Terça-feira, 26 de Abril de 2011

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LIVRO IV

 

Já traspassada, em veias cria a chaga,
E se fina a rainha em cego fogo.
O alto valor do herói, sua alta origem
Revolve; estampou n’alma o gesto e as falas;
5 Do cuidado não dorme, não sossega.
A alva espanca do pólo a noite lenta,
Lustrando o mundo a lâmpada febéia;
Louca à irmã confidente então se explica:
“Suspensa que visões, Ana, me aterram?
10 Que hóspede novo aporta às nossas plagas?
Quão gentil parecer! que ações! que esforço!
Creio, nem creio em vão, provém dos deuses.
Temor vileza argúi. Dos fados jogo,
Ai! que exaustas batalhas decantava!
15 Se em grilhões nupciais não mais prender-me
Fixo não fosse em mim, dês que traiu-me
Com morte o amor falaz; ao toro e fachas
Tédio se não tivesse, eu talvez, Ana,
A esta só culpa sucumbir pudera.
20 Depois que o meu Siqueu me foi roubado,
Mão fraterna os penates cruentando,
Este único abalou-me, eu to confesso,
E a vontade impeliu-me titubante:
Sinto os vestígios da primeira chama.
25 Mas engula-me o abismo, antes me arroje
Do Onipotente um raio às sombras fundas,
Pálidas sombras do enoitado inferno,
Que eu te viole, ó Pudor, e as leis te infrinja:
Quem a si conjuntou-me e a flor colheu-me,
30 Consigo minha fé sepulto guarde.”
Cala, e em seu seio as lágrimas borbulham,

E Ana: “Ó mais do que a vida irmã dileta,
Murcharás teu verdor, viúva e triste,
Sem de Vênus gozar, sem doces filhos?
35 Crês disto a campa cure e a cinza e os manes?
Bem: magoada enjeitaste esposos tírios,
E há pouco Iarbas e outros que em triunfos
África nutre: pois também repugnas
Ao grato amor? Nem onde estás refletes?
40 Cá te cerca a pugnaz Getúlia invicta,
E a Sirte inóspita e Numídia infrene;
Lá por sequiosa a região deserta,
E à larga soltos os Barceus furentes.
Das guerras que direi que em Tiro engrossam?
45 Das ameaças do irmão? Divino auspício,
Mercê de Juno, esta arribada julgo
Das quilhas de Ílion. Como a cidade
Verás crescer? com tal consórcio, quantos
Reinos pular? A que auge irá das armas
50 Teucras a glória púnica ajudada?
Vênia, irmã, pede aos céus, e abençoados
Os sacrifícios, o hóspede agasalha;
De o reter causas tece, até que as ondas
A invernada embraveça e Orion chuvoso,
55 E, em destroço os baixéis, embrusque o tempo.”

Com tais razões lhe atiça o interno incêndio,
E alenta de esperança o ânimo dúbio,
E desata o pudor. Primeiro correm
Aos delubros, e a paz nas aras catam:
60 Bimas ovelhas rituais degolam
À legífera Ceres, mais a Febo
E ao pai Lieu, mormente a Juno, guarda
Dos vínculos jugais. Taça na destra,
Por entre os cornos de alvadia vaca
65 Verte-a Dido pulquérríma, ou dos deuses
Passeia em face pelas aras pingues;
Sagra o dia a oblações; consulta as reses
Pelos peitos abertas, respirantes
Entranhas, congoxosa. Ai! néscios vates!
70 Delubros, votos, à paixão que montam?
Rói as medulas mole flama, e a chaga
No âmago vive tácita. A rainha
Arde insana, e infeliz vaga a cidade;
Qual cerva, a quem de sibilante seta,
75 A atirar o pastor nos créssios bosques,
Varou de longe incauta, e ínscio o volátil
Farpão lhe prega e deixa: ela na fuga
Discorre as selvas e dictéias matas;
A letal cana ao lado se lhe aferra.
80 Ora o guia entre as obras, e as riquezas
Tírias e prestes a cidade ostenta:
Vai falar, e se atalha a voz troncando;
Ora, o Sol descaindo, à mesa os casos
D’Ílio outra vez sem tino ouvir demanda,
85 E da narrante boca outra vez pende.
Já retirados, quando à Lua obscura
Encolher toca o lume e sono infundem
Cadentes astros, só na vácua sala
Mesta ao sofá se encosta em que ele esteve:
90 N’ausência o escuta e o vê n’ausência; ou tendo
No grêmio Ascânio, enleva-se na imagem
Do pai, como iludindo o amor infando.

Nem medram torres, nem se exerce em armas
A mocidade; os portos não consertam,
95 Nem, defensas da guerra, os baluartes;
Impendentes merlões, fábricas param;
Já não labora a máquina altaneira.

Tanto que a persentiu da peste iscada,
Sem à paixão a fama obstar, Satúrnia,
100 Cara esposa de Jove, nestes termos
Comete a Vênus: “Tu e o teu menino,
Certo, exímio louvor e espólios amplos
Ganhais e grã renome, a ser vencida
Uma mulher por dolo de dois numes!
105 Não me escapou, receaste os nossos muros,
D’alta Cartago a estância te é suspeita.
Onde isto irá? tantas contendas onde?
Por que antes não firmamos paz eterna
E ajustes conjugais? Lograste o intento:
110 Ama Dido, o furor nos ossos prende.
Os povos em comum, partindo o auspício,
Rejamos pois: servir marido frígio,
Com seus Tírios dotar-te, se lhe outorgue.”

Vênus, sentindo-a cavilar, da Itália
115 Por que o reino transfira às margens líbias,
Retorque assim: “Quem há que a tal se furte,
Ou doido queira guerrear contigo?
Seja o que lembras, se a fortuna o aprova.
Mas traz-me o fado incerta se é do gosto
120 De Júpiter manter numa cidade
Com os de Tróia os Tírios, ou lhe apraza
Os povos confundir ou federá-los.
És consorte: com preces a ti cabe
Tentar seu pensamento. Anda, eu te sigo.”

125 “Tomo isso a mim, replica a real Juno:
De efeituar o que urge ao plano atende.
A misérrima Dido ir com Enéias
Caçar propõe-se, mal Titã no oriente,
O orbe arraiando, crástino desponte.
130 Eu com basto granizo atro chuveiro,
No açodar-se o tropel de alãos e tralhas
Cingindo a mata, soltarei das nuvens,
Crebros trovões estremecendo o pólo.
Derramada a companha, há de abafá-la
135 Noite opaca: o Troiano ir-se-á com Dido
À mesma gruta. Eu lá, se teu consenso
Me asseguras, atada em jugo estável
Lha ofertarei, sendo Himeneu presente.”
Não adversando, ao rogo Citeréia
140 Anui, e riu do solapado engano.

A aurora do oceano entanto surge:
Dos mancebos a flor madruga às portas,
Com laços, redes raras, com venábulos
De larga choupa; os éqüites massilos
145 Com farejantes cães de trote rompem.
No camarim detendo-se a rainha,
À entrada os Penos principais a esperam;
Em ostro e ouro o palafrém cosido,
Tasca o freio espumante, árdego e fero.
150 Assoma alfim da corte ladeada:
A clâmide sidônia lhe circunda
Multicor franja; à banda aljava de ouro,
Trança em ouro a madeixa, e lhe conchega
Fivela de ouro a purpurina veste.
155 Não falta a frígia companhia, e alegre
Marcha Iulo. Galhardo mais que todos,
Sócio Enéias se agrega, e a sua escolta.
Febo, quando abandona a Lícia hiberna
E o caudal Xanto; e, ao visitar a Delos
160 Materna, instaura os coros, pelas aras
Mistos Cressos e Dríopes fremindo
E Agatirsos pintados; por cabeços
Do Cinto airoso pisa, e o crino undante
Atilando, enredado em mole folha,
165 De ouro enastra; o carcás aos ombros tine:
Não menos senhoril Enéias ia;
Tanto garbo transluz no egrégio rosto!

Chega-se a alpestres montes e ínvias furnas:
Eis, de íngreme rochedo despenhando-se,
170 Bravias cabras pelos picos pulam;
D’além cervos, ligeiros a planície
Transpondo, aos esquadrões pulverulentos
Enovelam na fuga, e as brenhas deixam.
Mas no ardido ginete(17) o moço Ascânio
175 Dos vales folga em meio; e aqueles passa,
Estes pretere, e anela que um javardo
Surda espumante dentre o bando inerte,
Ou que fulvo leão da serra desça.

Entra a embrulhar-se o céu múrmuro e rouco:
180 De envolta cai saraiva e grossa chuva;
E a tíria comitiva e os jovens teucros,
Do medo atropelados, e o dardânio
De Vênus neto, agreste abrigo esparsos
Buscam: ribeiras das montanhas ruem.
185 Vão-se à mesma caverna Dido e Enéias;
Telus sinal deu logo e Juno prônuba:
Corisca, e o éter sabedor das bodas
Fulge, e no cimo as ninfas ulularam.
Este o dia letal, dos males causa:
190 Reputação, decoro, nada a move;
Nem mais Dido medita amor furtivo;
Chama-o consórcio, e o nome é véu da culpa.

Já corre a Fama as líbicas cidades;
Nem há contágio mais veloz que a Fama.
195 Móbil vigora, e força adquire andando:
Tímida e fraca, eis se remonta às auras;
No chão caminha, e a fronte enubla e esconde.
Da ira dos deuses Terra mãe picada,
Póstuma a Celo e Encélado, é constante,
200 De pés leve engendrou-a e de asas lestes:
Horrendo monstro ingente, que, oh prodígio!
No corpo quantas plumas tem, com tantos
Olhos por baixo vela, tantas línguas,
Tantas bocas lhe soam, tende e alerta
205 Ouvidos tantos. Pelo céu de noite
Revoa, e ruge na terrena sombra,
Nem os lumes declina ao meigo sono:
De dia, em celsa torre ou sumo alcáçar,
Sentada espia e as capitais aterra;
210 Do falso e ruim tenaz, do vero núncia.
Vária e palreira então com gáudio os povos
Aturde, e o feito e por fazer pregoa:
Que o varão teucro é vindo, ao qual dignava
Juntar-se a bela Dido; e, longo o inverno,
215 Em braços da volúpia, em luxo torpe
Se acalentando, os reinos esqueciam.

Isto de boca em boca a feia deusa
Difunde, e o curso para Iarbas torce;
Brada, inflama-lhe o peito, iras cumula.
220 De Amon filho e da rapta Garamante
Ninfa, em amplo domínio ao pai cem bravos
Templos, cem aras pôs; e um fogo eterno
Sagrou, dos deuses vivas sentinelas;
E o solo pingue do cruor das reses,
225 E em mil festões florentes liminares.
Fora de si, da nova amarga aceso,
É voz que aos céus humilde alçara as palmas:
“Soberano, a quem brinda a maura gente,
Banqueteada em marchetados leitos,
230 Reparas nisto, ó padre? ou com torcidos
Raios, cegos fuzis, trovões ruidosos,
Por demais nos assustas e apavoras?
Mulher que merca, errante em nossa extrema,
Para exígua cidade um chão foreiro
235 E ara uma praia, as bodas repulsou-nos,
No reino admite por senhor a Enéias!
E esse Páris, guiando uns semíviros,
Guedelha mádida em meônia mitra
Sob o mento enlaçada, o rapto logra:
240 Templos encher-te, fomentar nos baste
Estéril nome!” — Assim queixoso, e às aras
Pegado, ouvido foi do Onipotente;
Que os olhos volve à corte em que os amantes
A fama esquecem: “Vai, Mercúrio, invoca
245 Os zéfiros, nas penas te desliza,
Filho; e a Birsa, onde aguarda em ócio Enéias,
Sem respeito às muralhas concedidas,
Sobre as asas do vento este recado
Leva-lhe. Tal a genetriz formosa
250 Não no-lo prometeu, nem duas vezes
Para isso o vindicou das armas gregas;
Antes seria quem regesse a Itália
De impérios grávida e a bramir por guerras,
Quem, propagando o altivo sangue teucro,
255 Avassalasse o orbe. Honra tamanha
Se o não incende, nem se afana e lida
No alcance do louvor; é pai de Ascânio
E lhe inveja as romanas fortalezas?
Que faz? que espera entre inimiga gente?
260 Nem lhe importa Lavino e a prole ausônia?...
Navegue: em suma, esta a messagem; parte.”

À voz do excelso pai se inclina e apresta:
Calça os áureos talares com que adeja
Sublime sobre as terras, sobre os mares,
265 Como rápido sopro. A vara empunha,
Com que as pálidas almas do Orco evoca,
No Tártaro sombrio, outras afunda,
Tira e dá sonos, e da morte o selo
Nas pálpebras imprime. Afoito as brisas
270 Com ela parte, e os nevoeiros trana.
E já no surto avista o pino e encostas
Árduas de Atlante duro, que em seu tope
Agüenta o firmamento; o velho Atlante
Que de assíduos bulcões tolda a cabeça
275 Pinífera, açoitado de aguaceiros
E vendavais: de infusa neve a espádua
Forra, do queixo precipita rios,
E em caramelo enrija hórrida barba.
Mercúrio, equilibrando-se nas asas,
280 Paira; de chofre atira o corpo às ondas:
Qual gaivota que, as praias e piscosos
Cachopos rodeando, humilde aleia
À flor das águas; entre o céu e a terra
Cilênio, ao longo da arenosa costa,
285 Do avô desce materno e os ares sulca.

Assim que a planta alada os palhais toca,
A fundar casas, torreões, castelos,
Descobre Enéias(18), cuja espada o fulvo
Jaspe estrelava, e aos ombros a descuido
290 A capa em tírio múrice lhe ardia,
Lavor das próprias mãos da rica Dido,
De áurea tela a mais fina entrelaçado:
“Que! lanças de Cartago os alicerces
E lindos muros maridoso traças?
295 Teu reino, ah! tudo esqueces! O alto nume,
Cujo acenar abala o Olimpo e o mundo,
Veloz do claro pólo a ti me envia:
Que meditas? na Líbia com que intuito
Gastas esse vagar? Se não te excita
300 Glória tanta, nem lidas e te afanas
Trás o louvor, no teu herdeiro atenta,
No pululante esperançoso Iulo,
De Itália ao cetro e a Roma destinado.”
Nem acaba o Cilênio, e os mortais visos,
305 Depondo, em fumo se esvaece tênue.

Deste aspecto hirta a coma, a língua presa,
Do aviso e mando sumo o herói pasmado,
Ir-se e largar anseia as doces margens.
Ai! que ousará? frenética a rainha,
310 Com que ambages dispô-la, com que exórdios?
Aqui e ali, por tudo a mente versa;
Muda, varia, alterna, enfim resolve.
Cloanto convocou, Mnesteu, Sergesto;
Que, à surda aparelhando e a marinhagem
315 À frota recolhendo, aprontem armas,
Da novidade a causa dissimulem:
Que ele, como romper-se amor tamanho
A boníssima Dido não receie,
De conversá-la o ensejo tentaria,
320 A senda mais suave e o melhor jeito.
Todos com alvoroço as ordens cumprem.

Mas a rainha os dolos (quem a amante
Pode enganar!) pressente, e o que se urdia
Primeiro aventa, e o mais seguro teme.
325 Ímpia a Fama a exaspera, e lhe delata
Que a vogar se arma a frota. Urra, chameja,
Debaca pelas praças, pelas ruas:
Qual Tias quando, ao sacudir dos vultos
E tirsos incitada, evoé bramindo,
330 Trietéricas orgias a estimulam,
E o Citeron noturno a invoca a brados.
Topa a Enéias por fim: “Pérfido, exclama,
Poder inda encobrir tão feio embuste
E te escoar do meu país contavas?
335 Nosso amor, a fé dada não te embarga,
Nem de Elisa a funesta morte crua?
E até na hiberna quadra as naus fabricas,
E na força dos áquilos te apressas
A emarar-te, cruel? Que! se não fosses
340 A estranho solo e clima, Tróia antiga
Se em pé tivesses, pelas crespas vagas
Navegaras a Tróia?... A mim me foges?
Por este pranto meu, por essa destra
(Pois nada já me reservei mesquinha),
345 Por nosso matrimônio, pelas núpcias
Encetadas, se um’hora te fui doce
Ou bem te mereci, doa-te a minha
Casa em ruína; e, se é que as preces valem,
Despe tal pensamento, eu to suplico.
350 Por ti me odeiam nômades tiranos,
E a Líbia inteira, infensos os meus Tírios;
Por ti mesmo extinguiu-se o pejo, e aquela
Fama que dantes me elevava aos astros.
Moribunda em que mãos me desamparas,
355 Hóspede?... Este só nome à esposa resta.
Que mais me falta? que os fraternos muros
Pigmalião me tale? que à Getúlia
Seu rei me leve escrava? Antes da fuga,
Se de ti concebera, se em meus paços
360 Pequenino outro Enéias, cópia tua,
Me brincasse, eu de todo escarnecida
Nem em tanto abandono me julgara.”

Disse. Ele, imota a vista e a mente em Jove,
Sopeia a dor a custo, enfim responde:
365 “Eu nunca negarei favores tantos,
E outros que enumerar, senhora, podes;
Nem de Elisa a lembrança há de enfadar-me,
Enquanto eu mesmo for de mim lembrado,
E est’alma o corpo reja. A escusa é breve.
370 Nem a furto ausentar-me, tal não penses,
Cuidei; nem pretendi jamais as tedas,
Ou vim nunca em firmar esta aliança.
Se a meu gosto compor se me outorgasse
Da vida o curso, preferira em Tróia
375 As dos meus cultivar doces relíquias;
Refizera de Príamo os palácios,
Reconstruíra Pérgamo aos vencidos.
Mas Grineu Febo a Itália, a Itália agora
As sortes lícias demandar me ordenam:
380 Este o amor, esta a pátria. As líbias torres
De Cartago se a ti Fenisa prendem,
Na Ausônia estranhas que os Troianos fundem?
Novos reinos é lícito habitarmos.
A mim do padre Anquises, quantas vezes
385 De úmida sombra a noite enluta o globo,
Quantas surgem igníferos luzeiros,
Insta em sonhos, me aterra a torva imagem;
Turba-me o tenro Ascânio, o vitupério
De cabeça tão cara, a quem defraudo
390 Do hespérico domínio e fatais campos.
Inda há pouco, da parte do Tonante
O intérprete divino (ambos atesto)
Frechando as auras trouxe-me recados:
Às claras eu vi mesmo entrando os muros
395 O deus, bebi-lhe a voz nestes ouvidos.
De inflamar cessa a mágoa tua e minha:
Não espontâneo para Itália sigo.”

Enquanto ele discorre, aversa o encara;
Tácitos lumes volve, e o mede e estronda:
400 “Nem mãe deusa, nem Dárdano hás por tronco;
Gerou-te o Cáucaso em penhascos duros,
Traidor! mamaste nas hircanas tigres.
Que dissimulo? a que desdém me guardo?
Deu-me ao pranto uma lágrima, um suspiro?
405 Da amante se doeu?(19) dignou-se olhar-me?
Que afronta é mais pungente?... Ah! que até Juno
Nem Satúrnio isto vê com retos olhos.
Fé segura não há. Náufrago e pobre
O recolhi, demente o pus no trono,
410 Do estrago as naus remi, da morte os sócios.
Ai! que incendida as fúrias me arrebatam!
Ora agoureiro Apolo ou sortes lícias,
Ora expedido o intérprete de Jove
Traz pelas auras hórridos mandados.
415 Dos supremos que emprego! uma tal ânsia
Quebra o seu repousar. Nem te detenho,
Nem te refuto. Para Itália segue,
Sim, busca impérios pelas bravas ondas.
Se os numes valem pios, certo espero
420 Que entre escolhos suplícios mil devores,
E invoques amiúde o nome Dido.
Com negro facho ao longe hei de acercar-te;
E, quando a morte fria aos órgãos solva
O almo alento, ser-te-ei contínua sombra;
425 Terás o pago, hei de, perverso, ouvi-lo,
A nova há de baixar-me ao centro escuro.”

Nisto, corta-lhe a prática, à luz foge,
Some-se aflita, e o deixa embaraçado,
Muito dizer querendo e receando.
430 Levam-na em braços à marmórea alcova,
E a deitam nos coxins desfalecida.

Bem que deseje mitigá-la Enéias
E remover-lhe as penas compassivo,
Solto em ais, do amor grande combalido,
435 Cumpre as ordens contudo, as naus revista.
Afervoram-se os Teucros, desencalham
Celsos baixéis; crenado o casco nada;
Frondentes remos trazem, toscos robles,
No afogo de abalar. De muda os viras,
440 Da cidade em torrentes borbotando.
Em tulha assim de farro dão formigas
E em casa o põem, do inverno precatadas;
Campeia o negro exército, entre as ervas
Por trilha estreita acarretando a presa:
445 Parte ombros mete e grossos grãos empurra;
Parte urge os pelotões, pune as ronceiras:
Da pressa e afã toda a vereda ferve.

Ao contemplá-lo, que sentias, Dido?
Quais teus gemidos, de cimeira torre
450 Das praias enxergando o borborinho
E antolhando com grita o mar fundir-se?
Os mortais, fero amor, a quanto obrigas!
De novo ao rogo, às lágrimas recorre,
Do amor se humilha ao jugo; por que ao menos
455 Por tentar nada fique antes que expire.
“Ana, eis revolto o litoral; de roda
Concorre a chusma; o brim convida as auras,
E as popas já coroa o alegre nauta.
Se eu esperasse, irmã, sofrera o golpe.
460 Ana, um serviço: o ingrato, que te estima,
Só contigo se abria, só conheces
O modo e ensejo de amolgar esse homem;
Ao soberbo inimigo vai, suplica,
Por mim lhe fala, irmã: que eu nunca aos Danaos
465 Em Aulíde jurei de Tróia o excídio,
Nem contra Pérgamo esquipei navios,
Nem os ossos cavei do padre Anquises;
Por que duro a escutar-me se recusa?
De tropel onde corre? À triste amante
470 Renda um favor: monção aguarde e fuja.
O traído himeneu já não requeiro;
Nem do reino desista e pulcro Lácio.
Curto espaço ao furor, vã trégua peço,
Té que a sorte me vença e à dor me aveze.
475 Da irmã tem pena, esta mercê me obtenhas;
Ser-lhe-á paga sobeja a morte minha.”

Tais lamentos, misérrima, tais preces
Ana leva e releva; ele inconcusso
Razões nem choro admite: os fados obstam,
480 Um deus lhe obstrui os plácidos ouvidos.
Se, de anos rijo o válido carvalho,
Daqui dali soprando alpinos bóreas,
Extirpá-lo porfiam, berram, silvam,
E, do tronco as entranhas sacudidas,
485 Juncam o solo as folhas; aos rochedos
Ele se agarra, e quanto com seu pico
Penetra o etéreo céu, tanto profunda
No Tártaro a raiz: não de outro modo
Assíduas vozes mil o herói combatem,
490 E a grande alma suspira; a mente imóvel
Persiste, e rodam lágrimas baldias.

Dos fados treme Dido e a morte exora;
Da azul abóbada aborrece o aspecto.
Na tenção mais se afinca e a luz detesta,
495 Quando o leite (que horror!) nos sacros vasos
Vê negrejar, e os derramados vinhos
Irem-se convertendo em sangue impuro.
Tal visão cala, nem da irmã confia.

Ao defunto Siqueu nos paços houve
500 Marmóreo templo, em que ela se esmerava,
De velos níveos e festões ornado.
Ali, tanto que a noite obumbra as terras,
Crê perceber queixumes e o marido
Mesto chamá-la, e solitário bufo
505 Nas grimpas feral verso estar carpindo
E com tristura em flébil tom piando:
Cem velhas predições a atemorizam.
Enfurecida, o mesmo fero Enéias
Em sonhos a perturba, e se imagina
510 Sempre sozinha, ao desamparo sempre,
Ir por veigas extensas, por desertos,
Em busca dos seus Tírios. Tal, demente,
Penteu figura batalhões de Eumênides,
Gêmeo o Sol, duas Tebas: tal, nas cenas,
515 Da mãe foge aos brandões e às negras serpes
Vexado o Agamenônio, e as flagelantes
Erinies topa ao limiar sentadas.

Mal que à dor cede e, as fúrias concebendo,
Morrer decreta, e como e o quando elege;
520 E a triste Ana acorrendo, com disfarce,
De serena esperança a fronte ameiga:
“Os parabéns, irmã, que achei maneira
De atraí-lo ou soltar-me desse ingrato.
Nos confins do Oceano, para o ocaso,
525 Um lugar derradeiro há na Etiópia,
Onde o máximo Atlante ao ombro o ardente
Eixo estrelado vira. Entre os Massilos
Dali sacerdotisa me inculcaram
Do templo das Hespérides, que os sacros
530 Ramos guardando n’árvore, a comida
Ao dragão ministrava, untada em suco
De mel e dormideiras. Com seus carmes
Solver, gerar paixões; rios promete,
Astros atrás tornar, e infernos manes
535 Revocar: sob os pés mugindo a terra,
Verás descerem da montanha os ornos.
Pelo céu, cara irmã, por vida tua,
Juro que invita à mágica recorro.
Tu lá dentro ergue ao ar secreta pira,
540 E a roupa e as armas sobrepõe desse homem,
Que ímpio as deixou na câmara pregadas,
E o toro em que eu perdi-me: do malvado,
A maga o ordena, apaguem-se as memórias.”
Cala e tingiu-se de palor. Contudo
545 Que os funerais no sacrifício encubra
Nem Ana o crê, nem tal furor suspeita,
Ou nada mais sinistro que na morte
De Siqueu teme: tudo enfim prepara.

Ao ar, com achas de azinheira e pinho,
550 Num claustro escuro ereta ingente pira,
Colgado de capelas, a rainha
De rama fúnebre o lugar coroa;
Não do futuro ignara, sobre o leito
Coloca a teucra espada, a roupa, a efígie.
555 De altares cerca-se, e em cabelo a saga
Toa a invocar trezentas divindades,
O Érebo, o Caos, e a trina Hécate virgem,
Tergêmina Diana. Ali despeja
Simulado licor da fonte Averna;
560 Segadas ao luar com foice aênea,
O leite espreme de pubentes ervas,
Veneno tétrico; extraído ajunta
O amor da fronte de nascente poldro
E subtraído à mãe. Frouxa a petrina,
565 Mola nas pias mãos, de um pé descalça,
Dido, entre as aras morredoura, os deuses
Atesta e os astros, do seu fado cônscios;
E, se há nume que amantes patrocine,
Da ingratidão vingança lhe depreca.

570 Era noite, e em sossego os lassos corpos
Descansam: dorme a selva, o mar sanhudo;
Em meio giro os astros escorregam;
Todo o campo emudece; as alimárias
E as aves de cores mil, quanto povoa
575 Líquidos lagos, ásperas charnecas,
No silêncio noturno os seus trabalhos
Adormentando, a pena aliviavam.
Só nos olhos ou peito a insone Tíria
Não colhe a noite: as aflições lhe brotam;
580 Surgindo e ressurgindo o amor braveja,
Num fervedouro de iras flutuando,
E a mente em si volteia: “Que! zombada,
Requestando os primeiros pretendentes,
Hei de em Numídia mendigar consórcios
585 Tão rejeitados? ou partir na frota,
Conforme às teucras derradeiras ordens?
Gratos ao benefício, oh! quão lembrados
Dos meus favores são! E há, quando eu queira,
Quem mo consinta, ou nos soberbos lenhos
590 Execrada me aceite? Nem tu sabes,
Nem inda sentes, mísera, os perjúrios
Da raça laomedôncia? E então! sozinha
Irei atrás de aventureiros nautas,
Ou com todo o poder dos meus Sidônios?
595 E os que arranquei de Tiro, hei de arriscá-los
De novo, e dar as velas?... Antes morre,
Que o mereces; com ferro a dor atalha.
Tu por meu pranto, irmã, tu me agravaste
O furor e ao tirano me expuseste.
600 Não pudera eu viver de crime isenta,
Como fera, solteira e sem martírios?
Fementida a Siqueu manchei as cinzas.”
Tais do seu peito as queixas rebentavam.

Já, tudo a ponto, certo de ir Enéias
605 Adormecia a ré. Torna-lhe em sonhos
E o repreende a visão: Mercúrio é toda
Em vulto, em cor, em voz, na loura coma,
No talhe esbelto e juvenil meneio.
“Como! filho da deusa, em tal perigo
610 No sono pegas? nem, demente! enxergas
O que há de roda? os zéfiros suaves
Não ouves respirar? Perecedoura,
Ela enganos rumina e atroz maldade,
E num fluxo e refluxo irosa ondeia.
615 Podes inda, e o fugir não precipitas?
Com madeiros verás turbar-se o pego,
Tochas luzir, ferver em fogo as praias,
Se a aurora aqui te apanha. Eia, a tardança
Rompe: é sempre a mulher vária e mudável.“
620 E assim na treva se envolveu da noite.

Espavorido acorda: “Acima, alerta,
Brada o herói; panos fora, gente aos remos:
Insta comigo o mensageiro etéreo
A que abale no instante e pique amarras.
625 Nós, santo deus, quem sejas, te seguimos,
E ovantes outra vez te obedecemos.
Oh! sê propício e plácido, e nos tragas
Faustas estrelas.” Disse, e da bainha
Saca o fulmíneo gume e os cabos talha.
630 Tudo arde, à faina acode; as bordas largam:
De naus coalha-se o pélago; estribados,
Varrendo a azul campina, a espuma enrolam.

Já, de Titon deixando a crócea cama,
A Aurora de luz nova alaga o mundo:
635 Mal Dido alvorecer e arfar em cheio
Viu da atalaia a frota, e a praia e os portos
Nus da chusma sentiu, quatro e mais vezes
Lacera o belo peito e os áureos fios
Arrepela: “Ó deus sumo! há de um estranho
640 Ir-se do nosso reino escarnecendo?
Meu povo armas não toma, e o corre e os vasos
Dos arsenais despede?... Já, de pronto,
Brandi fachos, dai velas, forçai remos.
Que profiro? onde estou? desvairo insana?
645 Ai! Dido, hoje em ti pesa a mão do fado!
Quando entregaste o cetro, é que era tempo.
Que fé, que destra aquela! E é quem se afirma
Que da pátria os penates conduzira,
Que o pai caduco aos ombros carregara?
650 E empolgá-lo não pude, esquartejá-lo,
Pelo mar desparzi-lo, os seus à espada
Passar, e o mesmo Ascânio, e por comida
Pô-lo à paterna mesa? Mas do prélio
Fora a fortuna duvidosa... Fosse:
655 Vou morrer; qual o medo? Às naus, de assalto,
De fogo enchera o bojo; com tal raça
Pai e filho extinguira, e a mim com eles.

Sol, que lustras o globo e tudo aclaras;
Juno, intérprete e cônscia destas penas;
660 Pelas cidades em noturnos trívios
Tu Hécate ululada, ultrices Fúrias,
Ouvi-me, ó deuses da expirante Elisa,
Vosso nume volvei contra os perversos,
E atendei nossos rogos. Se é fadado
665 E quer Jove que o monstro, em fixo termo,
Poje em terra, audaz povo o ataque e avexe;
E errante, foragido, arrebatado
Dos abraços de Iulo, auxílio implore,
Veja dos seus os funerais indignos;
670 Ou, curvo à iníqua paz, não goze o reino
E apetecida luz; mas ante tempo
Caia, e insepulto sobre a areia jaza:
Com meu sangue esta praga última verto.
Tírios! vosso rancor lhe acosse a estirpe,
675 De oferta à cinza minha: aliança os povos(20)
Nunca irmane. Dos ossos tu me nasces,
Tais colonos persegue a fogo e ferro,
Ó vingador: já, logo, em todo o sempre
Que haja forças, com praias travem praias,
680 Ondas com ondas guerras, armas com armas;
Com seus netos, impreco, os meus pelejem.”

Por tudo o ânimo versa, e a teia odiosa
Traça em breve troncar. A Barce fala,
Do bom Siqueu nutriz, que em pó na antiga
685 Pátria a sua ficou: “Nutriz querida,
Chama cá minha irmã; que asperja o corpo
Com água fluvial; não tarde, e as reses
Venham com ela e as purgações prescritas:
E tu com pia fita as fontes venda.
690 Os que encetei solenes sacrifícios
A Jove Estígio concluir tenciono,
Findar meus males e entregar à pira
A imagem do infiel.” Termina; a serva
Com senil zelo acelerava o passo.

695 Trépida e em fera empresa encarniçada,
Vibrando olhos sangüíneos, e às trementes
Faces de nódoas salpicada, o interno
Claustro penetra, pálida a rainha
Já da futura morte, e furibunda
700 Sobe à fogueira, o tróico ferro despe,
Não para tal crueza reservado.
No ilíaco despojo e nota cama
Depois que atenta, em lágrimas, cuidosa,
Um pouco está suspensa, e reclinada
705 Finais vozes repete: “Ó doces prendas,
Quando o queira um deus e o fado, est’alma
Recebei, libertai-me de pesares.
Vivi, perfiz o destinado curso:
Grande irá minha sombra agora ao Orco.
710 Fundei clara cidade, eu vi meus muros;(21)
No truculento irmão vinguei o esposo.
Feliz, ah! mui feliz, se as quilhas teucras
Aqui nunca abordassem!” Disse, e o rosto
No leito impresso: “inulta morreremos?...
715 Pois morramos, sussurra; assim aos manes,
Assim desço contente. O cru Dardânio
Do mar embeba os olhos nestas chamas,
E estes mortais agouros o acompanhem.”

Não acabava; e sobre o estoque as damas
720 A vêem cair, de sangue as mãos tingidas
E a lâmina espumando. O clamor altos
Átrios atroa; às tontas corre a Fama
De cabo a cabo; com soluços, gritos,
Com femíneo ululado os tetos fremem;
725 Todo o ar retumba do alarido e pranto:
Qual, de hostil assaltada, se em ruínas
Cartago, ou Tiro antiga ardesse em alas
Furentes, ateadas nas dos homens,
Nas cumieiras dos deuses. Aturdida,
730 A irmã convulsa, exânime, açodada,
Carpe-se, afeia o rosto, os peitos fere,
Rompe o tropel, à moribunda exclama:
“Irmã, tu me iludias? Que! foi isto(22)
Que aras, tochas, fogueiras me aprestavam?
735 Qual mais dói? o abandono, o desprezares
Por sócia a irmã? Teus fados repartisses;
Uma hora, um ferro, uma ânsia nos tragasse.
Armei-te a pira eu mesma, e os deuses pátrios
Invoquei, para assim, cruel, jazeres
740 Na minha ausência? A mim e a ti mataste,
E o povo e os padres e a cidade tua.
Dai-me água, eu lave o golpe; e nos seus lábios,
Se alento algum vagueia, os meus o colham.”
Não mais, e os degraus salva; ao colo aperta,
745 Beija a irmã semiviva; entre ais enxuga
Na touca o tetro sangue. Os olhos graves
Quis ela alçar, desmaia: a chaga dentro
Range a golfar. Três vezes, arrimada
Ao cotovelo foi-se erguer, três vezes
750 Rolou no toro; e, baça a vista errante,
A luz no céu procura, e achando-a geme.

A onipotente Juno da agonia
E angústia longa então comiserada,
Do Olimpo Íris despacha, que a luctante(23)
755 Alma desate dos liados membros:
Pois nem de merecida ou fatal morte,
Mas súbito imatura, ah! perecia
De ira acesa; tirado a flava coma
Não lhe tinha Prosérpina, e a cabeça
760 À Estige condenado. Em cróceas penas,
Cambiando cores mil do Sol oposto,
Róscida a núncia vem parar sobre ela:
“O tributo a Plutão mandada levo;
Do corpo eu to desligo.” Disse, e o corta:
765 Foi-se o calor e evaporou-se a vida.

publicado por centrallgames às 00:45
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