Terça-feira, 26 de Abril de 2011

eneida de virgílio:obra completa(8)

 

LIVRO VIII

 

Mal Turno, os cornos rouco estrepitando,
Pendões arvora no laurente alcáçar,
E os brutos afogueia e incita as armas(46),
Revolto o Lácio em trépido tumulto
5 Se conjura, e esbraveja a mocidade.
Chefes Messapo e Ufente, o ateu Mezêncio,
Organizando levas, despovoam
Toda a campanha. A requerer o auxílio
Do grã Diomedes, Vênulo deputam;
10 A informar que, abordado há pouco Enéias,
Os vencidos penates recolhendo,
Rei se inculcava por querer dos fados;
Que atrai cem povos, e n’Ausônia lavra
Seu prestígio. Ao que tenda, e o que resulte
15 Se a fortuna o insufla, é manifesto
Mais a Diomedes que a Latino ou Turno.

Derramada a notícia, o Laomedôncio
Em cuidados flutua, e a mente vaga
Divide e agita, a meditar em tudo:
20 Como em bacia d’água o tremulante
Raio da Lua ou Sol, repercutido,
A regirar volúvel, monta aos ares
Do sumo teto os artesões ferindo.

Noite era; e gados, aves e alimárias,
25 Quando lassos na terra adormeciam,
Dos perigos aflito, à riba Enéias,
Tardo repouso aos membros concedendo,
Sob o eixo do céu frio recostou-se.
Deus do sítio, a surgir do leito ameno,
30 Entre alemos se antolha o Tiberino:
Ao velho tênue bisso um verdoengo
Sendal compõe, e a touca umbrosa cana.
Ao Teucro fala e o peito lhe mitiga:
“Divo renovo, que dos Gregos salva
35 Pérgamo eterna à Hespéria nos transportas,
Nestas laurentes veigas esperado,
Casa tens certa, certos os penates;
Avante! não te assuste a feia guerra:
O tumente furor cessou dos deuses.
40 Por que isto um sonho fútil não reputes,
Em litóreo azinhal grande alva porca
Deitada encontrarás parida, e em roda
Nela a mamar trinta alvos bacorinhos.
Descanso aqui tereis; trinta anos voltos,
45 Aqui fundando-a Iulo, deste agouro
Alba derivará seu claro nome.
Não dúbio o vaticino. O modo em suma
Te ensinarei de conseguir vitória.
Lá d’Arcádia emigrados que de Evandro
50 Sob a real bandeira aqui vieram,
Do bisavô Palante por memória,
Em montes assentaram Palantéia:
Com eles anda o Lácio em guerra assídua;
O arraial em comum, liga-te a eles.
55 Eu, por meu rio e margens te ajudando,
Farei que a remos a corrente venças.
Sus! roga a Juno; assim que os astros caiam,
Devoto e súplice, ó de Vênus filho,
O ódio minaz lhe adoça: ao triunfares
60 Me honres depois. Sou eu que em ampla cheia
Premo estas bordas, sulco e adubo as vargens,
Aos céus gratíssimo, o cerúleo Tibre.
Meu paço é cá, de altas cidades mano.”

Disse, e imergiu-se: a noite a Enéias deixa.
65 Desperto olhando ao lúcido oriente,
Nas covas palmas, como é uso, apanha
Do licor fluvial, dest’arte orando:
“Ninfas, laurentes ninfas, geradoras
Dos mananciais, com santa veia ó Tibre,
70 Recebei vós a Enéias, resguardai-me.
Qualquer que seja a fonte, ou lago ou solo,
Donde formoso nasças e onde as nossas
Penas, rio cornígero, apiadas,
Sempre terás meu culto, of’rendas sempre,
75 Tu das águas hespéricas monarca.
Assim me valhas e os augúrios firmes.”

Da frota escolhe então birremes duas,
E de armas e remeiros as fornece.
Súbito, ó maravilha! entre arvoredos,
80 Deitada em verde ribanceira, avistam
Com sua alva ninhada uma alva porca;
E a ti, máxima Juno, o pio Enéias
Com todo o parto a imola e te oferece.
Durante a noite amaina o inchado Tibre,
85 E em tácito remanso refluindo,
Qual tanque fica-se ou lagoa estofa,
Que não obste ao remar. Crenado o pinho,
Com propício rumor, no equóreo plaino
Ligeiro se desliza; e a onda e o bosque
90 Arneses a fulgir de longe estranha,
Estranha os bucos a nadar pintados.
Afadigando à voga a noite e o dia,
E os estirões e as voltas alcançando,
Sob a folhuda abóbada, cortavam
95 No aquoso espelho as verdejantes ramas.

Ígneo o Sol meridiano, é quando enxergam
Uns muros, um castelo e tetos raros,
De Evandro haver mesquinho; que a pujança
Romana elevou tanto e aos céus o iguala:
100 Viram proas e ao burgo se aproximam.

Acaso o árcade rei, num luco em face,
O Anfitriônio festejava e os divos.
Solene, o seu Palante, a flor dos jovens,
Pobre senado, o incenso ministravam,
105 Em cruor tépido a fumar as aras.
Surdir vendo os baixéis pela espessura,
E o nauta aos mudos remos debruçar-se,
Das mesas todos erguem-se assustados.
Veda romper-se o rito o audaz Palante;
110 Saca uma lança e voa, e de afastado
Outeiro: “O que tentar vos força, ó moços,
Ignotas vias? de que partes vindes?
Quem sois? onde ides? paz quereis ou guerra?”
Maneando Enéias da alterosa popa
115 Fausta oliva, responde: “Frígios dardos
Te apresento e inimigos dos Latinos,
Que em bárbara agressão nos repulsaram.
Saiba teu rei que os principais Troianos
Lhe vêm pedir junção e apoio de armas.”
120 Logo a tal nome atônito Palante:
“Salta, e a meu pai dirige-te em pessoa;
Quem sejas, te agasalha em nossos lares.”
E a mão lhe aperta, cordial o abraça.

Transposto o rio, ao bosque se encaminham;
125 E amigável o padre: “Ótimo Evandro,
Timbre dos Graios, a fortuna enseja
Que, enastrado este ramo, eu te suplique;
Certo não te hei receio por Arcádio,
Chefe aqueu, dos Atridas consangüíneo:
130 Meu gosto e leal peito, oragos santos,
Parentesco de avós, tua alta fama,
Por fatídico impulso, a ti me enlaçam.
Dárdano, de Ílio autor, de Electra nado,
Para os Troas passou-se, a Grécia o afirma;
135 Do estelífero Atlante Electra é prole:
Vós de Mercúrio o sois, e em frio cume
Cilênio o concebeu cândida Maia;
Maia, é crença geral, o mesmo Atlante,
O que os orbes sustenta, procriou-a.
140 De um tronco somos pois. Eis por que afoito
Núncios não ensaiei que te sondassem:
Eu próprio, eu vim expor-me e suplicar-te.
A Dáunia, que te aprema em feroz guerra,
Cuida, a nos rechaçar, que nada a estorva
145 De meter sob o jugo a Hespéria inteira,
E o superior e o baixo mar que a lavam.
Presta e aceita-me a fé. Briosa temos
Aguerrida e valente mocidade.”

Atento ao seu discurso, Evandro os olhos
150 Curioso lhe examina e a boca e o talhe;
Foi breve assaz: “Fortíssimo dos Teucros,
Com que prazer te hospedo! eu reconheço
De teu pai a facúndia, o tom e o gesto!
A Hesíone irmã sua o Laomedôncio,
155 Lembra-me, visitando em Salamina,
Honrou-me os gelos da vizinha Arcádia.
De flóreo buço a face então pungida,
Bem me admirei de Príamo e seus cabos;
Mas na grandeza os superava Anquises.
160 Cúpido jovem, por tratá-lo ardia
E a mão do herói cerrar: obtendo acesso,
Aos muros de Feneu lhe fui companha.
Partindo, insigne coldre e lícias frechas,
Clâmide auribordada e uns áureos freios
165 Deu-me, de que ora é dono o meu Palante.
Confirmo aquele pacto; e satisfeitos
Vou na alvorada, amigos, despedir-vos
Com socorro de gente e o mais que eu possa.
Entanto, embora celebrai conosco
170 Festa anual que diferir é crime,
E dos sócios à mesa habituai-vos.”

Disse, e os copos repor e os pratos manda,
Senta os varões na relva; em toro e pele
De leão veloso a Enéias acomoda,
175 Cede trono de bordo a herói tamanho.
Moços, do antiste às ordens, lestos servem
Táureas tostas fressuras, dons de Baco,
De obras de Ceres cumuladas cestas.
De rês inteira o dorso e os intestinos
180 Lustrais ministram pasto ao chefe e Troas.

Refreado o apetite e a fome exausta,
Disserta el-rei: “De tanto nume est’ara,
Esta pompa e festim, hóspede, usamos,
Não por superstição que os priscos deuses
185 Desconheça; de atroz perigo exemptos(47),
Mérito culto renovamos gratos.

Nota em penha suspensa aquela pedra:
Dispersa a mole jaz, do monte a furna
Deserta, e ao longe as ruínas dos rochedos.
190 Esta, em recesso vasto ao Sol defeso,
Era a espelunca do semi-homem Caco,
Monstro imano; e, em recente morticínio
Sempre o chão tépido, aos portais soberbos
De homens saniosas lívidas cabeças
195 Fixas pendiam. De Vulcano filho,
Túrbidos fogos vomitando, a enorme
Corpulência movia. Ao suspirarmos
Por divo auxílio, o vingador Alcides
Chega a tempo, e do espólio e morte ufano
200 Do trigêmeo Gerion de gado enchia,
Vencedor pastorando, o rio e vale.

Caco, infrene e brutal, que não se abstinha
Do mor flagício ou dolo, da malhada
Touros quatro furtou-lhe os mais robustos,
205 Quatro novilhas de excelente forma;
E, para nenhum rasto haver direto,
Puxando a cauda e a recuar, no opaco
Pétreo bojo os fechou; pegada alguma
Não guiava à caverna. O Anfitriônio,
210 Já gordo o gado e farto dos pastios,
Retirar-se dispunha, e os bois saudosos
Monte e bosque estrugiam de queixumes.
Do amplo encerro igualmente uma das vacas
Muge, e de Caco as esperanças frustra.
215 Da injúria ardendo e em negro fel, das armas
Hércules pega e do nodoso roble,
Corre ao cabeço aéreo. Aos nossos Caco
Trêmulo e demudado aqui mostrou-se:
Fugindo euros transcende, e aos pés o medo
220 Asas lhe empresta. Já na gruta, abate
Penhasco ingente, rotas as cadeias
Com que acima o ligava arte paterna,
E de espeques reforça e escora a entrada;
Ei-lo, o Tiríntio em sanha os dentes range
225 Acesso a perscrutar: férvido e iroso,
Todo o Aventino vezes três rodeia;
Três contra a sáxea porta o esforço balda;
Três descansou no vale. Aguda roca,
Asado ninho de funestas aves,
230 Entre fraguras e a perder de vista,
Do antro estava no dorso: à esquerda o cimo
Sobre o rio inclinava; à destra Alcides
Carrega, e do imo a desarreiga e impele:
Ao baque repentino o etéreo espaço
235 Retumba; e, as ribanceiras retremendo,
Reflui medroso o rio. A imensa régia
De Caco descobriu-se, e apareceram
Umbrosos penetrais: qual se abalada
Rasgasse a terra hiante o dos infernos
240 Pálido reino, aos deuses detestável;
De cá se vendo, no profundo abismo,
Da luz difusa a trepidar os manes.

Do súbito clarão se assusta o bruto,
A urrar disforme, na caverna preso;
245 De cima o ataca o deus, atira o que acha,
Calhas e galgas e lascados ramos,
Ele, ó monstro! não tendo outro refúgio,
Rouba-se à vista, a jacular das fauces
Tetro vapor; em cega névoa baça
250 Envolve a gruta, e mescla a luz e as trevas,
A fumífera noite aglomerando.
Não o suporta Alcides, e de um pulo
Se arroja onde corisca e ondeia o fumo,
E em caligem mais basta a cova estua.
255 No incêndio vão que expira agarra a Caco,
O estreita e afoga, e lhe esbugalha os olhos,
Seco na goela o sangue. Arranca as portas,
O antro escancara escuro; os bois e os furtos
Abjurados ao claro patenteia.
260 O corpo informe pelos pés arrastam:
Ninguém do semífero a catadura
De olhar se cansa, e os peitos sedeúdos,
E na garganta os apagados fogos.

D’então ledos o dia celebramos;
265 Primeiro o fez Potício, e a consagrada
Pinária tribo ergueu no bosque est’ara,
Chamada sempre máxima, e que sempre
Máxima nos será. Mancebos, eia,
Brindai-me a nobre ação, de destra em destra
270 Os copos a girar, frondosa a coma,
Comum deus o invocai, bebei contentes.”
Presto as cãs lhe entretece e enfolha o choupo
De sombra hercúlea, bicolor pendendo;
Sagrado sifo empunha. Alegres todos
275 Em roda libam, deprecando os numes.

Já Vésper ao declive Olimpo avança:
Tochas nas mãos, do estilo as peles cintas,
Potício à frente, os sacerdotes cobrem
De gratos postres a instaurada mesa;
280 Bandejas de mil dons o altar oneram.
Com popúlea capela, em torno os Sálios
Da ara incensada ao cântico presentes,
Jovens em coro, em coro o entoam velhos
De Hércules em louvor: como estupendos
285 Os dragões da madrasta esmaga infante;
Como as grandes arrasa Ecália e Tróia;
Como, o sabor de Juno, árduos trabalhos
Sob Euristeu passou. “Tu mesmo, invicto,
A Folo e Hileu, nubígenas bimembres,
290 Tu cretenses prodígios, tu mataste
Na brenha o leão Nemeu desmesurado.
De ti a Estige, na cruenta cova
Tremeu do Orco o porteiro, sobre ossadas
Meio roídas a jazer. Fantasma
295 Nenhum lá, nem Tifeu de cota enorme
Te foi terror; não te esmorece e atalha
Da hidra Lernéia a turba de cabeças.
Salve, ornamento aos divos acrescido,
Vera prole de Jove: ao teu festejo
300 Com pé desce propício, e nos assistas.”
Cantam proezas tais; por fim memoram
A furna e Caco resfolgando chamas.
Ressoa a selva e o eco nos outeiros.

Cheia a função, para a cidade voltam.
305 El-rei de anos cercado ia adiante,
Entre Enéias e o filho, em vários modos
Praticando o caminho aligeirava.
Por tudo ávido o herói passeia os olhos,
Mira, e cada vestígio dos maiores
310 Inquire e aprende. Evandro, que os primórdios
Lançou da celsa Roma, então começa:

“Indígenas moravam nestas matas
Faunos e ninfas, e homens raça dura
Dos robles; que nem bois jungir sabiam,
315 Adquirir, nem poupar, sem lei, sem culto;
Montês caça os mantinha e agrestes frutas.
De Júpiter fugindo, aqui Saturno
Do Olimpo veio, expulso do seu trono.
Selvagem povo indócil ajuntando,
320 Legislou, chamou Lácio a plaga antiga,
Onde um latente couto deparara.
No célebre reinou século de ouro,
De justiça e de paz; mas pouco a pouco
Em pior descorou-se a idade nossa,
325 Raiva belaz surgindo e atroz cobiça.
De Ausônios e Sicanos invadida,
Variou de nomes a satúrnia terra:
De um seu rei, Tibre aspérrimo gigante,
O Albula velho apelidou-se Tibre.
330 Cá nos confins do pego, expatriado,
A onipotente sorte inelutável,
De minha mãe Carmenta o sério aviso
E Apolo inspirador, me depuseram.”

Progredindo, ele mostra o altar e a porta
335 Que se intitula Carmental em Roma,
Por memória da ninfa que primeiro
Fatídica os Enêiadas sublimes
E o brilho palanteu vaticinara;
Mostra a mata em que asilo abriu Quirino
340 Sagaz, e o Lupercal, gélida gruta
De Pã liceu, vocábulo parrásio;
Mostra o Argileto bosque, e atesta e narra
De Argos hóspede a morte merecida.

Dali guia ao Tarpeio, ao Capitólio,
345 Hoje áureo, outrora de urzes erriçado.
Os campestres então, da rocha e luco
Já com pavor tremiam religioso.
“No cimo, diz, frondente habita um nume;
Qual seja é dúbio: Arcádios crêem ter visto
350 Jove nubícogo a vibrar por vezes
A égide negrejante. Observa aqueles
Dois muros em ruínas; monumentos
São dos varões passados, são relíquias
De Satúrnia e Janículo, cidades
355 Que o pai Jano e Saturno edificaram.”

Do pobre Evandro à casa entanto sobem;
No foro e lauto Bairro das Carinas
Balava o armento. Ao limiar chegou-se:
“De Alcides vencedor foi este o alvergue,
360 Nesta régia o deus coube. Hóspede, imita-o,
A desprezar atreve-te as riquezas;
Desta míngua de haveres não te enfades.”
Calou-se, e leva o herói pela estreitura
Do exíguo teto, e em leito o põe de folhas,
365 Do espólio de ursa líbia tapetado.
Cai ali-fusca noite e abrange o globo.

Não sem causa, aterrada a madre Vênus
Do cru tumulto e ameaços dos Laurentes,
Carinhosa ao marido amor divino
370 No áureo tálamo inspira, assim falando:
“Enquanto argivos reis com fogo e ferro
A malfadada Pérgamo assolavam,
Nunca, esposo querido, ajuda ou armas
Roguei do teu lavor, nem quis tua arte
375 Por miseráveis empenhar debalde;
Bem que eu devesse muito aos Priamidas,
E muito houvesse a Enéias deplorado.
No rútulo país ora o tem Jove:
Mãe, nume augusto, enfim suplico-te armas
380 Que o protejam. Dobrou-te em pranto a esposa
Titônia, a filha de Nereu dobrou-te:
Olha que povos, que cerradas praças
Em meu dano e dos meus o alfanje amolam.”
Aqui recurva a Cípria os níveos braços,
385 Com mole amplexo afaga o deus remisso;
A nota chama aquece-lhe os tutanos,
Penetra o ardor nos quebrantados ossos:
Como quando estrondoso ignito sulco
Percorre coruscante as rotas nuvens.
390 A bela o aventa, e cônscia o ardil aplaude.

De eterno amor cativo, então Vulcano:
“Que remotas razões! de mim, ó déia,
Já duvidas? Se igual empenho houveras,
Armáramos os Frígios; não vedavam
395 O pai sumo e o destino que dez anos
Príamo inda reinasse. E pois desejas
Combater, esmerar-me eu te prometo
No que de ferro e de fundido electro
Possa obrar sopro ou forja. Os rogos cessem,
400 Confia em teus encantos.” E abraçando
A gozosa consorte, em seu regaço
Num suave repouso adormeceu-se.

Do primo sono, ao descair das horas,
Se despertava; e a dona que só vive
405 Da roca e tênues obras de Minerva,
Suscita as cinzas e sopitas brasas,
Adindo a noite às lidas, e em tarefa
Longa ante o lume as fâmulas exerce,
Por manter ao marido o casto leito
410 E criar tenros filhos; não mais tíbio,
Da fofa cama salta o ignipotente,
E vai de golpe à férvida oficina.

Junto à Sicânia e Liparis eólia
Se ergue sáxea fumante ilha escarpada;
415 Lá toa etnéia gruta por ciclópias
Fornalhas carcomida, e em safras malhos
Se ouvem gemer, dos Cálibes as chispas
Rugir e as frágoas resfolgar em ala:
De Vulcano apelida-se Vulcânia.
420 Dos céus o alto forgeiro aqui descende.

No antro espaçoso o ferro trabalhavam
Nus Piracmón e Estéropes e Brontes.
Nas mãos polido em parte, inda imperfeito,
Corisco tinham, dos que do éter Jove
425 Crebros joga: três raios de saraiva
Torta ajuntaram, três de aquosa nuvem,
Três de rútilo fogo e de austro alado;
Fulgor terrífico e estampido e medo
Mesclavam-lhe e iras de sequazes flamas.
430 Rodas leves e o carro outros consertam
Com que homens e cidades Marte excita;
A égide horrível da agastada Palas
De áureas escamas à porfia brunem,
Onde ao seio da deusa enrosca as serpes
435 E inda olhos vira a Górgona estroncada.

“Fora tudo, lhes clama, etneus Ciclopes,
Deponde esses trabalhos e atendei-me.
Vão-se armas fabricar a herói famoso:
Força agora e primor, destreza e pressa.”
440 Nem acaba, e o serviço eles sorteiam:
Flui ouro e cobre a jorros, e em fornalha
Ampla o aço vulnífico liquesce.
Broquel tremendo formam, só bastante
Contra todos os tiros dos Latinos;
445 Lâminas sete em orbes o roboram:
Ventosos foles o ar sorvido expelem;
No tanque ao temperar-se o metal chia;
O antro a bramir, os golpes nas bigornas
Braços nervudos em cadência alternam,
450 Com tenaz pegam, rubra a massa volvem.

Na Eólia enquanto o Lêmnio os aferventa,
A alma luz da cabana a Evandro acorda,
No teto matinais cantando as aves.
Enfia a túnica, as sandálias tuscas,
455 Ata às plantas o velho; e, a tiracolo
Tegéia espada, lança do ombro esquerdo
E sobraça uma pele de pantera.
Marcham dois cães fiéis, que a porta guardam,
Pós seu dono. Em descargo da promessa,
460 O ancião buscava o camarim de Enéias,
Que também madrugara e já saía.
A um Palante acompanha, ao outro Acates.
Juntas as destras, no salão do meio
Sentam-se, e francamente enfim se explicam.
465 El-rei começa: “Ó mor dos frígios cabos,
Livre estás, por vencida eu não dou Tróia.
Para um tal nome é fraco o auxílio nosso:
Cá tusco rio, lá me aperta armado
Circunsonando o Rútulo à muralha.
470 Mas bons guerreiros e opulentos reinos
Aliar-te vou: dos fados conduzido,
Conjunção tens aqui para salvar-te.

Não distante, em vetustos alicerces
De Agila, outrora a brava gente lídia
475 Fundou cidade nos etruscos serros.
Florente prosperava, até que veio
Mezêncio, mau tirano, a subjugá-la.
Por que assassínios tais e atrocidades
Referirei? Sobre ele e os seus recaiam!
480 Vivos ligava a mortos, contrapondo
Mãos a mãos (que tormento!) e boca a boca,
E em triste abraço e pútrida sangueira
Nesta agonia longa os acabava.
Lassos porém da infanda crueldade,
485 Munidos cidadãos cercam-no em casa,
Queimam-na; os vis asseclas lhe degolam.
Da morte escapo, em Ardea(48) achou guarida,
Do hóspede Turno as armas o defendem.
A Etrúria toda, em fúria e justo marte,
490 Pede insurgida o rei para o suplício.
Vou por-te à frente de milhares destes.
Querendo içar bandeira as popas fremem
Densas na praia: arúspice longevo
As retém profetando: — “Ó flor meônia,
495 Que, avito brio herdando, o agravo acende
Em mérito furor contra Mezêncio,
Não pode Ítalo algum domar tal gente;
Chefe externo escolhei.” — D’então, confuso
Do anúncio, o tusco exército acampou-se.
500 Tárchon mesmo enviou-me insígnias régias;
Aos arraiais tirrenos me convida
E o cetro me oferece. Mas velhice
Tarda e frígida inveja-me este império,
E as débeis gastas forças me acobardam.
505 Suadira o filho, se daqui não fora,
Gerado em mãe sabela. Tu, que a idade,
Que a pátria favoneia, e os céus designam,
Vai, cabo egrégio de Ítalos e Teucros.
Confio-te a só prole, meu conforto,
510 Minha esperança. A militar contigo
Aprenda e a ter em pouco o márcio peso;
Novel, te observe e admire-te as façanhas,
Dar-te-ei duzentos guapos cavaleiros
De escolha, e iguais te ofertará Palante.“

515 O Anquíseo, a vozes tais, e o fido Acates
No mesto coração mil duros transes,
Fixos em terra os vultos, pressagiam,
Se não acena do alto Citeréia.
Eis o ar vibrado relampeia e ronca:
520 Tudo estralar parece e de trombeta
Mugir clangor tirreno. A vista elevam:
Trovão brama e rebrama; em nuvem clara,
Serena a região, pulsadas armas
Vêem rutilar toando. Os mais se espantam
525 Mas o herói, conhecendo o som divino:
“Hóspede, brada, o anúncio do portento
Não me inquiras; o Olimpo me reclama.
Prometeu minha mãe, se a guerra instasse,
Transmitir-me o sinal e pelas auras
530 Armadura vulcânia. Ah! que de estragos
Ameaça os Laurentinos! Caro, ó Turno,
Mo pagarás! Que escudos, corpos e elmos,
Pai Tiberino, envolverás nas ondas!
Que ora peçam batalha e o pacto quebrem.”

535 Do sólio aqui se ergueu; sopitas aras
Com teda hercúlea esperta; e alegre o de ontem
Lar busca e humildes hospedeiros divos;
Reses do estilo bianejas mata:
O mesmo faz Evandro e os jovens teucros.
540 Às naus depois caminha; e dentre os sócios
Elege os mais guerreiros e prestantes;
Outros vão rio abaixo, ao tom das águas,
O que obteve seu pai contar a Ascânio.
Corcéis arreiam para o campo etrusco;
545 A Enéias um loução: leonino o amanta
Fulvo teliz de auriluzentes unhas.

Veloz no exíguo burgo a nova grassa
De ir a cavalaria às tuscas tendas.
As mães duplicam votos, medra o susto,
550 Mor o perigo e a lide se afigura.
Na despedida Evandro ao filho a destra,
Lagrimando insaciado, aperta e fala:
“Oxalá que eu tornasse ao vigor d’antes!
Quando, a vanguarda ufano destruindo,
555 Em Preneste incendiei montões de escudos;
E, remetendo ao Orco o régio Herilo,
Três almas, que ao nascer a mãe Ferônia
Lhe infundira, ó prodígio! este meu braço
Lhas desfez, derribando-o com três mortes,
560 E o despojei da tríplice armadura:
Então, meu doce filho, do teu lado
Nunca me apartaria; nem Mezêncio,
Às minhas barbas tanto horror cevando,
A viúva cidade funestara.
565 Mas, vós deuses, tu Júpiter supremo,
Do aflito arcádio rei compadecei-vos,
Prece escutai paterna: se Palante
O vosso nume e os fados mo conservam,
Se hei de vê-lo e aduná-lo, a vida imploro;
570 Tragarei quaisquer penas: mas, Fortuna,
Se ameaças caso horrendo, agora, agora
Estale a cruel teia, enquanto ambíguo
Temo e espero o futuro, enquanto, ó caro,
Meu só e último gosto, aqui te abraço:
575 Núncio ingrato os ouvidos não me fira.”
Tal neste adeus se exprime e chora o velho;
Desfalecido, os servos o recolhem.

Pelas portas as turmas já despedem,
À testa o herói e Acates, e outros Frígios
580 Dos mais grados: no centro luz Palante,
De arnês pintado e clâmide vistoso;
Qual, do oceano orvalhada, a estrela d’alva,
A quem sobre os mais astros Vênus ama,
Alteia aos céus a fronte e solve as trevas.
585 Pávidas mães aos muros, de olhos seguem
Nuvem pulvérea e o bando eri-fulgente.
Por encurtar jornada, espinhais trilham;
Formam-se ao grito, a esboroá-lo bate
Com som quadrupedante a úngula o campo.

590 Bosque ante o frio Cérite se estende,
Antigo e venerado; o qual circundam
Negros abetos, curvos montes fecham.
Priscos Pelasgos, íncolas do Lácio,
Um dia e o luco é fama que a Silvano,
595 Deus das(49) lavras e gados, consagraram.
Tárchon lá tinha os arraiais seguros;
De uma colina o exército espalhado
Já se descortinava e ao largo as tendas.
Com seus guerreiros se adianta Enéias;
600 Lassos, dos corpos, dos cavalos curam.

A cândida Ciprina os dons pelo éter
Nimboso traz, e ao filho em vale escuso
Retraído enxergando à fresca margem,
Lhe disse rosto a rosto: “Eis os presentes
605 Que engenhou meu consorte: não receies
Laurentes soberbões nem fero Turno
Provocar.” Nisto, enreda-se nos braços
Do seu querido, e à sombra de um carvalho
Depôs fronteiro as fulgurantes armas.
610 Gostoso de honra tanta, em si não cabe;
Mira tudo e remira; embraça(50) e apalpa,
Meneia e prova, de terrível crista
O elmo flamívomo, a letal espada;
Bronzi-rija e sangüínea a grã couraça,
615 Qual se aos raios do Sol cerúlea nuvem
Longe esplende e rubeja; as finas grevas
De electro e ouro acendrado, e a cota e a lança,
E a do broquel textura inexplicável.

Nele, o porvir sabendo e as profecias,
620 O artífice gravou de Itália as coisas
E os triunfos romanos, desde Iulo
A estirpe toda, e a série das batalhas.
De Marte em verde gruta ali parida
Loba jaz, e a brincar das tetas pendem
625 Gêmeos que a chupam sem pavor, e afagos,
Nédia a cerviz dobrando, a mãe reveza,
E os corpinhos lambendo os afeiçoa.

Gravou Roma, e as Sabinas do teatro
Raptas sem modo nos circenses ludos;
630 Entre os Romúleos e dos severos Cures
Do velho Tácio a disparada guerra.(51)
Depois, da ara de Jove os reis armados,
Posto o certame, tendo em mãos as taças,
Em penhor da aliança a porca ferem.

635 Perto, opostas quadrigas fustigadas,
Mécio esquartejam; vísceras e membros
(Tu Albano perjuro, a fé guardasses)
Roja Tulo, e os sarçais goteiam sangue.

Lá, para impor Tarquínio expulso a Roma,
640 Porsena a cerca e oprime: a libertá-la
Contra o ferro os Enêiadas remetem.
Como indignar-se o viras, torvo e irado,
Porque ouse Cocles só cortar a ponte,
E as prisões rompa Clélia e trane o rio.

645 No cimo, a rocha a vigiar Tarpéia,
Mânlio o templo defende e o Capitólio;
Colmo romúleo o paço novo encrespa.
Argênteo ganso ao pórtico dourado
A esvoaçar dos Galos dá rebate,
650 Que entre o mato, a favor da opaca noite,
Vinham-se aproximando à fortaleza.
Áureo o crino, áurea a veste, e o saio em listras,
Luzem de áurea cadeia aos lácteos colos;
Cada qual dois rojões alpinos brande,
655 Com oblongos escudos se resguardam.

Abriu Sálios dançando e nus Lupercos,
Topes lanosos, e do céu caídas
Ancílias: castas mães em moles andas
Guiam pela cidade as sacras pompas.
660 Longe, o Tártaro abriu, plutônias fauces,
E os castigos da culpa; e a ti suspenso,
Ó Catilina, de um minaz rochedo,
Ante as Fúrias tremendo; e à parte os justos,
A quem rígidas leis Catão ditava.

665 Também de ouro, a espumar com branca vaga,
Representa o cerúleo inchado plaino;
Delfins de argênteo brilho, às voltas, o esto
Rasgam, de cauda o pélago açoitando.
No meio, êneas armadas, ácias guerras,
670 Todo a ferver Leucate em marte instruto,
Com o ouro viras fulgurar as ondas.
Cá, n’alta popa, Augusto arrasta aos prélios
Senado e povo, os deuses e os penates;
De ambas as fontes ledo exala flamas;
675 Na cabeça lhe fulge a estrela pátria,
Agripa lá, propícios vento e numes.
Árduo comanda; e a frota vitoriosa
Rostrada se orna da naval coroa.
Antônio além, ovante com o auxílio
680 Bárbaro e vário, as forças traz do extremo
Báctro e eôos confins e roxas praias;
Com todo o Egito, ó pejo! segue a esposa.
À uma ruem, se empegam; freme e alveja
O mar dos remos e esporões tridentes.
685 Crês despregadas Cícladas nadarem,
Montes baterem monte: com tal mole
Instam varões das torreadas popas!
Fachos estúpeos voam, farpas zunem,
Rubra do fresco estrago a azul campina.
690 Sem ver pós si dois áspides, com pátrio
Sistro anima Cleópatra os soldados.
Contra Palas, Netuno e Vênus, se arma
Com omnígenos deuses monstruosos
O ladrador Anúbis: no conflito
695 Marte, em ferro entalhado, se embravece;
Do éter as negras Diras, e ufanosa
Marcha a Discórdia, espedaçado o manto;
Com sangüento flagelo atrás Belona.

O áccio Apolo atentando o arco atesa
700 De cima: de terror o Árabe, o Egípcio,
O Indo, o Sabeu, voltaram todos costas.
Mesmo a rainha parecia os ventos
Invocar, soltar cabos, dar as velas.
Já da futura morte em palor tinta,
705 Da clade o rei do fogo fez que a tirem
O Iapix e a corrente: mas defronte
Mesto abre o seio, e a veste arregaçando,
Ao verde grêmio e latebrosas fontes
Chama os vencidos o gigante Nilo.

710 Com tríplice triunfo entrado em Roma,
De Itália aos deuses cumpre os votos César,
Trezentos sagra amplíssimos delubros.
Festa, aplauso, alegria as ruas soam:
Em cada templo um coro há de matronas,
715 Aras em todos há, perante as aras
Touros imolam, de que a terra juncam.
Sentado ao níveo limiar de Febo,
Reconhece ele as dádivas dos povos,
E dos portais soberbos as pendura.
720 As vencidas nações longo desfilam,
Tão diversas em língua, em trajo, em armas.
Nômades e Afros descingidos, Cares,
Lelagas, sagitíferos Gelonos
Mulciber esculpira; e já mais brando
725 O Eufrates, e os Morinos derradeiros,
E os indômitos Daas, e o bicorne
Reno, e da ponte o Araxes indignado.

O herói admira o dom, primor vulcânío;
Da imagem do porvir gozando ignaro,
730 Dos seus glória e destino ao ombro leva.

publicado por centrallgames às 00:51
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Abril 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
27
28
29
30


.posts recentes

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. ...

. eneida de virgílio:obra c...

.arquivos

. Abril 2011

blogs SAPO

.subscrever feeds

Em destaque no SAPO Blogs
pub