida pelas auras
Triste aos manes se afunda e o corpo larga.

Pálida a face, moribundo o gesto
Ao ver-lhe o Anquíseo, compassivo e grave
Suspira, dá-lhe a destra; à mente a imagem
810 Sobe do pátrio amor: “Que digno prêmio
Dessa rara virtude o pio Enéias
Te prestará, mesquinho? As armas tenhas,
Teu gosto em vida: eu rendo-te ao jazigo
E às cinzas dos avós, se disto curas.
815 Console-te infeliz do grande Enéias
Às mãos cair.” E exprobra os tardos sócios,
Do chão levanta o corpo, cujas tranças
Atiladas à moda o sangue afeia.

Mezêncio, ao pé do Tibre, entanto os golpes
820 Lava e estanca, e arrimado se conforta
A arbóreo tronco: ao longe está num ramo
O éneo casco, e na relva o arnês pesado.
Egro, anelante, o colo desafoga,
Aos peitos se difunde a larga barba.
825 Cercam-no os seus: do filho indaga aflito,
Manda que o chamem e amiúda as ordens.
Mas sobre o escudo em pranto já traziam
Morto do grande bote o grande Lauso:
O pai nesse carpir seu mal pressente;
830 De pó deforma as cãs, e as palmas ambas
Dirige aos céus, e apega-se ao cadáver:
“Quis tanto à vida, ó filho, que ao trespasso
Expus a quem gerei? Por tua morte
Vive teu pai, salvou-me essa ferida?
835 A minha agora se me agrava e sangra,
Ai! dói-me agora o mísero desterro!
Manchei teu nome, Lauso, eu por tais crimes
E ódios expulso do paterno sólio:
Eu só pagar devera aos meus e à pátria,
840 Por mil mortes render est’alma infame;
Respiro, e inda não deixo a luz e os homens?
Eu deixarei.” Na perna a custo se ergue,
Sem da chaga o abater a dor violenta;
Pede o corcel, da glória companheiro,
845 Consolo seu, que vencedor com ele
Das batalhas saía, e ao pobre fala:
“Rebo, há muito duramos, se é que muito
Dura coisa mortal: hoje a cabeça
Trarás de Enéias e o cruento espólio,
850 E as de Lauso agonias vingaremos;
Ou, se impossível é, morramos juntos:
Não sofrerás altivo, eu creio e espero,
Mandos alheios nem senhor troiano.”

Monta, e aceita-lhe o bruto a usada carga;
855 Onera as duas mãos de agudas hastes;
O elmo reluz, de eqüina hirsuta coma.
Veloz galopa: o luto, a insânia, o pejo
No coração referve; agitam fúrias
O amor paterno, a cônscia valentia.
860 “Enéias! grita, Enéias!” Ledo Enéias
O reconhece e impreca: “O pai supremo
Queira com Febo que o duelo encetes!”
E, de hasta em riste, avança. Então Mezêncio:
“Roubado o filho, aterras-me, assassino?
865 O só meio esse foi de me acabares.
Nem temo os deuses, nem me assustam Parcas:
Morrer venho, recebe a despedida.”
Lesto um dardo lhe prega, outro e mais outro,
Em volta ingente; mas rechaça-os todos
870 A áurea copa do escudo. Pela esquerda,
Contra o parado herói tirando sempre,
Trota em giro três vezes; três no bronze
Roda consigo o Teucro a basta selva.
De extrair tanta farpa enfim se enoja,
875 E da tardança e desigual peleja;
Meditabundo rompe, a lança expede
Às fontes cavas do belaz ginete:
O quadrúpede em gêmeas(71), o ar a coices
Depois zimbra, sacode e implica o dono,
880 E cai de bruços lhe oprimindo a espádua.
Lácio e tróico alarido os céus estruge,
Voa sobre ele o herói, despindo o gládio:
“Que é do feroz Mezêncio? onde os seus brios?”
O Etrusco os olhos alça, haurindo as auras,
885 E, recolhendo o alento: “Ameaças morte?
Por que me insultas, figadal contrário?
Vim perecer, não pecas em matar-me,
Nem meu Lauso ajustou que me poupasses.
Vencido, se jus tenho, eu só te rogo
890 Ao corpo alguma terra: a circundar-me
Freme o rancor dos meus; tu me defendas,
Num sepulcro me encerres com meu filho.”
Ciente, ele o pescoço ao gume inclina,
A alma derrama e em sangue inunda as armas.

publicado por centrallgames às 00:53
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