Terça-feira, 26 de Abril de 2011

eneida de virgílio:obra completa(7)

LIVRO VII

 

Tu não menos, Caieta ama de Enéias,
Nossas praias morrendo eternizaste;
Guarda o lugar teu nome, e se isto é glória,
Na magna Hespéria os ossos te assinala.

5 O pio aluno, exéquias celebradas,
Túmulo erguido, assim que os mares jazem,
A velejar prossegue e o porto larga.
Auras à noite aspiram, nem seu curso
Cândida a Lua nega; o ponto esplende
10 Ao trêmulo clarão. Circéias terras
Costeiam-se, onde lucos inacessos
Com aturado canto a rica filha
Do Sol atroa, e nos soberbos tetos
Odoro cedro em luz noturna queima,
15 Corre com pente arguto as finas teias.
Dali gemidos a se ouvir, e as iras
De horrentes leões cadeias recusando
E a desoras rugindo, e nos presepes
Ursos raivar, sanhudos grunhir cerdos,
20 E enormes vultos ulular de lobos;
Que a seva deusa com potentes ervas
De homens os transvestira em brutas feras.
Por que arribada o encanto a boa gente
Não padeça, nem toque as diras plagas,
25 Favorável Netuno encheu-lhe as velas,
E dos férvidos vaus a impeliu fora.

Já na arraiada roxeava o pego,
Fulgia em rósea biga a ruiva Aurora:
Acalma o vento, nem sequer bafeja,
30 E tonsas lutam pás no lento mármore.
Do largo extensa mata avista Enéias;
Dela com fluxo ameno o Tiberino,
Verticoso e veloz, de areias flavo,
Ao mar prorrompe; ao álveo e borda afeitas,
35 Várias aves por cima em cerco voam,
Com meigo trino as auras adoçando.
Que dobrem rumo ordena e à selva aproem,
E entra contente pelo umbroso rio.

Eia, Erato, exporei do Lácio antigo
40 Os reis, o estado, a sucessão de coisas,
Quando aportou n’Ausônia a estranha armada;
Vou do conflito recordar o exórdio.
Tu diva, tu me inspira: hórridas guerras
Dirá teu vate, os prélios, os monarcas
45 Ferozes por seu dano; as tuscas hostes,
A coalição direi da Hespéria em armas.
Mor assunto se me abre, é mor a empresa.

Velho, em sossego e paz Latino as lavras
E cidades regia. É voz que a ninfa
50 Marica de Laurento houve-o de Fauno;
A Fauno gerou Pico; e este, ó Saturno,
Pai te refere: da família és tronco.
O masculino herdeiro, inda em agraço
A sorte lho tirou: gentil princesa,
55 Para um varão madura e já completa,
Era o esteio da casa e amplos domínios.
Da flor d’Ausônia e Lácio pretendida,
Pede-a, em avós e avoengos poderoso,
Turno ante os mais pulquérrimo; a quem genro
60 Almejando a rainha, apressa as bodas:
Obstam porém terríficos portentos.

De grenha santa, em fundo claustro havia,
Com temor conservado, um lauro anoso;
Que ali constava, ao começar os muros,
65 Achara e a Febo o dedicou Latino,
Nomeando Laurentes os colonos.

No tope, ó maravilha! os ares fluidos
Nuem de abelhas a zumbir sulcando,
Sentou-se, e em cacho pés com pés travados,
70 Da ramagem pendeu súbito enxame.
Logo um vate: “Com tropas chefe externo
Chegar, donde as abelhas, divisamos,
E em senhor se erigir do sumo alcáçar”.
E também, junto ao pai Lavínia virgem
75 Com tedas castas incensando as aras,
Fogo, ó pasmo! às madeixas ateado,
O ornato viu-se em crepitante chama;
E ao de rubis diadema e régio crino
Acesa, em fumo e pardo lume envolta,
80 Espalhar pelo templo a labareda.
Terror e espanto foi: de ilustre fama
E no porvir ditosa a decantavam;
Mas que atroz guerra prometia ao povo.

Busca o velho assombrado o padre Fauno,
85 E o consulta nos bosques d’alta Albúnea;
Que, floresta a maior, com sacra fonte
Soa, e tetra mefite exala opaca.
Aqui gentes d’Itália, a Enótria em peso,
O oráculo interrogam. Dons trazendo
90 O sacerdote aqui, se em muda noite
De vítimas em peles estradadas
Se encosta e se adormece, avoejantes
Vê mil fantasmas, vozerias ouve,
Logra aos deuses falar, e no imo Averno
95 A Aqueronte conversa. Aqui, rogando,
Bimas do uso o rei mata ovelhas cento,
Nos couros deita-se e alastrados velos.
De repente uma voz sai da espessura:
“Nos tálamos dispostos não confies,
100 Prole minha, e em nenhum latino genro;
De fora outros virão que o nosso nome
Exaltem com seu sangue, e em netos brotem
A cujos pés se curve e rode quanto
De um ao outro oceano o Sol perlustra.”
105 Do pai Fauno em silêncio o aviso dado,
Consigo ele o não cala; e pela Ausônia
A revoar a Fama o assoalhava,
Quando a frota os mancebos laomendôncios
Da riba ao marachão gramíneo ataram.

110 O herói, seus capitães e o lindo Iulo,
Sob árvore copada se acolheram;
Na relva, ensina-o Jove, às iguarias
Candiais tortas sotopõem, e o fárreo
Solo de agrestes frutas acogulam.
115 Como os fizesse a míngua dos manjares,
Trincada a exígua Ceres, com audazes
Queixos e mãos violar a fatal crusta,
As orlas não poupando e chatas quadras:
“Hui! que as mesas tragámos” diz brincando,
120 Não mais, Iulo. O anúncio as lidas finda;
E o pai, que o recolheu da afável boca,
Do nume se reteve estupefato;
Clama enfim: “Salve, terra a nós fadada;
Salve, troianos e fiéis penates!
125 Já temos pátria e casa. Hoje recordo
As predições de Anquises: — “Quando, ó filho,
Gasto em praia estrangeira o mantimento,
Te obrigue a fome a consumir as mesas,
Descanso espera, o assento aí te lembre
130 De trincheiras munir”. — Esta era a fome,
O extremo que traria aos males pausa.
Ledos, ao romper d’alva, esta paragem,
O povoado e a gente, investiguemos,
Do porto a dentro esparsos discorramos.
135 Toca a brindar a Jove e ao divo Anquises;
O festim renovai, reponde os vinhos.”
Depois, de verde as fontes enramando,
Ora ao gênio do sítio, e à prima deusa
Telus, e a ninfas e ignorados rios;
140 Chama a Noite e os da Noite orientes signos,
A Ideu Jove em seguida e a Madre Frígia,
Do Érebo e Olimpo os seus progenitores.
Três vezes claro toa, e a mão suprema
Vibra auriardente lampejante nuvem.
145 Que é tempo enfim de inaugurar seus muros
No exército o rumor súbito lavra.
Do alto sinal folgando, o bodo instauram,
Rasas de vinho as copas engrinaldam.

Mal que alvorece e a tocha eoa raia,
150 Toda a comarca e litoral exploram:
Do Númico este o lago, o Tibre é este,
Que dos fortes Latinos banha as terras.
O Anquíseo então, nas filas escolhidos,
Embaixadores cem com dons à régia
155 A pedir paz envia, da paládia
Rama velados. Rápido obedecem.
Ele com fosso humilde risca os muros,
E a modo de arraial na praia o assento
Prepara e o cinge de liçada e valo.

160 Já, vencido o caminho, os messageiros
Torres e árduos palácios descobriam.
Chegam-se: às portas a puerícia e a flórea
Juventude a cavalo se exercitam;
Carros domam na arena, ou rijos arcos
165 Nervudo o braço tende e frechas tira;
Desafiam-se ao curso e ao pugilato.
Um pica o bruto, e entrados anuncia
Varões de porte em peregrino trajo:
Colocado o ancião no avito sólio,
170 Os admite e recebe. O teto augusto,
Desde o laurente Pico, em cem colunas
Sobranceiro e sublime, o sombreavam
Selvas com pio horror sempre acatadas.
Ali tomar primeiro o cetro e os fasces
175 Por feliz tinham: cúria, templo, sala
Do sacrifício, ao longo ali das mesas, 
Morto o carneiro, os padres se assentavam.
Por ordem no vestíbulo as efígies,
De antigo cedro, estavam dos maiores:
180 Ítalo, o vinhateiro pai Sabino
Tendo em baixo o podão, Saturno idoso,
Bifronte Jano, e quanto rei primevo
No pátrio marte prodigou seu sangue.
Em sacros postes muitas armas pendem,
185 Chuças, machadas, elmos e cocares,
Ingentes aldrabões, troncados rostros,
Cativos coches, e broquéis e alfanges.
Com lítuo quirinal e em trábea estreita,
Pico, ancília na esquerda, éqüite ardido,
190 Lá pousava; a quem Circe, malograda
No amoroso apetite, com feitiços
D’áurea varinha ao toque tornou ave
E as asas lhe esmaltou. Neste recinto
Foi que Latino, os teucros introdutos,
195 Da sede régia plácido lhes fala:
“Dardânidas (a pátria, a origem vossa
Cá não se ignora, a fama vos precede),
Que demandais? qual trouxe à praia ausônia
Causa ou falta os baixéis por vaus tão cegos?
200 Fosse erro de caminho ou tempestade,
Contratempos do triste navegante,
Entrastes este rio, e já no porto
O hospício não fujais; sabei que a gente
Latina de Saturno, por si reta,
205 Não por temor da lei, tem-se aos ditames
Do velho deus. Lembrado estou que auruncos
Padres contavam-me (antigualha obscura)
Que destes agros Dárdano entranhou-se
No Ida frígio e na que ora é Samotrácia;
210 E, do tirreno Córito(39) emigrando,
Hoje aras tem, numera-se entre os divos,
Com trono de ouro na estelante corte.”

Presto Ilioneu: “De Fauno herdeiro egrégio,
Fluctívagos, ó rei, não foi tormenta,
215 Astro ou rota falaz, que às vossas bordas
Nos lançou; de pensado e acordes vimos,
Expulsos do maior de quantos reinos
Do balcões do levante o Sol mirava.
De Jove oriunda, a geração dardânia
220 Do avô Jove se orgulha; e o tróico Enéias,
Garfo real de Jove, a ti nos manda.
Sobre os campos ideus que atroz borrasca
Desfechou de Micenas, por que impulsos
D’Ásia e Europa os dois orbes se encontraram,
225 Quem quer o ouviu que nos confins da terra
Seja além do oceano, ou se entre as quatro
Na zona extensa o torre iníquo Febo.
Por vastos mares do dilúvio escapos,
Sede exígua imploramos para os deuses,
230 Comum água, ar patente, inócua praia.
Não te seremos pejo, e mais te ilustras;
Perene gratidão fará que Ausônia
De agasalhar a Tróia não se pese.
De Enéias pela destra invicta o juro,
235 Se é que fida ou valente algum provou-a,
Bem povos (não desprezes os que temos
Estas fitas nas mãos, na boca preces),
Bem nações para sócios nos rogaram;
Mas fado urgente ao solo teu nos guia:
240 Dárdano, daqui nado, aqui reverte;
De Apolo é mando expresso a fonte sacra
Buscarmos do Númico e o tusco Tibre.
Da passada fortuna aceita uns restos,
Salvos de Ílio incendida: o padre Anquises
245 Libava por este ouro ante os altares;
Ao legislar aos congregados povos,
Eis de Príamo o cetro, eis a tiara,
Eis, das Frígias trabalho, as vestiduras.”

A vozes tais, Latino o rosto abaixa,
250 Quedo olhos volve atento; nem priâmeo
Cetro ou bordada púrpura o comove,
Quanto o consórcio e tálamo da filha;
E de Fauno medita os vaticínios;
Que este o fadado genro é peregrino,
255 Trazido ao reino por iguais auspícios,
Cuja ilustre progênie valerosa
Pujante ocupe o âmbito do mundo.
“O céu nossos começos, clama alegre,
E agouros seus prospere! O desejado
260 Haverás, Teucro. Os dons não menosprezo;
Nem, reinando Latino, agro ubertoso
Ou troiana opulência há de faltar-vos.
Se Enéias tanto a mim ligar-se anela,
Venha, hóspede me seja; nem do amigo
265 Tema o aspecto: em abono da aliança
Do monarca fiel me sobra a destra.
Tenho uma filha (dai-lhe este recado)
Que unir-se a algum dos nossos mil prodígios,
Do ádito pátrio as sortes, não consentem:
270 Varões de longe, no país estantes,
Exalçarão seu sangue e o nosso nome.
Se a mente bem atina, e é, como creio,
Ele o genro fatal, gostoso o adoto.”

Cessa; e escolhidos em corcéis trezentos,
275 Os mais nédios que tinha às mangedouras,
Um alípede oferta a cada Frígio,
De ostro e matiz lustroso acobertados:
Aos peitos lhes caindo áureas coleiras,
De ouro os arreios têm, fulvo ouro tascam.
280 Um coche a Enéias manda, e exala o tiro,
Do éter semente, pelas ventas fogo;
Casta que ao pai furtou dedália Circe,
De submetida mãe bastardas crias.
Com tais dons, a cavalo os enviados,
285 Portadores de paz, contentes voltam.

Eis que de Argos ináquia parte a seva
De Jove esposa; e avista lá dos ares,
Desde o Pachino sículo, os Troianos
E ovante Enéias, já desembarcados,
290 Na terra a edificar, seguros dela.
De ânsia pára; e, a cabeça meneando,
Queixumes derramou do aflito peito:
“Raça infanda! ao meu fado avesso fado!
Ah! nas campinas do Sigeu puderam
295 Sucumbir? ser tomados, ser cativos?
Porventura abrasada os queimou Tróia?
Franca via entre o ferro e o fogo acharam.
Lasso, eu cuido, afinal meu nume cede;
Saciada afrouxei, depus meus ódios...
300 Como! ousei contrastá-los no desterro,
No undoso ponto os persegui fugidos:
Esgotei mar e céu para vingar-me.
Sirtes, Caribdes, Cila, que prestaram?
Do pélago e de mim zombam no grêmio
305 Do caro Tibre. Os Lapitas gigantes
Marte acabou; rendeu-se a Calidônia
De Febe às iras: para um tal castigo
Lapitas, Calidônia, em que pecaram?
Qui-lo assim meu consorte; e a mim rainha,
310 Que meios não poupei, que empreendi tudo,
Vence-me Enéias! Meu poder se é pouco,
Deprecar a quem for já não duvido:
Vou, se não dobro o céu, mover o inferno.
Separá-lo do Lácio me proíbem;
315 Sua Lavínia seja: a dita ao menos
Protrair, perturbar, não me é defeso;
Os povos soverter dos reinos ambos:
Com tais pareias se alie o genro e o sogro.
Sangue rútulo e teucro o dote sendo,
320 Belona, ó virgem, prônuba te espera.
Não só fogos jugais, de um facho prenhe,
Pariu Cisseide; a Cípria houve outro Páris,
Tição funesto aos recidivos muros.”

Vociferando horrenda baixa às terras.
325 Do Orco e antro furial avoca Alecto,
Que maldades luctífica respira,
Guerras, traições, rancor; monstro que odeiam
As tartáreas irmãs e o rei das sombras:
Com tanto esgar se afeia e a testa enruga,
330 Tanto a enegrecem pululantes cobras!
Juno assim a aguçou: “Da Noite filha,
Para não sofrer quebra de honra ou fama,
Serviço especial me outorga, ó virgem:
Por consórcios os Teucros não consigam
335 A Latino embair, ter pé na Itália.
Irmãos tu podes e íntimos amigos
Armar de sanha, desavir famílias,
Com funéreos brandões e crus flagelos;
Artes mil de empecer, mil nomes sabes:
340 Fecunda a mente excita; a paz desfaze,
A cizânia(40) semeia; estoure a guerra,
Bramindo a mocidade às armas corra.”

De gorgôneo veneno Alecto infecta,
Ao Lácio e a régia voa, entra furtiva
345 No retiro de Amata, cuja ardência
Dos Frígios contra a vinda e a pró de Turno
Feminis mágoas e ódios recoziam.
Da azul grenha uma serpe a deusa arranca,
No corpo lha insinua, por que o paço
350 Todo empeste e alborote furibunda.
Côa a serpe entre a veste e o liso seio
Com mole tato, com macio engano
Lhe infunde alma vipérea: em torsal de ouro
Faz-se ao pescoço; num listão se alonga,
355 Enleia a coma e lhe percorre os membros.
E enquanto alastra a úmida peçonha,
E em ossos e sentidos prende a chama,
Antes que se lhe incenda o ânimo inteiro,
Carpindo a filha e os himeneus troianos,
360 Com maternal carinho ao rei se exprime:
“A vindiços, tu pai, Lavínia entregas?
Dela e ti não tens dó, nem da mãe triste,
Que ao primeiro aquilão, raptada a virgem,
Verei soltar a vela esse pirata?
365 Não penetrou na Esparta o pastor frígio?
A Ílio não transportou de Leda a filha?
Que é do amor para os teus, onde a fé pura
E amiúde ao meu Turno a destra dada?
Se hás mister genro estranho, e o padre Fauno
370 To ordena e está sentado, estranha eu julgo
Qualquer terra ao teu cetro não sujeita:
Do oráculo este o senso. E ao prisco tronco
Se remontamos, de Inaco e de Acrísio
Turno provém, Micenas de permeio.”

375 Baldadas as razões, que resistia
Firme o rei, pelas vísceras calando
Do serpentino vírus o contágio,
Já danada a infeliz, que espectros vexam,
Na vasta capital erra sem tino.
380 Sob a torcida trena, em rodopio,
Atentos os meninos ao brinquedo,
Pelo vazio largo o pião tangem,
Que do açoite(41) impelido em círculo anda;
Néscia embasbaca a chusma, e o bando impube
385 Aviva a golpes o volúvel buxo:
Não com menos presteza ela vagueia,
Corre as cidades e embravece os povos.
Té sanhuda, a fingir de Iaco o influxo,
Com mais nefando arrojo se entranhando,
390 No monte oculta a filha, por que aos Troas
Roube o tálamo e as núpcias procrastine;
Brada e freme: “Evoé! só, Baco, és digno
Da virgem que maneja os moles tirsos,
Gira em coro, a ti sacra a trança cria.“

395 Grassa o rumor: as mães da peste acesas,
Por sede nova ardendo aguilhoadas,
Cabelo e colo ao vento, os lares deixam;
Ou peles a trajar, pampínea a lança,
De trêmulo ululado os ares coalham.
400 Ela entre as mais sustém flagrante pinho,
Raiva, canta o himeneu da filha e Turno;
Torva grita, virando olhos sangüíneos:
“Io latinas mães! quem sois, ouvi-me;
Se Amata vos condói, ou do materno
405 Jus vos remorde o zelo, nestas orgias,
Desenastrada a coma, interessai-vos.”

Tal entre brenhas e ferinos ermos
Alecto em bacanais punge a rainha.
Dês que a raiva lhe afia, e de Latino
410 A família e conselho crê revoltos,
Leva-se a turva déia em fuscas asas
Do audaz Rútulo aos muros; que, trazida
Sobre o Noto precípite, aos Acrísios
Danae se diz fundara: a grã cidade
415 Chamou-se Ardéia, e conserva o claro nome,
Não a fortuna. Ali no alcáçar Turno
Meio sono lograva em noite opaca.
O furial vulto e formas despe Alecto;
Em Calibe, de Juno velha antiste,
420 Se transfigura: a testa e face obscena
De rugas ara, às cãs veste uma touca,
Prega-lhe em cima um ramo de oliveira,
E ao jovem se apresenta: “Sofres, Turno,
Tantas lidas frustradas, que a fugidos
425 Passe o teu cetro? Ganhos com teu sangue
O matrimônio e dote, o rei tos nega,
Herda um Teucro no reino. Ora, ultrajado,
Vai-te arriscar; mal pago, as filas tuscas
Rompe, descose; a paz mantém no Lácio.
430 Isto a grande Satúrnia, enquanto em noite
Plácida jazes, me intimou te expenda.
Arma, arma, sus, a mocidade em campo;
E, à margem pulcra assentes, os caudilhos
Frígios arrasa, e queima as naus pintadas:
435 Poder alto o prescreve. E se o monarca,
Surdo às promessas, a união te enjeita,
Prove e sinta o que valha em armas Turno.”

Da vate a escarnecer: “Nem tu presumas
Que estar no Tibre a frota é novidade.
440 Nem cá meter me venhas tantos medos:
Juno etérea de nós se não descuida.
Mas crédula, cediça(42) e carunchosa,
Ralas-te, avó, com pânicos terrores,
Tonta ingerindo-te em reais arcanos.
445 Vigia os templos, das imagens cura:
Toca aos varões tratar e a paz e a guerra.”

Arde com isto Alecto; e, orando o moço,
Treme todo, hirta a vista: com tais serpes
Erínis silva, tais carrancas abre!
450 Tardonho ia falar; com flâmeos olhos
De través ela o empurra, duas cobras
Da grenha irriça, o látego estalando,
E com rábida boca assim troveja:
“Eis-me caduca, tonta e carunchosa,
455 Metediça entre os reis com vãos terrores.
Olha, da estância das irmãs tremendas
Trago em mão guerra e morte.” Inda vozeia,
E a Turno um facho atira de atro lume,
Que fumegante no íntimo cravou-se.

460 Espantado ele acorda, em suor tendo,
Que dos poros rebenta, ossos e membros;
Louco por armas grita, armas no leito
Busca e em torno. Braveja o amor do ferro,
A ímpia insânia da guerra, e cresce a raiva:
465 Qual da undante caldeira quando ao bojo
Lígnea flama se aplica estrepitosa,
A água enfurece e ferve, em bolhas salta;
Fúmea espumando a enchente, sem conter-se
Tansborda, e vai-se em túrbidos vapores.
470 Manda ao rei informar que a paz quebrou-se,
De petrechos prover, guardar a Itália,
Expelir das fronteiras o inimigo;
Contra o Latino e o Teucro ele só basta.
Mal que as ordens promulga e invoca os deuses,
475 À competência os Rútulos se exortam:
Uns move do mancebo a galhardia:
Uns seu preclaro sangue, ou forte braço.

Alecto, enquanto os seus Turno acorçoa,
Com novo ardil, às asas dando estígias,
480 Cata o sítio e ribeira onde caçava,
De assalto ou de emboscada, o belo Ascânio.
Presto a cocícia virgem, com sabido
Cheiro iscando os focinhos, de um veado
À pista açula os cães: este o motivo
485 Que os campônios atiça e a guerra ateia.
Cervo galhudo havia, airoso e lindo,
Que de mama furtado à mãe nutriam
Os filhos de Tirreu, dessas devesas
Couteiro e maioral do armento régio.
490 De galantes festões ao dócil bruto
Meiga a irmã Sílvia entretecia os cornos,
Penteado e lavado em fonte pura.
Da dona à mesa afeito e manso, errava
Pela selva, e de noite, às vezes tarde,
495 Se recolhia à casa. Andando a monte,
Brabas de Iulo as perras o acossaram,
Quando, seguindo a veia de um regato,
Se refrescava na virente riba.
Na ânsia de exímios gabos, do arco as pontas
500 Junta e dispara o caçador a frecha:
Não faltou nume à destra; a rechinante
Cana ao cervo traspassa ilhais e ventre.
A gemer o quadrúpede, sangrado
Procura o noto asilo, e de lamentos,
505 Quase implorando, enchia alvergue e pátio.
Sílvia acode, e ferindo-se a punhadas,
Aos duros aldeãos clama socorro.
Eles (picava-os a embrenhada peste)
Saem de improviso; de nodosa estaca,
510 De fustes e tições, do que à mão tinham,
A ira os arma. Tirreu, que um roble em quatro
Rachava à cunha, respirando ameaças,
Ferra o machado, a multidão concita.

Nociva a tempo, da atalaia a Dira
515 Monta à choça, e do cume a voz tartárea(43)
Na encurvada corneta esforça e tange
Rebate pastoral: todo em redondo
Retremendo o arvoredo, a funda mata
Reboou. Longe o ouviu da Trívia o lago;
520 Branco de água sulfúrea o Nar e as fontes
O ouviram do Velino; e as mães de susto
Aos peitos os filhinhos apertaram.

Ao rouquejar da tétrica buzina,
Denso tropel bravio, armas sacando,
525 Concorre, e marcha a mocidade frígia
Do aberto acampamento em pró de Ascânio.
Não já com paus tostados nem cacheiras
Em lide agreste brigam, mas em forma,
Com ancípite ferro e espadas nuas,
530 Negra áspera seara; e o bronze às nuvens,
Do Sol desafiado, a luz dardeja:
Tal, se alvejando a onda a encrespa o vento,
Incha o mar pouco a pouco e alteia vagas,
Té que o úmido abismo aos astros sobe.

535 Cai logo na vanguarda o primogênito
Almom Tirrides: pega-se às goelas
Seta estridente, e em borbotões o sangue
Lhe inunda e embarga a voz e a tênue vida.
Entre um montão de mortos jaz Galeso,
540 Das pazes medianeiro; ausônio velho,
O mais justo e riquíssimo, greis cinco
Balantes amalhando e cinco armentos,
Em lavrar cem arados empregava.

Alecto, pois que o marte igual pendia
545 Do êxito ufana, assim que a feroz pugna
Tinge e cruenta, funerais primícias,
Deserta a Hespéria, e sublimada às auras
Canta a Juno vitória em tom soberbo:
“Temos no auge a discórdia; agora dize
550 Que se congracem, que alianças travem,
Quando os Teucros macula ausônio sangue.
Mais farei, se mo aprovas: com rumores
Posso as comarcas abrasar no insano
Furor da guerra, que ajudá-la venham;
555 Armas espalharei pela campanha.”
Juno atalha: “O terror e a fraude abunda:
Plantada a rixa, mão por mão combatem;
Já funestou fortuna o primo encontro.
Os himeneus dest’arte o guapo filho
560 D’Acidália festeje e o bom Latino.
Que a soltas(44) vagues pelo sumo Olimpo
Não te permite o padre soberano:
Despacha-te, que o mais fica a meu cargo.”

A tais palavras, do sidéreo assento,
565 Angui-estalantes asas desferindo,
Para o Cocito a Erínis se encaminha.
Lugar nobre e famoso, o vale Ansancto,
Há da Itália no centro, ao pé de uns montes:
Floresta escura o fecha, e entre penedos
570 Em vórtices fragosa uma torrente
Pelo meio murmura. Aqui, do torvo
Plutão respiradouro, antro medonho
Profunda, e as fauces pestilentes mostra
Do fendido Aqueronte ampla voragem,
575 Onde sumiu-se a Fúria, o céu e a terra
Do seu bafejo odioso aliviando.

Nem menos a Satúrnia a luta azeda.
Rui do conflito a multidão campestre,
Morto Almom e deforme de Galeso
580 Carregando a cabeça, e implora os deuses
E a Latino conjura. No flagrante
Chega Turno, e do incêndio e mortandade
Exagera o temor; que iam bani-lo,
E misturar no trono a raça frígia.
585 Aqueles cujas mães, de Baco atônitas,
Por ínvias selvas em coréias pulam,
De Amata ao grave nome exacerbados,
Marte infando a incitar, a l’arma gritam,
Contra o fatal augúrio e contra os numes,
590 E os altos paços à porfia cercam.
Tem-se o rei qual marítimo rochedo;
Rochedo que na mole se sustenta,
Se em ruidosa procela as ondas ladram:
Batida alga flutua e bolha a espuma,
595 E em vão pedras em roda e escolhos bramam.
Vencer pois tal cegueira não podendo,
Que ia tudo a sabor da fera Juno,
O éter puro atestando: “Ah! fado, exclama,
A tormenta nos força irresistível.
600 Com sacrílego sangue, ó miserandos,
Vosso erro pagareis: maldição, Turno,
Triste pena te espera; e aos deuses tarde
Suplicarás. À entrada já do porto,
Repouso achei; de funerais ditosos
605 Só me despojarão.” Nisto, encerrou-se,
E do governo as rédeas abandona.

Costume era do Lácio, e que adotado
Na Albânia o guarda a portentosa Roma,
Lagrimáveis batalhas quando apresta
610 Ao Geta, Árabe, Hircano, ao Indo eôo,
E reconquista aos Partos as bandeiras,
Duas portas haver, bélicas ditas,
Que santo horror defende e o cru Mavorte:
Barras, ferrolhos cem de bronze as trancam;
615 Sempre ao limiar de sentinela Jano.
Se o decreta o senado, insigne o cônsul
Com trábea quirinal, gabino cinto,
Os umbrais descerrando rangedores,
Proclama a guerra; guerra os moços bradam,
620 Roucas éreas trombetas ressonando.

Cabia-lhe aos Troianos declará-la,
Volver os tristes gonzos; mas Latino
Se abstém, recusa o infausto ministério,
E se oculta na treva. Então, baixando,
625 A rainha Satúrnia arromba mesma
As lentas portas, a couceira quebra
E os ferrados batentes desmantela.

Arde a quieta Ausônia, e armas já pede:
Qual a pé campear, qual furioso
630 Quer trotar em corcel pulverulento;
Qual dardos unta e limpa, adargas lustra,
Machadinhas amola e partasanas:
Praz desfraldar pendões e ouvir as tubas.
Malham cidades cinco e forjam lanças,
635 Atina e Ardéia possantes, Crustumério,
Tibur altiva, Antemnas torreada;
Cavos elmos estofam, tecem tarjas
De vergas de salgueiro, finas grevas
De argênteos fios, êneos corsoletes:
640 Retemperam na frágua o pátrio alfanje:
Assim trocou-se o amor da foice e relha!
Transmite o dado a senha, os clarins fremem:
Quem o casco arrebata, ou rinchadores
Brutos junge, ou rodela e auritrílice
645 Loriga veste, ou cinge a fida espada.

O Helicon, musas, franqueai-me: ousados
Reis vou cantar, as tropas que os seguiram
Cobrindo os campos; que armas flamejaram,
Que heróis já n’alta Itália floresceram.
650 Como lembradas sois, contai-mo, ó divas:
Mal nos roçou leve aura do passado.

O ateu cruel Mezêncio é quem primeiro
À testa marcha das falanges tuscas.
Lauso o acompanha, que excedia a todos,
655 Salvo o garboso Turno, em gentileza;
Lauso, grã picador, monteiro exímio
Conduz em vão de Agila mil guerreiros;
Digno de se gozar do pátrio reino,
E de outro genitor que não Mezêncio.

660 Após, carro e frisões da palma ornados,
De Hércules belo ostenta o belo filho
Aventino, e em cem cobras traz no escudo
A hidra a pulular, brasão paterno:
Réia ministra a furto na Aventina
665 Mata o pariu; mulher que ao deus juntou-se,
Depois que, extinto Gerião, tocando
Laurentes lavras o Tiríntio ovante,
Lavou no tusco rio iberas vacas.
Arma os seus de doloso estoque e pilo,
670 De roliço espontão, sabelo pique;
Embraça, a pé, leonino ingente espólio,
De alvos dentes enrola a hirsuta juba
Ao morrião: tal entra horrendo os paços,
Pelos ombros traçado o hercúleo manto.

675 Catilo e o bravo Coras, dos tibúrcios
Muros, ditos assim do irmão Tiburto,
Gêmeos de sangue argeu, por densos dardos
Vêm correndo postar-se na vanguarda:
Qual nubígenas rápidos Centauros
680 Se do pico a descer o Homelo deixam
E Ótris nivoso; ao trânsito se arreda,
Com fragor do arvoredo, a basta selva.

Ceculo o autor não falha de Preneste,
Que em pegulhal montês e ao lar achado,
685 Rei prole de Vulcano hão crido as eras.
Rústica turba o escolta: os que as alturas
Cultivam prenestinas e a junônia
Gábios, o frígido Ânio, hérnicas penhas
De arroios orvalhadas; os que pasces,
690 Tu Amaseno pai, tu rica Anâgnia.
Carro, cota ou broquel, não soa a todos:
Uns lívidas espalham plúmbeas pelas,
Quais dois chuços empunham; fulvos gorros
De pele usam lupina; nus da esquerda,
695 Calçam de crua alparca a destra planta.

O neptúnio Messapo cavaleiro,
A quem prostrar não pode ou ferro ou fogo,
Chama a conflito os povos ociosos,
Instaura as armas. Fesceninas turmas
700 E Equos Faliscos, os que o monte e lago
Cimínio e as rochas do Soracte habitam,
Flavínios agros e capenos lucos,
Marchando em pelotões, seu rei cantavam:
Como, ao soltarem coli-longos cisnes,
705 Do pasto à volta, aos ares seus gorjeios,
O Caístro e a pulsada Ásia palude
Ressoa ao longe. Multidão confusa,
Ninguém julgara exército arnesado,
Mas, do alto pego às praias compelida,
710 Aérea nuvem ser de roucas aves.

Sangue antigo sabino, eis Clauso, donde
A tribo cláudia propagou no Lácio,
Dês que em parte aos Sabinos se deu Roma;
Valendo um batalhão, comanda imensos:
715 Quirites priscos, de Amiterno as hostes,
As de Ereto e olivífera Motusca;
Dos rosais do Velino e os de Nomento,
Dos penhascosos Tétrica e Severo,
De Fórulo e Caspéria; os que do Himela,
720 Tibre e Fabaris, bebem; quantos manda
Horta, o latino termo e Núrsia fria;
E os que o Alia entrelava, infausto nome!
Tantas no vítreo Líbio as vagas rolam,
Se Orion cruel se afunde em onda hiberna;(45)
725 Tantas o estivo Sol praganas torra,
Do Hermo ou de Lícia em lourejantes campos.
Do tropel treme a terra, escudos tinem.

O agamenônio Haleso, a Tróia infesto,
Ata ao carro os frisões, mil feros povos
730 Leva a Turno: os que o Mássico, mimoso
De Baco, à enxada cavam; Sedicinos
De beira-mar; serranos que expediram
Auruncos padres; íncolas de Cales,
Do vadoso Volturno os arraianos,
735 O Satículo acerbo, as oscas turmas.
Presa a lento flagelo, aclide jogam
Cilíndrica; na sestra, os cobres adarga;
Com terçado falcato ao perto ferem.

Nem te olvide o meu verso, Ebalo, que houve
740 Telon se afirma de Sebetis ninfa,
Já velho em Caprea os Télebas regendo.
Da herança não contente, o filho tinha
Muito à larga os Sarrates submetido,
E as sárnias frescas várzeas, os de Rufras,
745 De Batulo e Celena, e os que eminente
Olha Abela pomífera: catéias,
À teutônica, vibram; capacetes
De cortiça de sôvero os defendem;
Luz bronzeado broquel, luz brônzea espada.

750 Também te apronta a montuosa Nersas,
Famígero e pugnaz, próspero Ufente;
E, à caça endurecido, hórrido Equícola
De áspera gleba te obedece: armado
O chão labora, de rapina vive,
755 E sempre folga das recentes preias.

Té de Arquipo seu rei por ordem, o elmo
Lhe ornando fausta oliva, o dos Marrúbios
Sacerdote marchou, fortíssimo Umbro;
Que hidras, víboras de hálito empestado,
760 Afagando e a cantar adormecia,
Curava a mordidura, e as amansava:
Mas contra a choupa do rojão troiano
Suporíferos cantos nem potentes
Sucos dos marsos montes lhe valeram.
765 A ti de Angícia bosque, a ti choraram
Do Fucino o cristal e o fluido lago.

De Hipólito eis a prole, o estrênuo Vírbio
Que Arícia a mãe luzido o envia à pugna,
Do luco e, fonte Egéria, onde o criaram
770 E a placável Diana ara tem pingue.
Por dolos da madrasta, assim que Hipólito,
Dos medrosos frisões rojado, expia
Com sangue o erro paterno, é voz que às auras
E ao conspecto celeste o revocaram
775 Peônias ervas e amorosa Délia.
De que um mortal das sombras ressurgisse
Indignado o Tonante, o raio acende,
No Orco e Estige o Febígena despenha
Que descobriu tal arte e medicina.
780 A alma Trívia em secreto à ninfa Egéria
Hipólito encomenda, por que obscuro
E solitário em ítala floresta,
Mudada em Vírbio o nome, os dias passe.
Do bosque ou templo a Febe consagrado
785 Os cavalos cornípedes se expulsam,
Dês que, espantados por marinhos monstros,
Na praia o dono e o coche espedaçaram.
Árdegos brutos, não obstante, o filho
Exerce e à guerra precipita o carro.

790 De ponto em branco, à frente, na estatura
Formoso Turno sobreleva a todos.
O elmo sustém, cristado com três jubas,
A Quimera a expirar etnéias chamas:
Ignívoma, eferada, ela mais brame
795 Quanto em mais sangue o ataque se encruece.
Io em ouro entalhada (ilustre assunto)
Já peluda novilha, alçando os cornos,
O éreo pavês lhe timbra assacalado;
Argos vigia a moça, e entorna o rio
800 Da urna Inaco pai. Chuveiro espesso,
Ondeia a infantaria, e abroqueladas
Auruncas tropas, Rútulos, Sacranos,
Acaica estirpe, Sículos antigos,
Mais os Lábicos de pintado escudo:
805 Que, ó Tibre, aram-te os bosques e a numícia
Riba sacra; o Circeu cabeço rasgam
E as rútulas colinas; veigas onde
Jove Anxuro preside, com Ferônia
Amiga dos jardins; por onde a negra
810 Satura espraia, e vai gelado aos mares
Por imos vales desaguar o Ufente.

Eis Camila belaz, que o volsco impera
Bando eqüestre e o de pé de arnês lustroso.
Dura a virgem no prélio, em roca ou vimes
815 De Minerva não punha as mãos femíneas.
Pelo agro intacto, mais veloz que o vento,
A voar não lesara a tenra espiga;
Suspensa o pego túmido correra,
Sem que molhasse a desenvolta planta.
820 Dos tetos, ao passar, do campo os jovens
E esparsas mães, de hiante boca admiram
Como a grã vela e enfeita os ombros lisos,
Como as tranças lhe prende áurea fivela,
Como o lício carcás pendura, e brande
825 De enxerido ferrão mírteo cajado.

publicado por centrallgames às 00:50
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Abril 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
27
28
29
30


.posts recentes

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. eneida de virgílio:obra c...

. ...

. eneida de virgílio:obra c...

.arquivos

. Abril 2011

blogs SAPO

.subscrever feeds

Em destaque no SAPO Blogs
pub