Terça-feira, 26 de Abril de 2011

eneida de virgílio:obra completa(5)

 

LIVRO V

 

Firme o herói já dirige ao meio a frota,
Com o Aquilão talhando as negras vagas;
Olha atrás, e da pobre Elisa os muros
Em chamas vê luzindo. A causa os Teucros
5 De tanto incêndio estranham; mas conhecem
O amor poluto como dói, o que ousa
Femínea raiva, e triste agouro tiram.

Some-se a terra aos empegados lenhos,
Tudo é céu, tudo é mar; torvo negrume
10 Sobre as cabeças borrascoso pesa,
E horrenda espessa treva enoita as ondas.
Té lá da popa o cauto Palinuro:
“Hui! que feia tormenta enluta o pólo!
Tu que ameaças, Netuno?” Disse, e a tolda
15 Manda desempachar, pôr peito aos remos;
Mete à orça, e voltou-se: “Ínclito Enéias,
Nem que mo afirme Jove, eu não prometo
C’um tempo destes abordar a Itália.
De través salta o vento, engrossa e ruge
20 Do atro Vésper, e o ar se enubla e densa.
Nem agüentar-nos nem surdir podemos:
Quer e acena a fortuna, ora de rumo
Toca a mudar. Não longe as d’Erix julgo
Fraternas praias, a fiel Sicânia, 
25 Se os remedidos astros não me iludem.”
A quem Enéias: “Claro observo há muito
Que o pede o vento, e por demais resistes:
Ronda e curva o caminho. Onde mais doce
As lassas naus refocilar me fora
30 Que no grato país do tróico Acestes,
Dos ossos de meu pai jazigo amado?”
Zéfiro, então servindo, o pano atesa:
Por vagalhões a frota ao porto voa,
E alegre enfim atraca à nota areia.

35 De excelso cume enxerga os sócios vasos,
Admira a vinda, e em pele de ursa líbia
E em dardos ouriçado, acorre Acestes.
Que em mãe teucra o gerou Crimiso rio
Não lhe esquece: os parentes que ali tornam
40 Gratulando consola, e com refrescos,
Lhana agreste abundância, acolhe e trata.

O albor os astros mal do eôo expulsa,
De toda a praia os seus convoca Enéias,
E de elevado combro assim lhes fala:
45 “Dos deuses prole, ó Dárdanos sublimes,
A anual volta os meses completaram,
Dês que as relíquias de meu pai divino,
Fúnebre altar sagrando, sepultámos.
Se não erro, eis o dia (ó céu, quiseste-o)
50 Sempre agro para mim, sempre solene.
Fosse eu nas sirtes Gétulas banido,
No seio Argólico e em Micenas preso,
Celebrara com pompa o aniversário,
De aceitos votos cumulando as aras.
55 Não, dos deuses não foi sem providência
Esta nossa arribada a porto amigo:
Junto às cinzas de Anquises nos achamos.
Eia, a memória sua honremos todos:
Peçamos-lhe bom vento, e em novos muros
60 Templos dicar me outorgue, onde cad’ano
Estes meus sacrifícios lhe ofereça.
Duas reses por nau vos dá benigno
O hóspede e sangue nosso: os pátrios divos
Convidai para a festa, e os que ele adora.
65 E, se arraiando o mundo a nova aurora,
Limpo o dia trouxer, proporei jogos,
Pela esquadra ligeira começando:
Ouem ágil tenha o pé, quem destro e forte,
Ou tire o dardo e a seta, ou mais se atreva
70 A cru cesto(24) brigar, nenhum se exima;
Devido prêmio cada qual espere.
Orai, silêncio! as frontes enramai-vos.”

Cessa, e velou-se do materno mirto;
Helimo, o ancião Trinácrio, o moço Ascânio
75 Fê-lo, e a mais juventude. Infindo povo,
Mesto cortejo da assembléia o seguem
Para o sepulcro. Ali de mero baco,
Libando em regra, jarras duas vasa,
Duas de leite fresco, cheias duas
80 De cruor sacro, e esparge rubras flores:
“Salve, disse, alma santa, ó sombra salve,
Cinzas do caro pai, que em vão recobro!
Contigo não me coube entrar na Itália,
Gozar desse fatal ausônio Tibre.”

85 Súbito, em roscas sete e sete giros,
Sai do imo penetral vultosa cobra;
Mansa o túmulo abraça, pelas aras
Lúbrica resvalando: azul o dorso,
A maculada escama em áureas pintas
90 Fulgura acesa; o arco assim nas nuvens
Toma do oposto Sol mil várias cores.
Dela Enéias pasmou. Desenrolando-se
Entre os copos(25) serpeia e lisas taças,
E, iguarias e altares delibados,
95 Busca o túmulo e inócua se recolhe.

Incerto se é de Anquises a ministra,
Se o gênio do lugar, mais fervoroso
Ao pai renova as honras: cinco ovelhas
Bimas conforme ao rito, cinco porcos,
100 Tergi-nigrantes corta almalhos cinco;
Vinhos das copas verte, e a alma evoca
E do Aqueronte os remetidos manes
Do grande genitor. Segundo as posses,
Ninguém se escusa: as aras espontâneos
105 De dons oneram, vítimas derribam;
As caldeiras em fila outros colocam,
Ou, na relva espalhados, em brasidos
Viram espetos e as entranhas assam.

Alvo o dia anelado já conduzem
110 De Faetonte os cavalos; e os vizinhos
O ruído alvoroça, e o claro nome
De Acestes: quais por ver o herói e os sócios,
Quais prontos ao certame, a praia inundam.
Láureas no médio circo se alardeiam,
115 Trípodes sacras, preciosas palmas
Aos vencedores; vestes purpurinas,
Talentos de ouro e prata, e ricas armas:
D’alto apregoa a tuba e os ludos canta.

O páreo encetam com pausado remo
120 Quatro cascos irmãos, da frota eleitos.
Mnesteu, que de Ítalo o apelido teve,
Mnesteu, de Mêmio tronco, a veloz Pristis
Com acre chusma; e a grã Quimera Gias
Manda, móbil cidade e mole imensa,
125 Que os Teucros jovens de concerto impelem,
Com três aclamações às três pancadas
Da voga desferida: autor Sergesto
Dos nobres Sérgios, na Centauro ingente;
E na azul Cila embarca-se Cloanto,
130 Que é, Romano Cluêncio, a origem tua.

Contra a espumosa praia, além demora
Penedo, que submerso, enquanto o hiberno
Cauro os astros esconde, o açoitam vagas
Túmidas: calmo o tempo, adormecido
135 Cala, e da imóvel onda um campo surge,
De apriscos(26) mergulhões jucundo pouso.
Lá de frondente azinho o padre aos nautas
Pôs verde meta, que o regresso marque,
Depois de em longo cerco o tornearem.
140 Regra os postos a sorte; e à popa alçados,
Ostro e ouro trajando, os cabos fulgem.
De choupo engrinaldada, a mais companha
Nus reluzindo em óleo ostenta os ombros:
Abancam-se, estirando ao remo os braços
145 E ouvidos ao sinal; da ânsia de glória,
Do afogo e susto, os corações latejam.
Ao clangor da trombeta, ei-los despedem;
Os ares fere a náutica alarida;
Revolto o mar ao retrair dos buchos,
150 De iguais sulcos trilhado, alveja e ferve,
Dos remos todo e dos tridentes rostros
Convulso e hiante. Em bíjugo certame,
Carros do cárcere precipitados
Na liça menos desenvolto rodam;
155 Nem tanto aurigas, aos fogosos tiros
Undantes loros sacudindo, pendem
Pronos a verberar. Do estrondo e aplauso,
Do parcial favor consona o bosque:
O eco, nas praias côncavas rolando,
160 Repulsado retumba nos outeiros.

Entre os vivas da turba, avante Gias,
Primeiro escoa-se: ao depois Cloanto,
Melhor de remo, se o pinho o retarda
Ronceiro. À cola, a Pristis e a Centauro
165 Competem no marchar: vence ora a Pristis,
Ora a Centauro; ou pares, frente a frente,
Aram com buco extenso os vaus salgados.
Aproximam-se à meta, e ao pé do escolho,
Já no perau, o dianteiro Gias
170 Grita ao piloto: “À destra assim me empuxas?
Anda a bombordo; a pá que rasque as penhas;
Abeira a praia: quem quiser se amare.”
Ordens vãs; teme o velho oculto banco,
Desvia ao largo a proa. “Onde, Menetes,
175 Onde ao revés te vais? À esquerda, às pedras!”
Gias brama e rebrama; e olha a Cloanto,
Que interno, à sestra, forcejando o aperta;
Que entre as sonantes lages e a Quimera
Desliza, e a meta súbito pospondo,
180 O pretere, e em mais fundo vai nadando.
Nos ossos arde ao moço a dor violenta,
Não sem água nas faces; e esquecido
De si, do comum risco, o frouxo mestre
D’alta popa despenha, e salta ao leme:
185 Piloto, os nautas exortando, o clavo
Às praias torce. A custo acima veio
Menetes já pesado; e, gotejando
O mádido vestido, à roca trepa,
E em seco ali se assenta. A rapazia
190 Riu do seu tombo, do mergulho e nado,
Riu das salsas golfadas que alijava.

Atrás, Mnesteu, Sergesto aqui se inflamam,
A Gias contam superar moroso.
Junto ao cachopo, não com todo o casco,
195 Sergesto avança; em parte só, que em parte
O cerra com seu beque emula a Pristis.
Mnesteu de banco em banco a gente incita:
“Forçai-me a voga, Hectóreos verdadeiros,
Que de Tróia escolhi no extremo arranco:
200 Mostrai-me agora o brio, o alento agora,
Qual nas Líbicas sirtes, qual no Jônio,
Qual do Málea em correntes impulsoras.
Mnesteu já pela palma não contende:
Oh! se eu... primem, Netuno, os teus mimosos.
205 Ser derradeiro, amigos, é vergonha:
Poupai-nos o labéu.” Quem mais, se afanam
Deitados sobre o remo; aos vastos golpes
Retreme a brônzea popa, o chão subtrai-se;
Crebro o anélito abala os membros todos,
210 E as bocas seca; em bica o suor mana.
O acaso trouxe o lanço a que aspiravam:
Acostado Sergesto, avante a proa
Cose à rocha, e abocando um passo estreito,
Ai! que em recife pretendido pega.
215 Ao choque ronca a pedra, e numa ostreira
Pontuda os remos se estribando estralam;
Contusa a proa suspendeu-se. Em gritos
Consurge, pára a chusma, e os croques safa
E agudas varas; os partidos remos
220 Do pego apanha. Então, com mais veemência,
Ledo Mnesteu os ventos convocando,
Certa e basta a remada, ao som das ondas,
Fácil no aberto pélago decorre.
Qual a pomba, que aninha em oca lapa
225 Seus doces ovos, salteada ao campo
Foge, e ao sair com a asa dá medrosa
Rijo encontrão no teto; e escorregando
Pela fluida via, o ar sereno
Rasa, nem move as expeditas penas:
230 Tal Mnesteu, com tal ímpeto, enfiada
Pelas últimas águas, voa a Pristis.
Já deixa às lutas no rochedo e alfaques
A Sergesto, que auxílio em vão clamando,
A andar aprende com lascados remos.
235 Presto a Gias se bota, e a nau possante
Cede, que está sem mestre. Só lhe falta
Quase no fim Cloanto, em cujo alcance
Urge com sumo afinco. Esperta a grita,
Aura geral o instiga a lhe dar caça,
240 E ribomba o fragor no espaço etéreo.
Uns raivam de perder o ganho e as honras,
Trocam pela vitória a própria vida;
Alenta os outros o sucesso: podem,
Porque julgam poder. E compartiram
245 Parelhos esporões talvez o prêmio,
Se em rogos solto, ao ponto as mãos tendidas,
A si Cloanto os numes não chamasse:
“Ó deuses, cujo império equóreo trilho,
Voto alegre imolar-vos nestas praias
250 Branco touro, e entornando castos vinhos
As entranhas verter no salso argento.”
Disse: e o coro de Forco e das Nereidas
De baixo o atende, e Panopéia virgem;
Té do ancião Portuno o braço grande
255 O empurra: mais que Noto ou leve xara,
A nau se lança à terra, e o porto ganha.

Ao povo o Anquíseo, com pregões do estilo,
Então proclama vencedor Cloanto,
Venda-lhe a fronte com virente louro;
260 De prata um mor talento às naus, de mimo.
Três novilhos à escolha e vinhos manda;
Com dons especiais distingue os chefes.
Ao vencedor, orlando-a recamada
Púrpura melibéia em dois meandros,
265 Áurea clâmide anexa: inda na tela
Régio menino, sôfrego, açodado,
No Ida selvoso os despedidos cervos
Corre e a dardo os fatiga; e lá nas garras
Altaneira às estrelas o arrebata
270 A armígera de Jove; embalde as palmas
Velhos aios levantam, contra as auras
Dos galgos o ladrar se assanha embalde.
Ao segundo em valor, de fina malha,
Que o decore e defenda, auritrílice
275 Loriga dá, que a Demoleu vencido
Ante o rápido Simois, de Ílio às abas,
O herói tirou: multíplice a textura,
Mal carregavam-na ajoujados pajens
Sagaris e Fegeu; com ela o dono
280 Punha em vil fuga os Troas. O terceiro
Dois caldeirões de cobre e umas navetas
De prata obteve com gentis relevos.

Já se ia cada qual soberbo e rico,
De puníceos listões bandada a fronte,
285 Quando apenas Sergesto, à força de arte
Do sevo escolho despegado, a barca,
De remos falha, um bordo raso e débil,
Traz inglório entre vaias. Qual serpente,
Se no lombo da estrada a colhe oblíqua
290 Ênea roda, ou com seixo grave a esmaga,
Deixando-a semi-morta, o viandante;
Fugindo em vão se torce em largos orbes;
Parte feroz sibila, incende os olhos,
Altiva empina o colo; manca em parte
295 Pelo golpe, retém-se, e enovelada
Em seus membros se implica e se revolve:
Tal vogando a nau tarda se movia;
Mas, cheio o pano, à vela a foz remonta.
Salvos navio e gente, alegre Enéias
300 A Sergesto não falta: a Cressa Fóloe,
Perita escrava em obras de Minerva,
Doa-lhe, e os gêmeos filhos que amamenta.

Findo o jogo, a relvado ameno vale,
Que outeiros fecham curvos e frondosos,
305 Passa Enéias: milhares o acompanham
Ao circo teatral que entremeava,
E, a turba acomodada, o herói se assenta.
Com dons que expõe de preço, excita a quantos
Certar queiram na rápida carreira.
310 Mistos concorrem Teucros e Sicanos:
Primeiros Niso e Euríalo, este em verde
Juventude e beleza, aquele insigne
Do moço em pio amor; depois, Diores,
Priâmeo garfo egrégio; e logo Sálio
315 Com Patron, um Tegeu de arcádio sangue,
De Acarnânia o segundo; e os de Trinácria
Jovens monteiros, Hélimo e Panopes,
Que assíduos ao bom velho a selva batem;
E muitos que sepulta escura fama.
320 Deles o herói cercado: “Ouvi-me atentos,
Folgai, mancebos; que nenhum sem prêmio
De mim se irá: de assacalado ferro
A cada um darei dois gnósios piques,
E de entalhos de prata uma bipene.
325 Terão de flava oliva ornada a fronte
Os vencedores três: guardo ao primeiro
Magnífico ginete ajaezado;
Ao outro, cheia de treícias frechas
Uma aljava amazônia, à qual circula
330 Boldrié largo de ouro, e ata fivela
De arredondada gema; o derradeiro
Com este argólico elmo vá contente.”

Todos postados, ao sinal que escutam,
Solto chuveiro, à despedida rompem,
335 Do ponto pelo corro se desparzem,
Olhos fitos na meta. Os contendores
Transpõe Niso, e ligeiro deslumbrando
Excede os ventos e do raio as asas.
Segue-o, mas com larguíssimo intervalo,
340 Sálio. Não longe, Euríalo é terceiro.
Hélimo é quarto. Próximo Diores
Arranca, e ao ombro a vezes(27) se lhe encosta,
Roça-o de ilharga, artelho com artelho:
E houvesse espaço, avante escapulira,
345 Ou balançara ao menos a vitória.
Quando ao termo afrontados se apropínquam,
Niso escorrega dos novilhos mortos
No cruor que a verdura e o chão molhara.
Já de vencida e ovante, o infeliz moço,
350 Titubando-lhe os pés, de bruços tomba
Sobre o sagrado sangue e esterco imundo.
Mas não lhe esquece Euríalo querido:
A resvalar se erguendo, a Sálio opõe-se,
Que tropeça e revolto jaz na areia.
355 Salta Euríalo; e, graças à amizade,
Voa o primeiro com ruidoso aplauso.
Vence Hélimo em segundo, e alfim Diores.

A amplidão da platéia atroa Sálio,
Perante os padres reclamando a glória
360 Que se lhe rouba. A Euríalo defende
Geral favor, e as lágrimas decoras,
E a virtude mais bela em gentil corpo.
Gritando o apoia com fervor Diores,
Que, último vindo, a palma não consegue,
365 Se conferem a Sálio as mores honras.
Decide Enéias: “Sossegai, mancebos,
Que do triunfo a ordem não se altera:
Compadecer me caiba o insonte amigo.”
E a Sálio dá velosa e de áureas unhas,
370 A de um leão numídio ingente pele.
Niso aqui: “Dos vencidos que resvalam
Se hás dó tamanho, a Niso o que reservas,
Que, a não ter ao de Sálio igual desastre,
Merecera a coroa e a primazia?”
375 E ao falar mostra a cara e os membros torpes
De atra sangueira. O padre riu benigno,
E um, que do umbral sagrado de Netuno
Os Danaos despregaram, trazer manda
Broquel didimaônio, obra excelente
380 Com que brinda e compensa o moço egrégio.

Quando os cursos termina e os dons reparte:
“Agora quem valor no peito encerra
Sus, os braços levante, as mãos ligadas.”
Então propõe dois prêmios da peleja:
385 De ouro coberto e fitas, um novilho
Ao vencedor; fino elmo e fina espada,
Ao vencido conforto. Sem demora
Dares, entre murmúrios e alvoroto,
Sai a terreiro, válido e robusto:
390 É quem soía combater com Páris:
E a Butes giganteu, que vir de Amico,
Rei de Bebrícia, invicto blasonava,
Junto à campa do excelso Heitor ferindo,
Moribundo o estendeu na fulva areia.
395 Tal o campeão se ostende: espadaúdo,
Alta a cabeça, alterno os braços tesos
Esgrime, e açoita os ares com punhadas.
Buscam-lhe um contendor: nenhum de tantos
Ousa contra o varão travar dos cestos.
400 Triunfo pois cantando, aos pés de Enéias
Ficou; sem mais detença, ao touro os cornos
Da esquerda ferra e diz: “Se a contrastar-me
Ninguém, filho da deusa, aqui se afouta
Que me retém? que espero? O touro ordena
405 Me conduzam.” Nos seus lavra um sussurro,
Querem que se lhe entregue. Eis volto Acestes
A Entelo ao pé sentado em leito ervoso,
Turvo o acoima e aguilhoa: “Ó dos antigos
Tu fortíssimo herói, sofres, Entelo,
410 Que prêmios tais se levem sem combate?
Onde Erix, nosso deus, frustrado mestre,
Onde o renome teu, que enche a Trinácria,
E os cem troféus que nos salões penduras?”

“O medo, retorquiu-lhe, o amor da glória
415 Não me embotou; mas tardo gela o sangue,
E o vigor se me esfria e se entorpece.
A me assistir a idade em que ora ufano
Confia esse arrogante, eu sim viera,
Não do preço movido ou guapo touro:
420 De interesses não curo.” E nisto à praça
Dois cestos arrojou desmesurados,
Que o bravo Erix nos prélios maneava,
No duro tergo os braços enlaçando.
Tudo enfiou: de bois sete amplos coiros
425 Reforçava cosido o ferro e o chumbo.
Dares é que mais pasma e até recusa:
O bizarro Anquisíades sopesa,
Volve a enleada massa e vulto enorme.
“Quanto mais, torna o velho, se alguém visse
430 Os de Hércules tremendo, e a luta infausta
Sobre esta mesma praia! Ei-las, Enéias,
Do teu valente irmão contempla as armas,
De cérebro e de sangue inda com laivos.
Com elas arrastou-se ao próprio Alcides;
435 Servi-me eu delas, quando me aquecia
O verdor, nem velhice porfiosa
Pelas fontes esparsa branquejava.
Mas se rejeita o Frígio as armas nossas,
Com Enéias se aprova o autor Acestes,
440 Não temas, renuncio os coiros D’Erix;
Despe esses teus: iguale-se a contenda.”

Do ombro dúplice capa então desprende,
Desnuda a ossada, as juntas e os lagartos;
Musculoso e nervudo está na arena.
445 Cestos iguais presenta o Anquísio padre,
E ata-os às palmas de ambos. Sobre os dedos
Cada qual se endireita, e no ar os pulsos
Vibra intrépido e firme. Árdua a cabeça
Do vulnífico aceno atrás afastam;
450 Misturam mãos com mãos, e a pugna incitam(28).
Um por moço é ligeiro; outro é forçoso,
Grande e membrudo, mas dos joelhos frouxo,
Tardo e tremente, a vastidão lhe agita
Egro anelar. Muita ferida baldam,
455 Muita no lado côncavo amiúdam;
Os peitos aos varões harto rouquejam;
O punho erra por fontes, por ouvidos;
Ao crebro áspero embate os queixos ringem.
Afincado num posto, o grave Entelo
460 Aos tiros vigilante o corpo furta.
Dares, como quem bate uma alta praça,
Ou rouqueiro castelo opugna e cerca,
Por esta aberta e aquela, o assalta e urge;
Frustra os tentames, os ardis malogra.

465 Minaz Entelo se alça, e a destra brande;
O outro prevendo o sobranceiro bote,
Num salto o esquiva: Entelo pelas auras
Derrama as forças, por si mesmo em terra
Com o vasto peso mais pesadamente
470 Rui, como em cimos do Ida ou no Erimanto
Desraigado baqueia oco pinheiro.
Frígios, Trinácrios, êmulos consurgem;
Monta o clamor ao céu; primeiro acode
E ergue Acestes com pena o eqüevo amigo.
475 Sem perturbá-lo a queda, o herói mais agro
Volta impávido à luta, e a ira o esforça;
Pejo, cônscio valor o abrasa, e ardendo
Rápido pelo campo acossa a Dares:
Ora a destra, ora a esquerda os golpes dobra.
480 Nem respiro, nem pausa: qual nos tetos
Saltão granizo crepitando chove,
Tal com uma e outra mão basta pancada
Desfecha, e traz num vórtice o contrário.
Que o furor se encrueça, e Entelo em sanha
485 Mais se exaspere, o padre o não consente:
À pugna se interpondo, ao moído jovem
Salva, e o mitiga assim: “Que insânia a tua!
Triste! um poder não sentes sobre-humano?
Cede ao nume.” E falando a briga aparta.
490 Fiéis sócios com Dares, que a nutante
Cabeça e os fracos joelhos mal sustendo,
Mistos coalhado sangue e dentes cospe,
Vão-se às naus; advertidos, com a espada
O elmo tomando, a rês e a palma deixam
495 Ao vencedor, que altivo se ufaneia:
“Olhai, de Vênus filho, e vós Troianos.
O que eu seria em moço, e a morte certa
De que o livrastes.” Pára, em se afrontando
Ao touro, prêmio seu, que em pé se tinha,
500 Libra-se a prumo, atrás retira a destra,
Entre os cornos assenta os duros cestos,
Quebra-lhe o crânio, o cérebro esmigalha:
Prostra-se, arca e no chão se estira o boi.
Sobre ele o herói exclama: “Em vez do Frígio
505 Melhor te sagro est’alma; os cestos, Erix,
E a arte vitorioso aqui reponho.”

Já, com dons, a quem jogue a seta alada
Convida Enéias; faz que a gente erija
Do baixel de Seresto um mastro, e apensa
510 Do tope num cordel volante pomba,
Alvo dos tiros. Os varões concorrem,
E em brônzeo capacete as sortes lançam:
Começou pelo Hirtácio Hipocoonte
Com ruidoso favor; Mnesteu seguiu-se,
515 Mnesteu que inda cingia a verde oliva
Do certame naval; saiu terceiro
Seu(29) irmão Euricion, Pândaro exímio,
Que, mandado a romper outrora os pactos,
Contra os Aqueus a vira disparaste:
520 Do elmo ficou no fundo o velho Acestes,
Que lidas juvenis tentar ousava.

Com ânsia cada qual seu fléxil arco
Forte encurva, e da aljava o tiro apronta.
Primeiro o Hirtácio, o nervo rechinando,
525 Zimbra agilíssimo as volúveis auras,
E no fronteiro mastro a ponta ferra:
Treme a árvore, assustada esvoaça a pomba,
E em roda estronda o aplauso. Árdego e lesto,
Arma o lanço Mnesteu, põe alto a mira,
530 Olhos estende e a seta: ah! que não pôde
Na ave tocar; do pé só quebra os fios
De que inexa pendia: ela adejando
Por entre notos e negrumes foge.
Mas, prestes e embebida a frecha tendo,
535 Invocando Euricion fraterno auxílio,
Fita a que o céu fendendo aleia e exulta,
E sob a nuvem bruna a encrava: a pomba
Cai morrendo, e nos astros larga a vida,
E traz caindo a farpa atravessada.
540 Resta Acestes sem palma; e o tiro aos ventos,
Do arco sonoro e de arte gloriando,
Enfim remete. Aqui súbito ocorre
Monstro e agouro espantoso, que o futuro
Vindo aclarar, terrífícos os vates
545 Tarde o cantaram; pois que ardeu, voando,
E ígneo sulco traçou na etérea via
A haste arundínea, e em ar se esvaiu tênue:
Qual se descrava a estrela, o céu transcorre,
E no vôo inflamada arrasta o crino.
550 Frígio ou Trinácrio, estáticos de assombro,
Levantam preces: nem repulsa o aviso,
Mas a Acestes abraça o herói prestante,
Largo o premeia, e ajunta: “Aceita, ó padre,
Senão da sorte, por insigne auspício
555 Do sumo rei do Olimpo, esta esculpida
Cratera, deixa do longevo Anquises;
Gage, com que o prendou Cisseu de Trácia,
De amizade e lembrança.” E às fontes o orna
De verde louro, vencedor o aclama:
560 Sem ciúme Euricion, que só das nuvens
A ave precipitou, de grado acede.
Entra o que o nó desfez próximo em honras;
Último, a frecha quem pregou no tronco.

Inda os certames não despede Enéias;
565 Chama a Epítides; aio e companheiro
Do impube Iulo, e diz-lhe à puridade:
“Anda; e Ascânio, se instruto o eqüestre ludo
E os meninos já tem, que as turmas guie,
E em memória do avô se mostre em armas.”
570 Dali faz que esvazie o infuso povo,
E haja campo. Ante os pais, medindo o passo,
Por igual em cavalos enfreados
Os meninos relumbram. Surpreendida(30)
Freme a sicana e teucra mocidade.
575 Do uso os coroa tonsa rama: trazem
Dois hastis de corniso em férreas choupas,
E alguns ao ombro aljavas luzidias;
Retorcida lhes desce áurea cadeia,
Do colo ao peito em círculo flexível.
580 Três as turmas, três chefes as percorrem;
Sob cada chefe doze cavaleiros
Bizarreiam, fulgindo em sua esquadra.
Uma folga, ó Polites, de que a reja
O teu Príamo, herdeiro de um tal nome,
585 Que há de a Itália aumentar: cavalga em trácio
Ginete bicolor de brancas malhas,
Que a mão calça de branco, e fero ostenta
Branca silva na testa. O guia é de outra,
Caro ao menino Iulo, Átis menino,
590 Átis o tronco dos Latinos Átios.
Mais que todos formoso, o lindo Ascânio
Trota postremo num corcel fenício,
Que em monumento e prova de ternura
Deu-lhe a cândida Elisa. O resto monta
595 Em trinácrios frisões do velho Acestes.
Pávidos marcham; dos avós retratos,
Com júbilo os aviva o tróico aplauso.

Depois que alegres ante os seus campeiam,
Prontos à senha, Epítides gritando
600 Longe o flagelo estala. A par desfilam,
Formam-se em corpos três, e à voz dos cabos
Infestas lanças, desandando, enristam.(31)
Carreiras a carreiras contrapondo,
Voltas impedem com trocadas voltas;
605 Baralham-se em renhida escaramuça,
De um conflito arremedo: ora dão costas,
Ora atacam de frente; ou, pazes feitas,
Levam-se emparelhados. N’alta Creta
O labirinto, é fama que o teciam
610 Paredes cegas, mil dolosas ruas
De incompreendido error, que inextricável
Enganados vestígios transviava:
Não com diverso enredo embaraçada,
A prole teucra folgazã correndo,
615 Fugas urde e pelejas; como a nado,
No úmido pélago os delfins brincando,
Ondas carpátia e líbica retalham.

Ao munir Alba-longa, estes Ascânio
Cursos, torneios, quais jogou na infância,
620 No prisco Lácio introduziu: de Albânia
Transmitiram-se a Roma; e Roma augusta
Em honra avita os guarda: o jogo Tróia,
O pueril esquadrão se diz Troiano.

Ao divo padre a festa ia findar-se:
625 Instável a fortuna então falseia.
Durante os ludos fúnebres Satúrnia
Envia à tróica armada Íris celeste,
Com ventos a aligeira, e em cem projetos
A inveterada queixa não sacia.
630 Pelo arco multicor, de golpe a virgem
Ganha um declive atalho; atenta invisa
Tropel tão basto, e vê, lustrando as praias,
Deserto o porto, abandonada a frota.

Lá sós, em borda escusa, o morto Anquises
635 As Troades choravam, e o profundo
Ponto olhavam chorando: “Ai! tão cansadas
Que abismo que nos resta!” à uma exclamam.
Pedem cidade; a rota longa entejam.
Nada inóxia, deposto e o trajo e o vulto,
640 Chega-se a deusa, em Béroe disfarçada,
Cônjuge anosa do Ismaro Doriclo,
Célebre dantes por fecunda e nobre;
Entre elas se insinua, e diz: “Mesquinhas!
Que às mãos gregas a morte não tragámos
645 Sob os muros da pátria! Infeliz gente!
A que exício a desgraça te reserva?
Volvem sete verões que, acesa Tróia,
Fretos medindo, inóspitos rochedos,
Climas tantos e céus, por mar tamanho
650 Da fugitiva Itália em busca, vamos
Pelas ondas rolando. Hóspede Acestes,
D’Erix quem lhe obsta no país fraterno
A nos fundar cidade? Ó pátria! ó numes
Do inimigo sem fruto arrebatados!
655 Nunca um sítio verei que eu chame Tróia?
Nunca os rios de Heitor, um Xanto, um Simois?
Presto, abrasai comigo infaustas popas.
Cassandra em sonhos, dando acesas tochas,
Me bradava esta noite: Ílio aqui tendes,
660 Aqui vossa morada. Obrai, que é tempo;
Nem tais prodígios dilação permitem:
Eis sacros a Netuno altares quatro;
O mesmo deus ministra ânimo e fachos.”

Nisto, agarrando infenso, a destra eleva,
665 Brande um tição com força, e coruscante
O propele. As Ilíades suspensas
De espanto enfiam. Pirgo, a mais idosa,
Que tantos filhos a seu rei criara:
“Esta, ó matronas, disse, a de Doriclo
670 Béroe não é Retéia: o ar divino,
O garbo lhe notai, da vista o fogo,
O hálito, o som da voz, o andar e o gesto,
A Béroe eu venho de deixar doente,
Pesando-lhe só ela em tais exéquias
675 Faltar com dons e merecido pranto.”

Cala; e as matronas os malignos olhos
Nos lenhos cravam, balançando ambíguas
Do ficar entre o mísero desejo
E as fatídicas ordens; quando as asas
680 Libra e desfere a deusa, e à retirada
Assinala entre as nuvens arco ingente.
Em fúria, do prodígio estupefactas,
Do imo foco bramindo a chama tiram:
As aras despojando, às naus remessam
685 Galhos, folhas, tições: Vulcano em bancos
E em remos enfurece, à rédea solta
Raiva de abeto nas pintadas popas.

Ao sepulcro, à platéia, Eumelo a nova
Do incêndio leva; e em rolo atra fagulha
690 Se enxerga a revoar. Primeiro Ascânio,
Quão ledo conduzia a eqüestre pugna,
Ágil galopa aos arraiais turbados;
Aios retê-lo exânimes não podem.
“Que tentais, cidadãs? que insânia! ai tristes!
695 Não pavilhões hostis, não graias quilhas,
Queimais vossa esperança. Aqui me tendes,
Eis vosso Ascânio.” E aos pés o elmo vão lança,
De que armado exercia a falsa guerra.
Enéias se acelera, e o frígio bando.
700 A buscar brenha ou lapa em que se escondam,
Pelas praias com medo elas se esgarram:
À luz fogem de pejo, e arrependidas
Juno removem d’alma, aos seus tornadas.
Nem por isso domou-se a voraz peste:
705 Sob o molhado roble viva a estopa
Tardo fumo vomita, e o vapor lento
Rói os porões, no âmago se ateia;
Não valem jorros d’água e heróico esforço.
Dos ombros rasga a veste, e aos céus Enéias
710 Súplice as palmas tende: “Ó Jove excelso!
Se um por um, padre, os Frígios não detestas,
Se inda humanos trabalhos te apiadam,
Da chama agora a frota me preserves,
D’Ílio a tênue relíquia ao menos poupes;
715 Ou, que mais resta? esmague-me o teu raio,
Mata-me, se o mereço.” Acaba; e ronca
Desmedida, furiosa, atra procela,
Dos trovões estremece o monte e o vale;
Turvo, engrossado pelos densos austros,
720 Aguaceiro estupendo alaga as popas:
Semi-ardidos carvalhos se umedecem,
Té que extinto o vapor, tragadas quatro,
No corpo das demais cessa o contágio.

Do agro desastre Enéias combatido,
725 Cem razões versa n’alma, hesita incerto
Se na fértil Sicília esqueça os fados,
Ou se à Itália prossiga. O velho Nautes,
Sábio adivinho de Minerva aluno,
Tramas de irosos deuses explicando
730 E o que ordena o destino, assim o anima:
“Da fortuna aos vaivéns nos resignemos,
Ó dionéia prole; em todo aperto
Sofrendo é que se vence a adversidade.
Tens cá divina estirpe, o tróico Acestes:
735 Consulta o seu querer. Das naus combustas
Lhe confia o sobejo, e os que se anojam
Da empresa tua; as aborridas madres,
Decrépitos e inválidos segrega,
E os que afrontar contigo os riscos temem:
740 Em terra hajam descanso; ergam cidade,
A que Acestes conceda o nome Acesta.”
Nos conselhos do amigo o herói se acende;
Mas os projetos seus medita e pesa.

Na biga a parda Noite o pólo ocupa:
745 Eis do céu deslizando a sombra anquísea
Tais vozes difundir se lhe afigura:
“Filho, que em vida mais amei que a vida,
Filho, a quem de Ílion molesta o fado,
A ti me expede Jove, que do Olimpo
750 Doeu-se e desviou da armada o incêndio.
De Nautes o maduro aviso adota:
Vais debelar gente áspera indomada;
Dos teus conduz ao Lácio a flor guerreira.
D’antemão baixa a Dite e ao centro escuro;
755 Pelo alto Averno, ó filho, vem falar-me:
Não no ímpio Tártaro, entre os manes tristes;
Moro sim, entre os bons, no Elísio ameno.
Muita rês negra fere, e a mim te guie
Casta Sibila; aprenderás teus netos,
760 E o dado império. Adeus, que úmida a noite
Vira e descai, e já do sevo oriente
Respirando os Etontes me bafejam.”

Disse, e em ar se esvaece. “Onde, onde partes?
Tem-te, espera; a meus braços quem te arranca?”
765 Tal Enéias discorre, e esperta o lume
Sopito em cinza; humilde à branca Vesta
O sacrário venera e os teucros lares,
Com turíbulo pleno e farro pio.
Depois consulta o rei, declara aos sócios
770 De Jove o mando, os paternais preceitos,
E o seu pensar. De pronto anui Acestes.
Para a cidade o vulgo e as mães se alistam,
Almas a quem não toca o amor da glória.
Gastos robles da chama outros renovam,
775 Remos, bancos, enxárcias aparelham;
Poucos sim, mas de vívida coragem.

Risca os muros Enéias com o arado;
Sorteia as casas; manda ali ser Tróia,
Pérgamo ali. Do aumento folga Acestes;
780 O senado institui, regula o foro.
Templo, aos astros vizinho, à deusa Idália
No Erix se eleva; ao túmulo de Anquises
Um luco amplo se anexa e um sacerdote.

Festins e oblatas novenais se fazem,
785 Enquanto aragem meiga aplane as vagas.
Fresco ao largo de novo o sul convida:
Nas curvas praias se ouve um mesto choro;
Dia e noite abraçados se demoram.
E agora as mães, e aqueles que assustava
790 Do áspero mar a torva catadura,
As fadigas do mar padecer querem.

Terno os conforta, e lagrimoso Enéias
Ao régio consangüíneo os recomenda.
A Erix vitelos três e às tempestades
795 Cordeira imola, e vai desamarrando.
Tonsa oliva na testa, em pé na proa,
Taça na destra, as vísceras despeja,
De estremes vinhos o salgado asperge.
De popa o vento surge; e os navegantes
800 Varrem, qual mais, as percutidas ondas.
Entretanto, a Netuno aflita Vênus
Tais queixas despregou: “Senhor, a ativa
Atroz ira de Juno insaciável
Me abate a suplicar. Nem dó, nem tempo,
805 Jove nem destino, infandos ódios
Quebra ou lhe adoça. Haver não basta aos Frígios
Consumido e apagado a grã cidade,
E as relíquias trazer de transe em transe;
De Tróia inda persegue a cinza e os ossos:
810 Desta sanha o motivo ela que o saiba.
Longo não há que em Líbia (és testemunha)
Mal afouta em Eolo, o pego em brenhas,
Misturou de repente os céus e os mares:
E isto ousar em teus reinos! Ei-la, oh crime!
815 Iliça as Teucras, incendeia as popas,
Naus estraga, e a largar meu filho obriga
Sócios em terra estranha. O resto, ó padre,
Possa, eu to rogo, navegar seguro;
Aborde, se é que as Parcas lho concedem,
820 Ao Tibre laurentino e assentos funde.”

Do alto oceano o domador Satúrnio:
“É justo, respondeu, que em mim confies
E em reinos, Citeréia, origem tua.
Mereço-o; que não raro hei por teu filho
825 Marulhos comprimido e o céu raivoso.
Nem menos (testefique o Xanto e o Simois)
Dele em terra curei: quando às muralhas
Pálidas turmas rebatendo Aquiles,
Milhares dava à Estige e o Xanto, os rios
830 Entulhados gemendo, não sabia
Como volver-se ao mar; eu mesmo em nuvem
Cava ao Pelides fero Enéias roubo,
Que, ímpar em força e divos, o acomete;
Bem que anelasse, destas mãos erectos,
835 D’Ílio extirpar os fementidos muros,
No mesmo ânimo estou; bane os temores.
Aportará no Averno quem desejas:
Deve um só perecer no aquoso fundo;
Uma cabeça pagará por todos.”

840 Tendo assim animado a leda Vênus,
Junge os brutos, e impondo espúmeos freios,
Ele a brida relaxa, e à tona equórea
Voa de leve no cerúleo carro:
Cai sob o eixo tonante o inchado argento,
845 Amansa a vaga, espalham-se os negrumes.
Surde a marinha escolta: Glauco e Forco,
Seu velho coro, formidáveis cetos,
Tritões ligeiros, Melicerta Inôo;
Tétis à esquerda, Pánope e Niséia,
850 Melite e Spio, Cimódoce e Tália.

Brandos gostos revezam-se de Enéias
Na mente absorta: erguer faz logo os mastros,
Desenvergar o pano e desfraldá-lo.
Toda a frota num ponto escotas ala;
855 Solta a bombordo os seios, a estibordo;
Árduos os lais braceia, rebraceia;
Té que o sopro à feição lhe enfuna as velas.
Palinuro abre o rumo à densa armada;
De lhe irem na conserva os mais têm ordem.

860 Da celeste baliza ao meio a noite
Já rórida atingia; de cansaço
Por duros bancos a maruja os membros
Em seus remos pousava: é quando o Sono
Do éter sidéreo plácido escorrega,
865 Afugenta e dissolve a espessa treva;
Busca-te, Palinuro, a ti mesquinho
Funestos sonhos traz: na popa, em Forbas
Transformado, se assenta, e arteiro fala:
“Iaside Palinuro, ao som das águas
870 Desliza a frota; a viração é certa;
Encosta a fronte, as pálpebras descansa,
Furta uma hora ao trabalho: espaço breve
Tomo o teu cargo.” Palinuro os olhos
Descerra a custo: “Queres que eu, lhe torna,
875 Creia em tal monstro, em céu risonho estribe?
Que entregue Enéias a traidores austros?”

Em discursando, ao clavo mais se aferra,
Fito os astros contempla: as fontes ambas
Eis lhe borrifa, em Letes embebido,
880 Por força estígia um ramo soporado;

Nadam-lhe os frouxos renitentes lumes.
Indo-lhe adormecendo o corpo laxo,
Morfeu se achega; ao líquido elemento,
Com pedaço da popa e o leme, o empurra:
885 Despenha-se ele, em vão clamando aos sócios;
O deus nos ares desapareceu.

Inda assim, em Netuno assegurada,
Sulca impávida a frota o plaino amaro:
Já remonta os cachopos das Sereias,
890 Que, então riscosos, de ossos alvejavam;
Roucas do salso choque as rochas soam.
Sem piloto à matroca o barco Enéias
Sente, e em pessoa por noturnas ondas
Magoado o rege, lamentando o amigo:
895 “Ai! nu, que em céu fiaste e em mar tranqüilo,
Jazerás, Palinuro, em praia ignota”.


 

publicado por centrallgames às 00:47
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