Terça-feira, 26 de Abril de 2011

eneida de virgílio:obra completa(9)

LIVRO IX

 

Entretanto que ao longe isto sucede,
A Satúrnia do Olimpo Íris despacha
A Turno audaz: que em vale e sacro bosque
Do avô Pilumno acaso descansava.
5 “Turno, a Taumância diz com rósea boca,
O andar do tempo e o ensejo te oferece
Que um deus a prometer não se atrevera:
Deixada a frota e a praça, foi-se Enéias
À palatina corte; e em Córito inda,
10 Seus confins penetrando, agrestes Lídios
Recruta e apresta. Hesitas? sem demora
Tu carros e frisões demanda, assalta
O confuso arraial.” Nas asas presto
Librada, monta às nuvens, onde o ingente
15 Arco descreve. Ao conhecê-la o jovem,
As palmas exalçando, com tais vozes
A fuginte acompanha: “Íris, das auras
Quem, eterno ornamento, a mim te envia?
Donde esta repentina claridade?
20 Rasgado o céu, diviso errantes astros:
Quem sejas, por teu mando ao prélio corro.”
Nisto, à margem caminha; e, haurindo a linfa
À tona da corrente, aos deuses roga,
De muitos votos carregando os ares.

25 De auri-bordada veste e corcéis rico,
Já na planície o exército marchava.
Messapo à frente, a retaguarda cobrem
Os Tirridas; no centro, as armas Turno
Sustenta em chefe, e a todos sobreleva:
30 Tal surge o Ganges, que silente em rios
Sete engrossa: ou, dos agros refluindo,
No álveo recolhe o Nilo a enchente pingue.

Crescendo escuro na campina, os Teucros
Um turbilhão de pó súbito avistam.
35 De adverso bastião Caíco brada:
“Qual em globo volteia atra caligem?
Arma, arma, sócios, o inimigo avança,
Os muros socorrei.” Trancam-se as portas,
Aturde a grita, apinham-se às trincheiras.
40 Ao partir, ordem foi do sábio Enéias
Que, em sucesso fortuito, não se atrevam
No raso, mas de dentro se defendam:
Bem que à pugna os instigue ira e vergonha,
Encerram-se, e o preceito executando,
45 No valo e torreões o ataque atendem.

Turno, com vinte insignes cavaleiros,
Transpõe tardia tropa, aos muros voa;
Pluma o adorna vermelha em casco de ouro,
Fouveiro trácio alípede cavalga.
50 “Quem enceta e a meu lado investe, ó bravos?
Quem?...” E um dardo arremessa em desafio,
À praça árduo se arroja. Os seus o aplaudem,
Atrás dele com frêmito bramando
Horríssono: da inércia frígia pasmam,
55 De que homens tais combate em plaino evitem
À sombra do arraial. Furioso trota,
Ínvios sítios perlustra e ingresso tenta.
Se alta noite, insidiando o curral cheio,
Uiva na sebe o lobo ao vento e à chuva,
60 Berram cordeiros ao materno bafo;
Com gana à preia ausente, ele braveja;
Secas de sangue as fauces, longa o anseia
A raiva de comer curtida e junta:
Não com menos violência, ante os reparos
65 Arde ao Rútulo a dor nos ossos duros;
Por onde e como desaloje os Teucros,
E no campo os derrame, idéia e pensa.
A frota, que às trincheiras abrigada
Ondas fluviais e marachões torneiam,
70 Invade-a: pega de um flagrante pinho,
Provoca férvido os contentes moços;
Que, do exemplo incitados, arrebatam,
Fachos, tições: enrolam-se nos ares
Cinza e fagulhas, fumo e píceo lume.

75 Que deus, Musas, livrou do incêndio os vasos?
Quem extinguiu, dizei-me, o fogo horrível?
É prisco o fato, mas perene a fama.

No Ida as naus quando Enéias construía
Para entregar-se ao pélago, assim contam
80 Que a Jove orara a Berecíntia madre:
“O que, domado o céu, pedir-te venho,
Dá, filho, à tua genetriz querida.
Há muito amo um pinhal, a mim dicado
Nesse gárgaro cimo, umbroso e opaco
85 De alvares troncos, de alentados bordos:
Leda o cedi para a dardânia frota;
Hoje um temor solícita me rala:
Solve-o; possam contigo as preces minhas,
As naus viagem nem tufão destroce:
90 Valha o terem nascido em nossos montes.”
O que as estrelas gira: “Ó mãe, responde,
Que fado exiges tu para estas quilhas?
Conseguir obra humana imortal vida!
Certo empreender o Teucro incertos riscos!
95 Tal potência a que deus foi permitida?
Antes, o porto ausônio as que a aferrarem,
Salvo a Laurento Enéias transportando,
A mortal forma desfarei; que sejam
Marítimas deidades algum dia,
100 E o ponto espúmeo com seu peito rasguem,
Como a Neréia Doto ou Galatéia.”
Isto ao jurar, do irmão pela água estígia
E torrentes de pez e atra voragem,
Anui; e ao senho treme o Olimpo todo.

105 Raia o dia aprazado pelas Parcas;
De Turno a injúria dos baixéis as tedas
Faz que Cibele aparte. Aos olhos brilha
Nova luz, e da aurora em vasta nuvem
Os coros do Ida pelo céu transcorrem;
110 Aos Rútulos e Troas voz terrível,
Talhando os ares tomba: “Apressurados,
Frígios, não vos armeis por esses lenhos;
Os mares queimará mais fácil Turno
Que os meus sacros pinheiros. Ide soltas,
115 Ide, Ops vos ordena, equóreas deusas.”
Súbito as popas, cada qual das ribas
Cabos rompendo, os beques mergulhados,
Se afundam quais delfins. Do pego, ó pasmo!
Quantas retinha a praia brônzeas proas
120 Surdem, mudadas em virgíneos rostos,
E vão-se ao largo. Os Rútulos se espantam,
Messapo enfia, turbam-se os cavalos;
Rouco o Tibre, assustado, o passo encolhe.

Só Turno, firme e afoito, anima, exprobra:
125 “São contra Enéias, grita, esses portentos;
Roubou-lhe Jove o sólito recurso:
Já nem tiros, nem fogo as naus aguardam.
Fechado o mar, vedou-se a fuga aos Teucros,
Falta-lhes o mais orbe; e a terra é nossa,
130 Mil ítalas nações por nós conspiram.
Nada os fatais oráculos me assombram,
Se de alguns o inimigo ora se jacta.
Basta a Vênus que os seus na pingue Ausônia
Toquem: tenho outro fado, é retalhá-los...
135 Nefandos! que usurpar-me a esposa querem.
Nem só pene aos Atridas uma afronta,
Nem se arme só Micenas. Suficiente
É cair uma vez: ter já pecado
Sobrara a escarmentar os que inda o sexo
140 Não entejam femíneo. Esses que estribam
Em valo e fosso, à morte curto empeço,
Em cinza resolvidas as muralhas
De Ílio não viram, por Netuno obradas?
Quem, varões, a tranqueira a ferro escala,
145 E o trépido arraial comigo expugna?
Não vulcânia armadura, não mil quilhas
Hei mister. Confederem toda a Etrúria;
Não temam do paládio inertes furtos,
Noturnos atalaias degolados,
150 Ou que no eqüino ventre nos metamos:
Sitiando às claras, queimarei seus muros.
Nem o hão com Danaos certo e Aqueus bisonhos,
Que Heitor foi por dez anos entretendo.
Gasto o melhor do dia, o resto, amigos,
155 Refocilai-vos do começo alegres,
E a combater a tento apercebei-vos.”

Manter entanto a cargo tem Messapo
Velas às portas e ao redor fogueiras.
Cabos catorze aos muros põe de guarda,
160 Com cem soldados cada qual, flamantes
De ouro e purpúreos de lustrosas plumas.
Patrulham, rendem-se, e na relva bebem
De êneos pichéis vasando. Os fogos luzem,
E a folgar se despende a noite insone.
165 Do valo os Troas vigiando, em armas
Têm-se ao merlões; a medo as portas rondam,
Pontes comunicando e baluartes.
A Seresto e Mnesteu, que ardidos instam,
Foi que Enéias fiou, se urgisse o caso,
170 Ter cobro em tudo e moderar os moços.
Cada esquadrão por sorte expõe-se aos muros,
E se reveza em postos arriscados.

Era de um sentinela o Hirtácio Niso,
Valente, ágil, perito em dardo e seta,
175 Que Ida fragueira a Enéias deu por sócio.
Com ele estava Euríalo: um mais lindo
Não houve que vestisse arnês troiano;
Sombreava-lhe o buço intensas faces.
Ternura os une; à lide a par correndo,
180 Então a mesma porta ambos velavam.
“Euríalo, diz Niso, um deus mo inspira,
Ou quem quer chama deus o ardor que o punge?
A empreender um combate, um feito insigne,
Me excita a mente; inquieta-me o repouso.
185 Nota a fidúcia: os lumes quase mortos,
Com sono e vinho os Rútulos prostrados,
Reina à larga o silêncio. Ouve o que n’alma
Fermento e cuido: anelam por Enéias
Senado e povo, e quem lhes traga novas
190 Cogitam; se o meu prêmio te asseguram
(Fique-me a fama), ao pé daquele outeiro
Achar posso o caminho a Palantéia.”

Da glória estimulado, absorto o jovem
Impugna o acre amigo: “E tu me enjeitasl
195 Abandonar-te eu, Niso, em dúbio lance!
Nem tal meu pai, o marcial Ofeltes,
Criou-me em terror graio e tróicas lidas,
Nem tal me houve contigo, dês que abraço
Do exímio cabo a sorte. A luz desprezo,
200 E da que esperas honra em troco a vendo.”
Niso então: “Assim Jove, ou deus propício,
A ti me torne ovante, que o teu brio
Não me é suspeito, nem podia sê-lo.
Mas, se algum (riscos tantos considera),
205 Se algum nume ou revés me descaminha,
Deves sobreviver-me; és tão menino!
Haja, para enterrar-me, quem da pugna
Me subtraia ou resgate; e, se a desdita
Mo tolhe, quem sufrague o ausente corpo
210 E me adorne um sepulcro. Nem dor tanta
Eu cause a tua mãe, que só das muitas
Seguir-te ousou, de Acesta não curando.”
E ele: “Fúteis razões por demais teces;
Não mudo parecer: eia, partamos.”
215 Desperta os guardas, que no posto os rendem,
E com seu Niso ao príncipe caminha.

O Sono pelo globo derramava
O esquecimento e alívio dos trabalhos:
Sós em conselho os generais dardânios,
220 Arrimados ao pique e à sestra o escudo,
Em pleno campo a discutir, pesquisam
Quem a Enéias ou como expediriam.
Niso e Euríalo à pressa, alvoroçados,
Audiência pedem; que o negócio é grave,
225 Nem sofre dilação. Iulo acolhe-os,
E com licença o Hirtácides começa:
“Atendei-nos, Enêiadas benignos;
Por nossa idade não julgueis do intento.
Modorra e vinho os Rútulos sepulta;
230 Sítio azado(52) observámos, onde a estrada
Junto à porta do mar se abre em dois ramos;
Raros os fogos, negro fumo deitam:
Se permitis que o lance aproveitemos,
Enéias cedo cá tereis de volta,
235 Feita grande matança e rica presa.
Não há temor de errar: de escuros vales
Em contínuas caçadas Palantéia
Descobrimos, e o rio conhecemos”.

Aqui logo o maduro e anoso Aletes:
240 “Pátrios deuses, de Tróia arrimo eterno,
Não quereis extirpar-nos, pois criastes
Em peitos juvenis valor tamanho.
Qual... (nisto, ambos abraça, as destras cerra.
E lhes inunda em lágrimas os rostos)
245 Qual, varões, vos será condigno prêmio
À(53) tanta audácia? O mais gentil vos paguem
Vossa virtude e o céu; depois, Enéias;
E na idade completa nunca Iulo
Deslembre este serviço.” — “Antes eu, Niso,
250 Que em meu pai só me salvo, ajunta Iulo,
Obtesto o lar de Assáraco e os penates,
E o juro aos penetrais da branca Vesta,
Minha fé, minha dita, em vós deponho:
Meu pai restituí-me; ao seu conspecto
255 Nada infausto haverá. Dois belos copos
De prata e com relevos, que de Arisba
Cativa ele tomou, dois grandes áureos
Talentos ganharás, mais duas trípodes,
E a que Elisa me deu cratera antiga.
260 E se, a Itália domada, o cetro alcanço
E os despojos partir; viste o cavalo,
Viste o arnês em que Turno campeava?
O broquel nítido, o cocar vermelho?
Serão teus, Niso, do sorteio exemptos.
265 Doze meu pai te brindará formosas
Mães e crias, escravos doze armados,
E as mesmas lavras que possui Latino.
A ti porém, que em anos me semelhas,
N’alma te abraço e adoto por consórcio,
270 Venerando menino: em qualquer ponto
Sem ti não terei glória; em paz e em guerra
Ser-me-ás fiel agente e conselheiro.”

Euríalo acudiu: “Nunca estes ausos,
Rode a fortuna próspera ou contrária,
275 Desmentirei; mas dom maior te imploro:
Minha mãe, do priâmeo prisco sangue,
De Ílio comigo se apartou mesquinha,
Por mim de Acestes enjeitou o asilo;
Não saudada, ignorando esta aventura,
280 Vou deixá-la; eu não posso com seu pranto,
Por tua destra e pela noite o afirmo:
Rogo-te que a socorras e a consoles
Na penúria e viuvez; se esta esperança
Tenho de ti, com mais denodo parto.”
285 Abalados os Teucros lagrimavam,
Mormente Ascânio; a imagem da paterna
Piedade o comovia, e assim perora:
“Tudo prometo, que mereces tudo.
Mãe ser-me-á, de Creusa exceto o nome:
290 A quem tal parto produziu compete,
Seja o evento qual for, mercê não leve.
Por vida minha, pela qual jurava
Meu pai, a tua mãe e aos teus respondo
Por quanto aqui reservo e te asseguro
295 Para o feliz regresso.” Então, choroso,
Do ombro a lâmina despe, obra mui prima
Do Gnósio Licaon, de punhos de ouro,
Embainhada em marfim. Mnesteu, leonino
Hirto espólio veloso a Niso doa;
300 Troca o morrião com este o fido Aletes.
Marcham prestes; e às portas, entre votos,
De jovens e anciãos o que há de ilustre
Os conduz: manda ao padre o nobre Ascânio.
Já com viril prudência, avisos cautos;
305 Que o vento espalha e em auras se esvaecem.

Transpondo os fossos, pela treva em busca
Do inimigo arraial, vão ser primeiro
De exício a muitos. Vêem na grama esparsos
Ebri-dormentes corpos; empinados
310 Na praia os carros; vinhos e homens e armas,
Entre as rodas e os loros, de mistura.
“Amigo, adverte Niso, ânimo! é tempo.
O caminho eis aqui: tu longe atenta,
Não nos dêem por detrás, vigia em torno,
315 Que eu te abro devastando e alargo a trilha.”

Preme a voz, e de espada agride(54) o altivo
Ramnetes, que em felpudas alcatifas,
Solto a roncar, evaporava o sono:
Rei e augur diletíssimo ao rei Turno,
320 Da mortal peste o agouro não o esquiva,
Três dos seus, que entre as armas jazem néscios,
Fere, e o pajem de Remo e o seu cocheiro
Sob os corcéis deitado: ao talho os colos
Pendem. Corta a cabeça ao próprio Remo,
325 E em sangue fica a soluçar o tronco,
Do cruor quente a cama e o chão molhado.
Mata a Lamo e Lamiro, e o flóreo e belo
Serrano; que, passada a noite ao jogo,
Ao deus se rende os membros estirando:
330 Oh! feliz, a jogar se amanhecera!
Tal, da fome esganado, o leão de salto
No redil mansa grei, de susto muda,
Roja, a boca ensangüenta e voraz brama.

Não menor clade Euríalo abrasado
335 No ignóbil vulgo exerce, e inadvertidos
Salteia Abaris, Fado, Hebeso e Reto;
Reto que alerta espia, e atrás se agacha
De ampla cratera pávido; no erguer-se
Toda a espada enterrou-se-lhe, e dos peitos
340 Se lhe extrai mais a vida; em ânsias a alma,
Sangue e vinho a golfar, purpúrea exala.
Férvido o Teucro no furtivo estrago,
Já vai-se aos do Messapo, onde a fogueira
Via apagar-se, e em peias os cavalos
345 Pascer em ordem; quando Niso em breve
(Sentiu nímia a do ferro crua sede):
“Basta, lhe diz, radeia o infenso dia.
Foi sobejo o castigo; a estrada é feita.”
Armas de argênteo engaste e argênteas copas
350 E tapetes lindíssimos perpassam.
Euríalo o jaez toma a Ramnetes
E o cinto auri-tauxiado; que opulento,
Por contrair n’ausência o jus de hospício,
Mandou Cédico a Rêmulo Tibúrcio;
355 Este ao neto os legando, e o neto em guerra
Morto, o Rútulo os houve. Embalde o jovem
Ao forte ombro os ajeita, e de Messapo
O casco enlaça de gentil cimeira.

Ao irem do arraial se pondo em salvo,
360 Trezentos cavaleiros adargados
Sob Volscente, no campo atrás deixando
Um corpo instruto, com respostas vinham
De Laurento ao rei Turno. E já propínquos
Ao muro, aos dois lobrigam pelo atalho
365 Dobrando à esquerda; sob a noite escassa,
O dilúculo no elmo refletindo
Trai o impróvido Euríalo. Volscente:
“Alto! varões, clamou; bem vemos, alto!
Donde, aonde, a que fim marchais em armas?”
370 Sem boquejar, nas trevas mal fiados,
Para a espessura fogem, mas, cercando-os
Aqui e ali por cógnitas veredas,
Trancam-lhes todo o passo os cavaleiros.
Basto escuro azinhal houve enredado
375 Com silveiras e espinhos; lá guiavam
Trilhos ocultos e azinhaga estreita:
Empece a Euríalo intrincada a sombra,
Grave a presa, e o temor de extraviar-se.
Niso escapole, e vai sem tento ao sítio
380 Que ao depois, de Alba, foi chamado Albano;
Lá seus gados Latino encurralava.
Pára, e em redor o amigo em vão procura:
“Euríalo infeliz! onde encontrar-te?
Onde te abandonei?” Remexe a cata
385 Falaz perplexa mata, retrocede,
Vagueia em mudas brenhas. Dos cavalos
Ouve o rincho e o tropel, ouve as trombetas,
Nem tarda a ouvir clamor e a ver o sócio,
Que em túrbido tumulto às mãos colhido,
390 Pelo transvio e pela noite opresso,
Contra o esquadrão inteiro o esforço balda.
Como, com que arma ousar, com que denodo
Libertá-lo? hostis golpes arrostando
Irá ganhar, perdendo-a, eterna vida?
395 Ei-lo, o braço contrai, sopesa uma hástia,
E olhando a celsa Lua assim lhe implora:
“Dos astros honra, tutelar dos bosques,
Neste aperto, Latônia, tu me ajuda.
Por mim se Hirtaco padre encheu-te as aras,
400 Se eu do fecho e artesões do sacro teto
Da caça os dons te pendurei, concede
Turbar aquela mó, rege esta lança.”
Disse; o corpo esforçando, a farpa atira:
Zimbra alígero hastil noturnas sombras,
405 No dorso de Sulmon se espeta e quebra,
No pericárdio as lascas se lhe encarnam;
Ele frígido rola, arca em soluços,
Do fundo a borbotar cálido rio.
Olham de espanto em roda; Niso ativo
410 Libra de sobre a orelha outro arremesso,
Que a Tago as fontes a silvar traspassa,
E adere quente ao cérebro encravado.
Em brasa e atroz, sem ver o autor dos tiros,
Nem por onde acometa, urra Volscente:
415 “Por ambos vai pagar teu morno sangue.”
Despida a espada, a Euríalo se envia;
Niso atônito grita, nem se encobre
Na treva mais, que a dor o não consente:
“A mim o ferro, a mim que tenho a culpa,
420 Rútulos, convertei: nada ousou este,
Nem pôde, aos céus o juro e aos cônscios astros;
Sim quis muito a um amigo desgraçado.”
A tais razões, o estoque iroso as costas
Vara e ao coitado o branco seio rasga;
425 Tomba Euríalo, em sangue os pulcros membros,
No ombro a cerviz debruça moribundo:
Ao talho assim do arado, falecendo
Murcha a rosa; ou, das chuvas agravada,
O colo inclina a lânguida papoila.
430 Niso arremete, ao só Volscente busca,
Só quer-se com Volscente; em massa o atacam:
Desenvolto rodeia, e pela boca
No Rútulo bramante esconde o gume
Fulmíneo; a vida arranca-lhe morrendo.
435 Aberto em chagas, sobre o amigo exânime
Se deita, e expira em plácido sossego.

Par ditoso! terás, se em verso eu valho,
Perpétua fama, enquanto o pai de Roma
O orbe domine, e a geração de Enéias
440 Do Capitólio habite a rocha imóvel.

A presa, o espólio, o morto os vencedores
Levam chorando. É mor no campo o luto,
Num morticínio achados com Ramnetes
Numa exangue, Serrano e tantos cabos:
445 Os semivivos corpos e os finados
Contempla a turba, e o chão que da carnagem
Fuma, e em regatos o espumante sangue.
Nos despojos conhecem de Messapo
O elmo, os jaezes com suor cobrados.

450 Já largando a titônia crócea cama,
Radiava no mundo a prima Aurora:
Turno, difusa em tudo a luz febéia,
Arma-se e arma os varões, e as bronzeadas
Esquadras cada chefe estimulando,
455 Com rumor vário lhes aguça as iras;
E sobre hastas erectas, insultando-os
Com algazarra, aspecto lastimoso!
Pregam de Niso e Euríalo as cabeças.

À esquerda os Teucros firmes se postaram,
460 Que a(55) destra os cinge o rio; estão mantendo
Fossos e torreões, com mágoa as frontes,
Bem conhecidas, contemplando fixas
A estilar negra sânie. A Fama adeja
Pelos pávidos muros empenada,
465 E de Euríalo à mãe toa aos ouvidos:
Enfia e gela a triste; a lançadeira
Das mãos lhe cai, e o fio que tramava:
Demente voa, carpe-se ululando;
Entre armas e esquadrões, sobe às ameias,
470 Sem lhe importar perigo, e os ares parte
Com femíneo queixume: “És tu, meu filho?
Báculo dos meus anos, tu pudeste,
Cruel, negar-me o arrimo? nem, a tantos
Riscos mandado, à genetriz mesquinha
475 Deste um adeus sequer? Ai! filho, jazes
Preia de aves e cães em terra estranha!
Eu mãe, nem te cerrei funérea os olhos,
Nem as chagas lavei, te expondo envolto
Na teia que lavrava dia e noite,
480 Consolando os pesares da velhice!
Onde os láceros órgãos, rotos membros,
Onde achar? Isto só de ti me resta,
Peregrinei para isto e afrontei mares?
Se há piedade em vós, morra eu primeira,
485 Com vossos dardos, Rútulos, varai-me;
Ou, pai supremo, um raio teu me abisme,
Por compaixão, no Tártaro maldito,
Já que a dor não me atalha a infausta vida.”
Tudo geme, e o lamento conturbados
490 Os corações consterna e os entorpece:
Pois que o luto acendia, ao mando e aviso
De Ilioneu e de Ascânio lagrimoso,
Ideu e Actor em braços a recolhem.

Medonho éreo clangor reboa ao longe,
495 A grita se une à tuba, e o céu remuge.
Conchada a manta, os Volscos se aforçuram
A entulhar fossos, a arrombar tranqueiras;
Tais insistem na brecha ou na escalada,
Por onde a guarnição raleia e em pinha
500 Menos densa entreluz. Com duros fustes,
Com omnígeno tiro os defensores,
A longo assédio afeitos, os repelem;
Pesadas galgam pedras, por que rompam
A espessa manta, a cujo abrigo o choque
505 Os de fora sustêm: mas já não podem;
Que, onde o grosso adensava-se, o inimigo
Volve impetuosa mole, que os esmaga
E a testudem separa: em cego marte
Não pugnam mais; intrépidos a dardos
510 Lançar porfiam da estacada os Frígios.
D’além, torvo e feroz, Mezêncio o etrusco
Pinho e brandões fumíferos sacode;
De frisões domador, neptúnia prole,
Valos destrói Messapo e escadas pede.

515 Agora tu, Calíope, me ensina;
Lembrai, narrai-me, ó deusas da memória,
Que ruína e pranto fez de Turno o ferro,
Por quem foi cada qual metido no Orco;
Desdobrai-me as da guerra ingentes orlas.

520 Torre altaneira havia e de árduas pontes
Em lugar próprio: os Ítalos as forças
Por derrocá-la envidam; propugnando-a,
Soltam calhaus(56) os Troas, das seteiras
Despedem frechas mil. Turno o primeiro
525 Joga ardente lanterna, e afixa ao lado
Flama, que ateia ao vento e em solhos prende,
Rói e agarra aos portais. Confuso e trépido
O tropel dentro em vão se refugia:
Recuam e amontoam-se onde a peste
530 Não grassa; a torre, desabando ao peso,
Rebenta, e do fragor todo o céu troa.
De seu ferro passados, semimortos,
O amplo destroço os cobre, ou vem de peitos
Sobre o rijo madeiro. Escapa Lico,
535 E o florente Helenor, a quem Licímnia
Serva ao meônio rei gerou bastardo,
E o mandou, contra o jus, armado a Tróia;
Leve, em branco a rodela, inglório esgrime.
De Turno acha-se o moço entre as fileiras,
540 Aqui e ali de batalhões cercado;
Perecedouro envia-se aos Latinos,
Onde as lanças mais chovem: qual, de bastos
Monteiros acuada, em sanha a fera,
Não ignara afrontando a morte certa,
545 De um só pulo aos venábulos se arroja.
E Lico, mais ligeiro, entre hostes e armas
Deita a fugir; a ameia quer pendente
Apreender, segurar-se às mãos dos sócios:
Turno à carreira dardejando o acossa,
550 Vitorioso o invectiva: “O alcance nosso,
Louco! evadir contavas?” Pelas pernas
O aferra, e traz com grã porção do muro:
No surto assim a armígera de Jove
Preia nas unhas lebre ou alvo cisne;
555 Assim rouba do aprisco o márcio lobo
Anho à mãe, que o reclama em seu balido.

A vozeria ecoa: invadem, fossos
Entupem de faxina; aos altos parte
Achas vibra. Do monte c’um fragmento,
560 Pedra enorme, Ilioneu prostra a Lucécio,
Que à porta achega fogo: a Emátio Ligro,
A Corineu Asilas, bom na seta
Falaz de longe aquele, este no dardo.
Ceneu derriba a Ortígio, a Ceneu Turno;
565 Turno a Clônio, Itis, Sagaris, Dioxipo,
Prômulo, Idas, na estância dos cubelos.
Cápis mata a Priverno, a quem Temilas
D’hasta roçara: ao descobrir-se incauto
Apalpando a ferida, ao lado esquerdo
570 Rápida a letal seta a mão lhe prega,
Dentro os d’alma espiráculos rompendo.
Formoso, em pulcro arnês, de Arcente o filho
Broslada a farda em cerco e de ferrenha
Tinta ibera, o expediu seu pai, que em bosque
575 Márcio o criara, onde às simétias margens
Ara pingue e placável tem Palico:
Deposta a lança, vezes três Mezêncio
Volteia a funda, zunidora a impele;
E, com líquido chumbo a do contrário
580 Testa rachando, n’ampla arena o estende.

Consta que Iulo, usado à montaria,
A guerra então provou, com ágil frecha
Rendendo o acre Numano, apelidado
Rêmulo, que à menor irmã de Turno
585 De fresco se enlaçara; e ante as falanges,
Vociferando infâmias com doestos,
Dessa aliança túmido e orgulhoso,
Anda, e arrogante em gritos bizarreia:
“Não vos peja outro assédio e à morte, ó Frígios
590 Bi-cativos, trincheira e valo opordes?
Eis os campeões que as bodas nos disputam!
Que deus, que insânia vos lançou na Itália?
Atridas cá, nem fraudulento Ulisses;
Rija estirpe encontrais. No rio e ao forte
595 Gelo os recém-nascidos roboramos:
Caçam ledos, a mata infantes batem,
Do arco asseteiam córneo, amansam poldros:
Moços, trabalho aturam, comem pouco,
Domam de ancinho a terra, expugnam praças.
600 Gasta a idade em batalhas, de hasta inversa
Picamos nossos bois; nem torpe as forças
A velhice nos míngua e o vigor d’alma;
O elmo nos preme as cãs; recentes presas
Nos praz sempre acarrear, viver de roubos.
605 Trajais múrice ardente, em cróceas galas
Amoleceis; agradam-vos coréias,
Laços nas coifas, túnicas de mangas.
Frígias, não Frígios, pelo Dindimo ide;
À tíbia afeitas bíssona, esses gládios
610 A homens largai: da Berecíntia o buxo
Ideu vos chama, e adufes e timbales.”

Pragas, jactâncias, não lhas sofre Ascânio:
De frente ajusta a seta ao nervo eqüino;
Encurva as pontas, e detido a Jove
615 Implora humilde: “Onipotente padre,
Anui à nova audácia; eu dons solenes
Te ofertarei no templo, e ante os altares
Branco novilho de dourada fronte,
Que à mãe se iguala e entona-se, remete
620 Já de corno e de pés a areia esparge.”
Do céu sereno, à esquerda, o rei troveja:
O arco estala mortífero, e despede
Horríssono farpão, que as fontes cavas
De Rêmulo atravessa. “Vai, moteja
625 Do dardânio valor. Dos bi-cativos
Esta a resposta às rútulas bazófias.”
Não mais Ascânio; o teucro aplauso estronda,
Fremem de gosto, exaltam-no às estrelas.

De cima a deus crinito, em lata nuvem
630 Sentado, olhava o exército e a cidade,
E ao vencedor menino: “Em brios, disse,
Medra, Iulo; assim, garfo e tronco divo,
Se monta aos astros: no porvir, das guerras
O jus terá de Assáraco a prosápia;
635 Tu não cabes em Tróia.” A tais palavras
Do éter se atira, e as virações talhando,
A Ascânio busca; transformou-se em Butes,
De Anquises pajem, seu leal e antigo
Porteiro mor, acrescentado em aio
640 Do filho por Enéias. Ia Apolo
Semelhando-o na voz, tez, cãs, e em armas
Sevi-sonoras; e ao fogoso aluno:
“Baste, Enêiada; impune ao grã Numano
Frechaste; belo ensaio! a Febo o deves,
645 Que não te inveja em feitos o emparelhes:
Mas poupa-te, menino”. Aqui, despindo
Mortal aspecto e no ar se esvaecendo,
Na fuga o deus aos próceres mostrou-se,
Que sentem chocalhar na aljava as setas.
650 Por mando pois de Febo o ávido moço
Coíbem do conflito, e a ele tornam,
Metendo a vida em manifestos riscos.
Muros, baluartes o alarido afunde.
O arco atesam robusto, amentos libram,
655 Juncam dardos o solo; escudos e elmos
Rugem do atrito; endura-se a peleja:
Tal de ocíduo aguaceiro o chão verberam
Os cabritos nimbosos; tal graniza
No mar, quando o Tonante horrendo esguelha
660 Austral procela e despedaça as nuvens.

Pândaro e Bícias, de Alcanor progênie,
Que, a abetos do seu monte iguais, criou-os
No ideu bosque de Jove a agreste Hiera,
A porta abrem que Enéias cometeu-lhes,
665 E afoitos o inimigo desafiam.
Dentro, em face das torres, de aço e malha,
De altas plumas, à destra e à sestra luzem:
Qual, nas margens do Pado ou nas que ameno
O Atesis rega, gêminos carvalhos,
670 Intonsos desferindo aéreos topes,
Verde a coma balançam. Livre a entrada,
Os Rútulos investem. Já Quercente,
Tmaro assomado, Equícolo galhardo
E o márcio Hemom as tropas retraíam,
675 Ou junto ao limiar as vidas punham.
Ceva-se e cresce a raiva, e em globo os Teucros
De fora ousam travar renhida pugna.

Turno, que alhures bravo estrói e arrasa,
Soube que, franco o acesso, os Teucros fervem
680 Do fresco estrago; e, indômito bramindo,
O ataque larga, e à porta rui Dardânia
Contra os feros irmãos: topando abate
A Antífates audaz, que uma Tebana
Ao grã Sarpédon engendrou furtiva:
685 O ítalo córneo dardo os ares frecha,
Rasga-lhe o estômago e o profundo peito;
Verte a negra ferida espúmeas ondas,
E no pulmão varado o ferro aquece.
A Méropo e Erimanto e Afídno prostra;
690 Prostra a Bícias, fremente e de ígneos olhos,
Não com dardo, que o dardo inútil fora,
Mas fulgúrea falárica rechina,
Bote a que dois não bastam couros táureos,
Fiel dupla loriga de ouro e escamas;
695 O chão da queda geme, e o corpo enorme
Sobre o imenso pavês se estira e toa:
Qual, em Baias eubóica despenhado
Sáxeo pilar, com mole ingente erguido,
Cai no golfo arruinando e em vaus se acrava;
700 Túrbido o mar, remexe areia e lodo,
Treme a alta Prochita, Inarime ecoa,
Covil duro a Tifeu por Jove imposto.

Fuga e atro medo aos Teucros infundido,
Marte aos Latinos o acre ardor aviva;
705 Que, dado o ensejo, intrépidos concorrem,
E o deus armipotente embebem n’alma.
Ao ver o irmão por terra, o angusto caso
E má fortuna, Pândaro a couceira
Torce, à porta arrimando os ombros largos;
710 Mas, fora em transe amaro os seus deixados,
Recolhe uma torrente de inimigos:
Néscio! em Turno impetuoso não repara,
Que entre a chusma na praça está metido,
Como entre gado imbele imano tigre.
715 De olhos corisca, horrendo as armas soam;
No cimo a tremular sangüíneas cristas,
Áscuas fuzila o escudo. A catadura
Conhecem logo do membrudo chefe
Turvados Teucros, e o gigante pula,
720 Férvido e iroso da fraterna morte:
“Esta a régia dotal não é de Amata,
Nem de Ardea o pátrio muro a Turno encerra;
Vês hostis arraiais sair não podes.”
Turno sorri tranqüilo: “Anda, se és homem,
725 Vem combater; e a Príamo refiras
Que outro Aquiles achaste.” Aqui sacode
Com suma força Pândaro escabrosa
Lança de ásperos nós; que, no ar frustrada,
Por Satúrnia, retorce e o portal ferra.
730 “Pois da arma que manejo não te eximes;
É diferente o golpe e a mão que o vibra.”
Ei-lo, se alça nos pés, roda o montante;
E, as têmporas partindo e impubes queixos,
A cutilada a fronte escacha em duas.
735 Do abalo a terra estronda: ali, morrendo,
Os frouxos membros roja e dos miolos
O arnês cruento; por igual fendida,
De um ombro e do outro pende-lhe a cabeça.

De assustados o dorso os Teucros viram;
740 E, romper a estacada se ocorresse
Ao vencedor e introduzir os sócios,
Nesse dia findara a guerra e Tróia;
Mas crua ardente sede o arrasta e cega.
A Sagaris jarreta e a Giges logo,
745 Hastas que saca aos fugitivos darda,
E Juno a persegui-los o acorçoa.
A Halis e pela adarga a Fegeu crava;
Tronca a Noemom, Pritanis, Hálio, Alcandro,
Que ínscios no muro o assalto rechaçavam.
750 Estribado à trincheira, destro o gládio
Brande a Linceu, que investe e auxílio clama;
A cabeça de um talho cerceada
Longe com o elmo jaz. Terror das feras
De um revés tomba Amico, sem segundo
755 No ervar a frecha e empeçonhar o ferro;
Mais o Eólides Clício, e Creteu vate,
Caro às musas; Creteu, cujo gosto era
Tender acorde os nervos do alaúde,
Armas cantar, varões, corcéis, batalhas.

760 À nova do destroço, ardido acode
Com Seresto Mnesteu, que dentro encontram
O inimigo, e os consócios derrotados:
“Onde, brada Mnesteu, fugis, Troianos?
Que outros muros tereis, que outra guarida?
765 Um só homem, fechado em vossa estância,
Faz impune tamanhos morticínios?
Tantos guerreiros precipita no Orco?
Sem pejo do rei nosso e nossos deuses,
Não vos instiga e move a pátria mesta?”

770 Isto os alenta e inflama, em mó carregam;(57)
E Turno, em retirada, a parte busca
Pelas águas cingida: a grandes brados
Com mais vigor o acossa o tropel todo.
Se a leão truculento de azagaias
775 Vexa a turba, aterrado e acerbo olhando
Recua; nem dar costas lhe consente
Ira ou valor, nem ousa, embora o anele,
Acometer zargunchos e monteiros:
Não de outra forma Turno, dúbio e lento,
780 Retrocede, estuoso e furibundo;
Invadiu mesmo as hostes vezes duas,
Duas as pôs em fuga e debandada.
Mas já num corpo o exército se apressa:
Nem a própria Satúrnia a mais se atreve;
785 Que o soberano irmão lhe mandou Íris
Com ordens pouco brandas, se insistindo
Seu valido as muralhas não despeja.
De um chuveiro de lanças molestado,
Nem braço nem broquel já basta ao jovem:
790 O elmo em torno estrepita e crebro tine;
O éreo sólido arnês abolam pedras;
Desmanchado o cocar, desfeita a malha,
Dobram-lhe os tiros, golpes lhe amiúda
O fulmíneo Mnesteu. Revê dos poros
795 Largo suor e píceo arroio mana;
Egro respira, o fôlego açodado
Lhe agita os lassos membros. Todo em armas
No flavo Tibre se atirou de um salto;
Mansa a veia o recebe, ufano o leva,
800 E da matança puro aos seus o entrega.

publicado por centrallgames às 00:53
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