Terça-feira, 26 de Abril de 2011

eneida de virgílio:obra completa(3)

LIVRO III

 

Depois que em mal os deuses derribaram
Ásia e a nação priaméia, altivos muros
E Ílio a neptúnia em fumo resolvendo,
A buscar nos suadiu celeste aviso
5 Vários desterros e desertos climas;
E no Ida frígio, ao pé da mesma Antandro
Fabricámos as naus, do fado incertos,
Do rumo e pousadia. Alisto os sócios;
E, entrada a primavera, ordena Anquises
10 Velas dar à ventura: então da pátria
Deixo os portos chorando, a borda e campos
Onde foi Tróia; com Iulo e os Teucros
Exul me engolfo, e os divos e os penates.

Campinas que regera o audaz Licurgo,
15 Vasta mavórcia terra, os Traces lavram:
Nela doce agasalho e amigos lares,
Enquanto quis fortuna, achava Tróia.
Ruim fado aí me aporta, e em curvo seio
Planto Enéia e do meu seu nome formo:
20 Aos de começo tais auspices numes
E à mãe Dionéia sacrifico, e um touro
Nédio imolo na praia ao deus superno.

Um combro ali, coroava-o de hastes crespa
Densa touça de murta e pilriteiro.
25 Cheguei-me, e no arrancar o verde mato,
Para os altares enfolhar com ramos,
Assombroso portento arrepiou-me:
O arbusto que primeiro desarreigo
De negro-rubras gotas o terreno
30 Tábido mancha. Os membros me convulsa
Frígido horror, coalhado gela o sangue.
Puxo outro lento vime, o arcano sondo;
Atro cruor de novo a casca estila.
Mil cuidos penso; às Hamadrias oro,
35 Ao do gético chão fautor Gradivo,
Que a visão ominosa em bem convertam.
Firmo os joelhos na areia, o esforço envido,
Terceira haste acometo; eis de um sepulcro
(Falar devo ou calar?) imo suspiro,
40 Gemente som, no ouvido me estremece:
“Ai! por que me laceras? poupa, Enéias,
Um finado; as mãos pias não profanes.
Gerou-me Tróia, nem te sou estranho,
Nem este humor do tronco mana. Ah! foge,
45 Foge o país cruel, a avara praia.
Sou Polidoro: aqui varou-me e cobre
De hastas férrea seara, que em vergônteas
Agudas verdeceu.” De susto opressa
Títuba a mente, estaco horripilado,
50 Presa a voz à garganta. Ao rei treício
Com grande peso de ouro às escondidas
Mandara o infeliz Príamo este filho
A se educar, já quando, estreito o assédio,
Do sucesso das armas receava.
55 Tróia abatida, o pérfido servindo
A vitória e fortuna agamenônia,
Degola o moço e empolga-lhe o tesouro.
Os corações mortais a que os não forças,
De ouro fome execranda! Assim que os ossos
60 Deixa o pavor, consulto os mais conspícuos,
E primeiro a meu pai conto o prodígio.
Convêm todos que, à frota os austros dando,
Do malvado lugar, poluto hospício,
Nos afastemos. Logo a Polidoro
65 O funeral se instaura, e amontoamos
Sobre o túmulo terra. Altar aos manes,
De azuis listões e exequial cipreste
Enlutado, elevamos; destrançadas,
Como é rito, as Ilíades o cercam.
70 Tépido espúmeo leite e de hóstias sangue
De navetas e taças lhe infundimos;
A alma a vozes no túmulo encerramos,
Três vezes proferindo o extremo vale.

Mal abonança o mar, segura o tempo,
75 E Austro brando sussurra e ao largo invita,
Em nado a praia enchendo, as naus velejam;
Vai recuando a praia e os novos muros.
Sacra à mãe das Nereidas e a Netuno
Egeu, ilha gratíssima cultivam;
80 Que a errar boiava, e o pio arcitenente
Com Mícon celsa atou-a e com Giaro,
E a fez imota, que dos ventos zombe.
Lá fui ter; placidíssima cansados
Nos recebe e agasalha. Ao desembarque
85 A cidade acatamos apolínea.
Ânio rei, que une o cetro e o sacerdócio,
Do febeu louro e fitas adornado
Sai, reconhece o amigo velho Anquises,
Nos toma a destra, nos recolhe e hospeda.
90 Venero o templo ereto em penha antiga:
“Laços(14) dá-nos, Timbreu, dá-nos progênie
E estáveis muros; salva est’outra Pérgamo,
Restos dos Gregos e do imite Aquiles.
Quem nos guia? onde ir cumpre? onde assentarmos?
95 Padre, em nós te insinua, o agouro aclara.”
Então, sinto agitar-se e tremer tudo,
Portas, louro do deus, e o monte em roda;
Muge a cortina, aberto o santuário.
No chão prostrados esta voz nos soa:
100 “O ubérrimo torrão, Dárdanos duros,
Vossa origem primeira, há de acolher-vos:
Ao grêmio vos tornai da prisca madre.
A casa ali de Enéias no orbe inteiro
Tem de imperar, e os filhos de seus filhos,
105 E os que deles nascerem.” Tal anúncio
Ledo alvoroto inspira; indagam todos
A que paragem Febo os mande errantes
E a reverter convide. Anciãs memórias
Recordando meu pai: “Ó chefes, disse,
110 Ouvi-me, roborai vossa esperança.
Creta, berço de Tróia e do alto nume,
Equórea jaz, com o Ida e estados pingues
E amplas cidades cem; donde abordando
Junto ao Reteu, se a tradição me lembra,
115 Teucro, avô nosso, ao reino escolheu sítio.
Ílio nem seu castelo inda existia,
Inda em profundos vales se habitava.
Daqui Réia cultora, e os coribântios
Sistros, e o monte Ideu; fiel silêncio
120 Daqui veio aos mistérios, e jungidos
Leões tirarem de senhora o carro.
Eia, o céu quer, os ventos aplacando,
Vamos já demandar as gnósias ribas:
Não distam muito, com favor de Jove
125 Lá podemos surgir à luz terceira.”
Termina; e um touro mata, honras devidas
A Netuno; a ti outro, ó belo Apolo;
Rês negra aos temporais, branca aos favônios.

Expulso Idomeneu do pátrio sólio,
130 Corre que, evacuada de inimigos,
Livre Creta ficou. Largando Ortígia,
No pélago a voar, passamos Naxos
E os montes seus que em bacanais ressoam,
Donisa verde, Olearo e a nívea Paros,
135 Na azul campanha as Cícladas esparsas,
Fretos de bastas ilhas semeados.
Na faina se ergue a náutica celeuma.
Vozes cruzam: “À Creta, ao ninho avito”.
De ré nos venta a brisa, e dos Curetes
140 A vetérrima plaga enfim tocámos.
Ávido a nova Pérgamo começo;
E, ufana com tal nome, incito a gente
A exalçar o castelo e amar seus fogos.

Já varadas em seco as popas eram;
145 Cuida-se em bodas, cuida-se em lavouras;
Casas regulo e marco: eis plantas e homens
Salteia corrupção que infecta os ares,
Triste ano, peçonhento às sementeiras.
Ia-se a doce vida, ou se arrastavam
150 Corpos a definhar: queimando Sírio
Estéreis agros, ressequidas ervas,
Enfezada a seara o pão negava.
Que eu, ressulcando o mar, de novo em Delos
Consulte humilde a Febo exorta Anquises:
155 Onde o refúgio, o termo a tanta angústia,
Convém tentar; que rota nos prescreva.

Noite era, e o sono os animais prendia:
As divinas efígies e os penates,
Que o ilíaco incêndio ressalvámos,
160 Resplendecendo em sonhos me aparecem,
Donde pelas janelas mal cerradas
Cheia a Lua enfiava o argênteo raio;
Ei-los que do cuidado assim me tiram:
“Não mais o ortígio oráculo demandes;
165 Por nós de grado Apolo aqui to envia:
Nós, Tróia em chamas, sob as armas tuas,
Remedimos contigo o inchado pélago;
Aos teus glória perene, eterno império
Daremos nós: tu longo afã não temas,
170 Procura a tal grandeza igual cidade.
Muda-te, parte, o Délio o determina;
Nem ele aconselhou-te a vir a Creta.
Um país há vetusto, em grego Hespéria,
Fecundo e belacíssimo, colônia
175 De Enótrios a princípio; Itália é fama
Que, de um rei seu, modernos a nomeiam:
Lá, por Dárdano e Jásio, a estirpe nossa
Origem teve; o assento lá teremos.
Vai-te ledo ao bom velho, e o desengana;
180 Sus, de Corito e Ausônia a rota segue.
Júpiter nega-te as dictéias lavras”.

Desta fala e visão estupefato
(Nem foi letargo, não; veladas comas,
Vultos, feições, eu divisar cuidava,
185 E em suor frio o corpo me escorria),
Da cama salto; ao céu tendendo as palmas,
Oro, e holocausto intemerato libo.
Completo o sacrifício, expendo alegre
Tudo a meu pai; que os troncos dois e a prole
190 Ambígua reconhece, e o novo engano
Em que antigos lugares o induziram.

“Filho, a quem de Ílion persegue o fado,
Rememorando ajunta, só Cassandra
Tal me predisse, e uns reinos prometeu-nos,
195 Que ou Hespéria ou Itália apelidava.
Mas quem tão longe crera a estância nossa?
E a quem jamais persuadiu Cassandra?
Febo o melhor nos mostra, eia, cedamos.”
Tudo ovante obedece. Alguns se ficam;
200 Os mais soltamos novamente as velas,
Cursando em cavo lenho o imenso plaino.
Ao largo os barcos, desparece terra,
Céu daqui, mar dali. Bulcão cerúleo
Feia borrasca sobre nós carrega,
205 Treva e horror pelas águas estendendo.
O vento em brenhas escarcéus levanta,
Nos joga e espalha pelo vasto pego.
Tolda-se o dia, e pluviosa a noite
Nos rouba a luz polar; rasgadas nuvens
210 Trovejam, relampeiam. Flutuamos
Sem rumo à toa; Palinuro mesmo
Perde o tino, e confunde a noite e o dia.
Nem fulge estrela nas opacas horas,
E em cerração três dúbios sóis vagamos:
215 Ao quarto, arrumação, que a olho aumenta,
Serros descobre, os topes já fumeiam.
O pano arreia-se, a vogar surdimos:
Estribada a maruja a espuma estorce,
Varre o páramo azul. Das ondas livre,
220 Ilhas do grande Jônio, em grego Estrófades,
Nas praias me recebem: nestas ilhas
Mora a cruel Celeno e as mais Hárpias,
Dês que, enxotadas, os festins medrosas
E a vivenda finéia abandonaram.
225 Monstro maior, nem divinal flagelo,
Nem peste mais voraz brotou da Estige:
Tem laxo imundo ventre e garra adunca,
Aves nojosas, com virgíneos rostos,
Magros, pálidos sempre e esfomeados.

230 No arribar, gordo armento se oferece,
Fato, sem pegureiro, pelo prado:
Investimos a ferro, e aquinhoamos
Na presa o mesmo Jove e os outros numes.
Camilhas na enseada construímos;
235 Regalado manjar nos banqueteia.
Súbito em lapso horrífico as Hárpias
Descem dos montes, a adejar ruidosas;
Pilham tudo, enxovalham, contaminam,
Mesclando a tetro odor funestos gritos.
240 Sob sáxea lapa ao longe retirados,
Cobertos de arvoredo e escura sombra,
N’ara o fogo outra vez e as mesas pomos:
De outro escond’rijo lôbrego, estrondando,
Revoa a turba em roda, e as iguarias
245 Polui com boca impura e tortas unhas.
Arma, arma, à dirá gente eis guerra intimo.
Dito e feito; escondemos sob a relva
Prestes gládios e escudos. Mal deslizam
Por curvas praias a grasnar, Miseno,
250 Que do alto espreita, o cavo bronze entoa:
Tenta-se, estranho ataque! a ferro obscenas
Marinhas aves escalar; mas golpes
No dorso ou plumas nem lesão consentem,
E em fuga, alando-se às estrelas, deixam
255 A presa mossegada e infecto rasto.
Num alcantil Celeno só pousando,
Rompe aziaga em tais vozes: “Guerra, em cima
De novilhos e bois nos estragardes!
Guerra e esbulhar quereis do pátrio reino
260 As insontes Hárpias! Pois ouvi-me,
Gravai n’alma o que a Febo, ó Laomedôncios,
O sumo rei predisse, e a mim Apolo,
E eu rainha das fúrias vos declaro.
Itália demandais, à Itália os fados
265 Com viração galerna ir vos concedem;
Mas antes que mureis o assento vosso,
Desta matança em pena, há de obrigar-vos
Crua fome a roer as próprias mesas.”
Cala, e de surto à selva se recolhe.
270 Gélido o sangue, esmorecemos todos.
Armas não mais; com votos paz rogamos,
Sejam déias, ou fúrias, torpes aves.
Da praia as mãos levanta, e os grandes numes
Com devida oferenda implora Anquises:
275 “Deuses, fora o ameaço, arredo o agouro;
À vossa pia gente auxílio, ó deuses!”

Depressa faz colher a amarra, e soltos
Os calabres safar. Noto incha as velas;
Arando o espúmeo golfo, navegamos
280 À discrição do vento e do piloto.
Já surge à flor Zacintos nemorosa,
Dulíquio e Samos, Néritos alpestre:
Do Ítaco sevo a praguejar o berço,
Os laércios cachopos esquivamos.
285 Descobrem-se de Leucate os nimbosos
Topes, e Apolo aos nautas formidável:
Subimos lassos o pequeno burgo.
Da proa âncora deita-se, amarramos
À borda as popas. Do insperado solo
290 De posse enfim, celebro o lustro a Jove,
Com votos ara acendo, e em tróicos ludos
A acíaca ribeira festejamos;
Taís, nus e ungidos, pátria luta exercem:
É grato, a salvo de inimigos, termos
295 Tanta cidade argólica passado.

Do ano maior a volta o Sol completa,
Gelo hiemal com nortada encrespa os mares.
O éreo cavo broquel do grande Abantes
Do portão prego em meio, e em baixo inscrevo:
300 “Ao Danao vencedor ganhou-o Enéias.”
Largar mando, e em seus bancos os remeiros
Varrem, qual mais, as percutidas vagas.
Dos Feaces escondo aéreos cimos,
Costeio o Épiro, aporto na Caônia,
305 Monto à celsa Butroto. Incrível soa
Que reina aqui Priamides Heleno,
Que do Eacide o toro e graio cetro
Ele os desfruta, e Andrômaca de novo
A cair veio a natural marido.
310 Confuso e em curiosa ânsia abrasado
De escutar ao varão tamanhos casos,
Traspasso o porto, praia e naus deixando.
N’aba de um Simois falso, à hectórea cinza
Festim solene acaso e dons funéreos,
315 Num luco fora, Andrômaca libava,
Os manes evocando ao que de ervosa
Céspide vácuo túmulo sagrara,
E altares dois, a prantear motivo.
Ao distinguir-me e ao ver troianas armas,
320 Se espanta e embaça, atônita desmaia;
Só quando os ossos o calor cobraram:
“Vives? murmura; és tu, divina prole?
Ou se incorpóreo núncio a luz não gozas,
Que é de Heitor?” E inundando-se-lhe as faces,
325 De lamento enche o bosque e de suspiros.
Bem pouco respondendo a seus transportes,
Conturbado boquejo em troncas frases:
“Sim vivo, e a todo o extremo arrasto a vida;
É real quanto vês. Ai! despenhada
330 Do ínclito esposo a tanto aviltamento,
Como o decoro enfim recuperaste?
Andrômaca de Heitor, inda és de Pirro?”

De pejo o rosto abaixa, e em tom submisso:
“Ó só feliz a priaméia virgem
335 Que imolada morreu sobre hostil campa
Nos pátrios muros! Não provou da sorte
Lance algum, nem cativa a heril alcova
Tocou do vencedor! Nós, Tróia em fogo,
De mar em mar rojadas, suportámos,
340 Na servidão parindo, o fausto e orgulho
Do Aquileu caprichoso; o qual à Esparta
Indo aliar-se a Hermione Ledéia,
Escrava me transmite a Heleno escravo.
Mas, do roubo da esposa ardendo em zelos,
345 Das fúrias agitado, o atroz Orestes
De improviso o degola às pátrias aras.
Recaiu, morto Pirro, em parte o reino
A Heleno, que chamou Caônio o campo,
Caônia a terra, de Caon Troiano;
350 Pérgamo, Ílio, é no morro a cidadela.
Qual porém te dirige ou vento ou fado?
Que deus te arroja ignaro às nossas praias?
Onde o que te nasceu já Tróia em sítio?
D’aura mantém-se Ascânio? inda saudoso
355 Da mãe se lembra que perdeu na infância?
Hombridade lhe inspira e esforço antigo
Ser Enéias seu pai e Heitor seu tio?”

Tal num contínuo choro em vão carpia;
Quando com toda a corte o herói priâmeo
360 Das muralhas se adianta, e prazenteiro,
Os seus reconhecendo, os encaminha,
E entre falando largo pranto verte.
No irmos, deparo as tênues Ílio e Tróia,
E árido arroio que simula o Xanto;
365 Abraço-me aos umbrais da porta Scéia.(15)
Desta sócia acolhida os meus se logram:
Régios pórticos amplos os recebem.
Copos do paço em meio a Baco encetam,
Sobre ouro comem, taças de ouro empunham.

370 Corre dia após dia: ao sopro austrino,
Que nos convida, o cárbaso intumesce.
Entro a Heleno e o conjuro: “Ó tróico vate,
Que, dos divos intérprete, os influxos
Do Clário Febo, as trípodes, os louros,
375 Que os astros, que dos pássaros as línguas
Sentes, e avisos da ligeira pena
(Pois feliz curso oráculos me cantam,
E, a ir dos deuses todos persuadido
Da Itália em busca a regiões remotas,
380 Celeno só me augura um monstro infando,
E iras fatais e depravada fome),
Dize, eia, que perigo evitar urge?
Como superarei trabalhos tantos?”

Já do uso as reses mata, e exora o antiste
385 Aos divos paz, da fronte sacra a touca
Desata, e a mim venerabundo e absorto
Pela mão, Febo, ao templo teu me guia,
E a profética boca desencerra:
“Com mor auspício é fé que tu navegas,
390 Filho de Vênus: tal baralha as sortes,
E as encadeia e liga o rei dos numes,
Por que sulques melhor ignotos mares,
E ancores a teu salvo em porto ausônio,
Vai do muito expender-te um pouco Heleno;
395 Que o mais, sabê-lo as Parcas me proíbem,
Ou falar veda-me a Satúrnia Juno.
Primeiro, a Itália próxima, onde cuidas
Que aportas breve, t’a separa e afasta
Com longas terras ínvia longa via.
400 N’água sicana o remo vergar deves,
E o salso golfo Ausônio, o lago Averno,
E a ilha percorrer de Circe Eéia,
Antes que assento firme estabeleças.
Dou-te os sinais, conserva-os: quando achares,
405 Cuidoso à margem de secreto rio,
De enzinha litoral deitada à sombra,
Grande e recém-parida, uma alva porca
A trinta alvos leitões amamentando,
Ali terás descanso, ali cidade.
410 Quanto a roer as mesas, não te assustes:
Rumo há de achar o fado e ouvir-te Apolo.
Destas partes porém, da extrema Itália
Que as das marés do Jônio enchentes lavam,
Safa-te; são de Gregos infestadas.
415 Aqui fixaram-se os Narícios Locros,
E o Líctio Idomeneu cercou de tropas
Os campos de Salento; aqui munida
A pequena Petília Filoctetes
Melibeu tem. Mas quando, além dos mares
420 Surta a frota e na praia erguidas aras,
Os votos cumpras, de purpúreo amicto
Vela a cabeça; a fim que hostil aspecto
Não turbe o agouro. Aos teus nos sacrifícios
Tal seja o rito, observa-o; permaneçam
425 Nesta religião sem falha os netos.

Como à Sicânia te aproxime o vento,
Já claro o estreito passo do Peloro,
Costeia à esquerda com circuito longo,
A destra borda foge e destras ondas.

430 Por convulsão violenta e vasta ruína,
Este lugar, se conta, há largas eras
(Do tempo o que não muda a vetustade?)
Se espedaçou, formava um continente:
Neptunina irrupção rasgou da Hespéria
435 Sicília; augusto braço as lavras parte,
Banha as cidades e limita as praias.
Cila a direita ocupa; e d’água, à sestra,
Grandes golpes três vezes no atro abismo
Caribdes implacada a pique sorve,
440 Três revessa e esguichando açouta os astros.
Presa arreganha a boca e as naus às pedras
Cila atrai, em cego antro: cara de homem,
Do colo ao púbis moça linda, em ceto
Remata enorme, e em útero de lobos
445 Se lhe articulam de delfins as caudas.
O Pachino(16) dobrado, em roda a viagem
Antes ir prolongando, que a disforme
Cila encarar sequer, e a furna horrenda
Com seus cerúleos cães saxissonante.
450 Sobretudo, se hás fé no auspice Heleno,
Se prudência lhe assiste e o enche Apolo,
Só te isto, ó prole diva, amoesto e prego,
E repito e reitero: a Juno excelsa
De grado o nume adora, e a soberana
455 Preces, votos e súplicas abrandem:
É como finalmente vitorioso,
A Trinácria trasposta, irás à Itália.

A Cumas tu chegado, e aos lagos santos
Lucrino e Averno de sonoras matas,
460 Verás no imo rochedo a vate insana
Que os fados canta, e letras, nomes, carmes
Grava e encomenda às folhas, e os numera.
Na gruta eles fechados, não se bolem,
Em ordem se mantêm; mas, se uma aragem
465 Da porta os gonzos vira, encana, e as tenras
Folhas baralha, avoejar a virgem
Pela caverna os deixa, nem mais cura
De arranjar, de os colher: e os inconsultos
Vaõ-se, a cova e a Sibila esconjurando.
470 Posto que da tardança os teus murmurem,
Que plenas velas amarar te possam
Boleadas à feição, dali não partas,
Sem que a teus rogos ela a voz desprenda
E oráculos resolva. Há de a Cuméia
475 As guerras te explicar, d’Itália os povos,
Trabalhos como evites, como os sofras;
E obter-te venerada o salvamento.
Basta; nem de al me é lícito avisar-te.
Anda, engrandece a Tróia, aos céus te exalça.”

480 Tal profetava amigo, e às naus dons manda
Graves de ouro e elefântico embutido,
De argênteos vasos e dodôneos cassos
Abarrota os porões; de malha ajunta
Loriga auritrílice e um capacete
485 De comante cocar, cimeira insigne,
De Pirro arnês. Presentes faz a Anquises.
De práticos nos supre e de remeiros,
Cavalos doa, os sócios provê de armas.

Meu pai de verga d’alto apresta a frota,
490 Que os ventos de servir não desperdice.
Cortês o augur o acata: “Aceito esposo
Da Cípria em celso toro, ó caro aos deuses,
Das perdas ambas de Ílion salvado,
Ei-la, à fronteira Ausônia aproa e voga.
495 Todavia hás mister passar avante:
Dista a paragem que te Apolo inculca.
Vai-te, ó pai venturoso de um tal filho!...
Que! tardo, estorvo os astros que já surgem?”

Não menos boa Andrômaca, à partida,
500 Frígia clâmide a Ascânio traz saudosa,
E roupas de matiz de áureo brocado;
De finas teias o acumula, e fala:
“Do próprio meu lavor, toma estes mimos,
Que testifiquem sempre e te relembrem
505 Da viúva de Heitor, filho, a ternura:
Dos teus recebe as derradeiras prendas,
Só do meu Astianaz tu viva imagem:
Tinha teus olhos, tuas mãos, teu rosto,
E eqüevo hoje contigo enrubescera!”

510 O adeus lhes digo, em lágrimas desfeito:
“Vivei felizes, vosso fado encheu-se;
De transe em transe o nosso nos repulsa.
Já descansais; de arar não tendes mares,
Nem de ir à Itália, que se furta e alonga:
515 D’Ílio e do Xanto contemplais a efígie,
Feitura vossa; com melhor auspício,
Oh! menos seja exposta ao dolo argivo!
Se os campos chego a ver que banha o Tibre,
E à minha gente os prometidos muros,
520 Das propínquas cidades consangüíneas
E dos povos irmãos, no Lácio e Épiro,
Faremos na harmonia uma só Tróia:
Guarde-se este cuidado aos nossos netos.”

Os litorais Cerâunios perpassamos,
525 Donde à Itália é brevíssimo o trajeto.
Cai o Sol, cobre a treva opacos montes:
Sorteiam-se os remeiros, e encostados
No seco doce grêmio, à borda, em ranchos
As forças reparamos; lassos corpos
530 Rega um sono ferrado. Em meio giro
Nem inda a noite as horas conduziam:
Da cama esperta Palinuro; explora,
Cata os ventos, fareja e escuta os ares;
Fita as constelações que resvalavam
535 No mudo espaço; as Híadas chuvosas,
Os gêminos Triões, o Arcturo observa,
E Orion de alfanje de ouro. O céu sereno
Acha; e ao claro sinal que fez da popa,
Tentando a via, os arraiais movemos,
540 E às naus as pandas asas desfraldamos.
Já rubra aurora afugentava os astros,
Quando obscuros outeiros enxergamos
E a baixa Itália. Itália eis brada Acates;
Todos Itália a jubilar saúdam.
545 Uma grande cratera o padre Anquises
Então coroa, do mais puro cheia,
E em pé na celsa popa: “Ó deuses, clama,
Que regeis mar e terra e tempestades,
Fácil caminho e sopros dai favônios.”
550 Refresca o vento; e, a barra já patente,
Num morro o templo de Minerva alteia.
Colhida a vela, ao porto proejamos:
Ele ao nascente arqueia; em face, espúmea
Salsi-aspergida rocha o esconde, o abrangem
555 Com duplo muro torreadas penhas,
Vai-se da praia o templo retirando.
Primeiro agouro, aqui ginetes quatro,
Alvos de neve, o prado à larga tosam.
E meu pai: “Guerra inculcas; para a guerra
560 Se armam, solo hospedeiro, esses cavalos;
Guerra o armento ameaça. Ao carro afeitos
Todavia os quadrúpedes no jugo
Inda podem sofrer concordes freios:
Esperança há de paz.” À deusa oramos
565 Armíssona, que à entrada agasalhou-nos
Ovantes; e, ante as aras frígio amicto
Nos velando as cabeças, como Heleno
Prescrevera, incensada especialmente
Juno honramos Argiva. À risca e em ordem
570 Cumprido o voto, as pontas reviramos
Das antenas velíferas, suspeitos
Sítios que habitam Gregos desertando.
De Tarento se avista o seio, hercúlea,
Se é vera a fama: em frente se levanta
575 Lacínia diva, e o Cilaceu navífrago,
E as torres de Caulon. Distante assoma
O sículo Etna: ouvimos longe o equóreo
Rouco gemido, o embate nos cachopos,
Quebrado o eco na praia; os vaus ressaltam,
580 As areias remexe a marulhada.
E Anquises: “Não me engano, esta é Caribdes,
O de Heleno cantado imano escolho.
Certa a voga puxai, livrai-nos, sócios.”
Disse e cumprem: no instante Palinuro
585 Contorce à esquerda a rugidora proa;
Mareia à esquerda a frota, à esquerda rema.
Curvado o pego ao éter já nos sobe,
Já desfeito o escarcéu nos baixa aos manes.
O sáxeo boqueirão três vezes ronca;
590 Três espadana a espuma e os céus orvalha.

Fatigados nos deixa o Sol e o vento:
Dos Ciclopes à costa arribo às cegas.
Vasto e abrigado o porto, ao pé, cimeiro
Com horríficas ruínas o Etna toa:
595 Ora, atra pícea fumegante nuvem
E candentes fagulhas borbotando,
Flâmeos globos despede e os astros lambe;
Ora extirpadas vísceras do monte
Vomita e expulsa, e a lava no ar glomera,
600 E a mugir no imo abismo o vulcão ferve.
De um raio chamuscado, é voz que pesa
Sobre Encélado a mole do Etna ingente,
Que das rotas fornalhas fogo expira;
E, se de lado por cansaço muda,
605 Do rebramar toda a Trinácria treme
E o céu do fumo tolda. A noite, ocultos
Nas selvas, tais fenômenos curtimos,
Sem do horroroso estrondo a causa vermos;
Que astro nem ar sidéreo esclarecia
610 O carregado pólo, e envolta a Febe
Tinha em manto nimboso a escuridade.

O albor já despontava, e a nova aurora
Removera a noturna umente sombra:
Da mata rompe estranha forma de homem,
615 Magro e mirrado, inculto e miserando;
E às praias suplicante as mãos estende.
Olhamos: sujo, ascoso, hirsuta a barba,
De espinhos cobre-o andrajo apontoado;
Grego no mais, dos que invadiram Tróia.
620 A armadura avistando e o frígio trajo,
Retém-se um pouco, aterrorado estaca;
Logo precipitando-se, a nós corre
Com pranto e rogo: “Pelos céus obsecro,
Pelos deuses e est’aura que respiro,
625 Por onde fordes me levai, Troianos:
É quanto basta. Fui da armada grega,
Sim fiz guerra aos ilíacos penates:
Se é tamanho o meu crime, ao ponto fundo
Atirai-me, afogai-me nestas vagas.
630 De homens se morro às mãos, contente morro.”
Prostra-se, os pés me abraça, e tem-se às voltas,
A confessar quem seja o acorçoamos,
Qual sua origem, que fortuna o agite.
Sem mais demora dá-lhe a destra Anquises;
635 Deste penhor se anima, e diz afoito:
“Ítaco sou, do infortunado Ulisses
Companheiro, Aqueménides me chamo:
Pobre (oxalá durara nesse estado!)
Adamasto meu pai fez-me ir a Tróia.
640 Na pressa de escapar da estância crua,
Os meus cá me olvidaram, do Ciclope
Na cova. Opaca, enorme, em sânie escorre
Da carniça: ele (ó céus, bani tal peste!)
Árduo empinando-se, as estrelas pulsa;
645 Taciturno, feroz, desconversável,
Cruor o ceva e entranhas de infelizes.
Eu mesmo o vi, na furna ressupino,
A mão disforme a dois lançar dos nossos,
Num rochedo esbarrá-los, e em sangueira
650 A espelunca nadar; vi mastigados,
Tábido humor os membros estilando,
Tépidos entre os dentes lhe tremerem,
Que impune folgue, Ulisses não suporta,
Nem de quem é se esquece em tanta afronta.
655 Mal, sepulto em vinhaça e farto impando,
Pousa o inflexo pescoço e jaz na gruta
Imenso, e carnes e o bebido e o sangue
Alija a ressonar; por sorte a postos,
Orando, a um tempo e em roda o acometemos;
660 E, em vingança dos manes dos amigos,
D’haste aguda o só lume lhe furamos,
Na torva testa oculto, e na grandura
Broquel argivo ou lâmpada febéia.
Sus a amarra picai, fugi, mesquinhos;
665 Pois tais, qual Polifemo em antro escuro
O lanígero gado amalha e munge,
Moram Ciclopes cem por essas praias,
Descompassados pelos montes vagam.
Três luas têm de luz enchido os cornos,
670 Dês que entre brenhas por covis me arrasto,
De um serro espreito os monstros, e estremeço
Do estrupido e da voz. Mísero pasto,
Colho bagas, pilritos lapidosos,
De ervas e raízes arrancadas vivo.
675 Sempre alerta, avistando a frota vossa,
De ir-me a ela assentei, qualquer que fosse:
Não é pouco evadir-me à gente infanda.
Matai-me, se o quereis; prefiro a morte.”

Nem acabava, e num cabeço vemos,
680 Entre os gados movendo a vasta mole,
O pastor Polifemo, às notas praias
A descer; monstro horrendo, informe, ingente,
A quem vazou-se o olho, e tenteando
Num pinheiro esgalhado se abordoa.
685 Grei lanosa o acompanha, o só deleite,
O alívio seu: do colo a flauta pende.
Depois que as águas toca e mais se engolfa,
Do olho escavado lava o humor cruento,
E a gemer range os dentes. Já no meio
690 Anda, e as altas espáduas não molhava.
Acelerando a fuga, o suplicante
Com razão recolhido, nós cortamos
Tácitos as amarras, e encurvados
Remando à competência, o mar varremos.
695 Sentiu-nos, e ao sonido os passos torce.
Mas, deitar-nos a destra não podendo,
Nem ao alcance igualar do Jônio a altura,
Desmarcado urro dá, com que de espanto
Tremeu toda a Trinácria, e o ponto e as ondas;
700 Do Etna as cavernas ocas remugiram.
Da espessura e montanhas rui e acode
Dos Ciclopes a raça e inunda as praias.
Quedos e embalde a olhar com torvo lume,
Esses etneus irmãos, congresso horrível!
705 Mostram-se desferindo aos céus as frontes:
Quais aéreos carvalhos, no mor auge,
Ou ciprestes coníferos topetam,
De Jove em mata ou luco de Diana.
Urge o medo a soltar cabos e velas,
710 E ir à feição dos ventos. Mas Heleno
Entre Cila e Caribdes proibiu-nos
Seguir a letal via: à orça o linho,
Toca a virar. Eis Bóreas venta amigo,
Do estreito do Peloro: a foz transponho
715 Do Pantágias aberta em roca viva,
E o sino de Megara e Tapso humilde.
Tendo a costa Aqueménides corrido
Com o Ítaco infeliz, tudo apontava.

Contra o Plemírio undoso, ilhota ao golfo
720 Sículo opõe-se: a Ortígia dos antigos.
O Alfeu d’Élide, é fama, aqui rompera
Submarino; hoje mescla-se, Aretusa,
Por tua boca nas sicanas ondas:
Lembrado, os numes do lugar venero.
725 Passo do Heloro o pingue alagadiço;
Terra a terra, os penedos do Paquino
E o saliente cabo. A não mover-se
Fadada, lá nos surge Camarina,
De Gela os campos e a cidade amplíssima,
730 Que do rio que os banha se apelidam.
O árduo Agragante, gerador outrora
De briosos corcéis, de longe ostenta
Grã muralha. De ti me aparta o vento,
Palmífera Selinis; e traspasso
735 Os parcéis lilibeus de escolhos cegos;
Drépano desalegre enfim me aloja.
Aqui, repulso à força de borrascas,
Ah! perco o genitor, na angústia e penas
Meu só conforto: a mim desconsolado
740 Ai! tu, de riscos mil vãmente ileso,
Aqui, ótimo pai, tu me abandonas.
Tais lutos, augurando Heleno horrores,
Não mos predisse, nem a infausta Hárpia.
Eis o último trabalho, eis a baliza
745 De navegações longas. Deste porto
Um deus fez-me arribar às vossas praias”.

Assim, tudo em silêncio, o padre Enéias
Divinos fados enarrava, e expunha
Tanto peregrinar. Calou-se a ponto,
750 E, findo o seu dizer, foi repousar-se.

publicado por centrallgames às 00:44
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